Ante a naturalização da barbárie, sociedade precisa se unir por um pacto republicano

Publicado no site Justificando em  10 de abril de 2017

Há algum tempo não escrevo. Não tenho me sentido capaz de romper o silêncio e vencer a impotência diante do que tem acontecido, sobretudo no Rio de Janeiro. Há uma desproporção irredutível entre a barbaridade das execuções extra-judiciais e os adjetivos disponíveis na linguagem verbal. Entre as barbaridades que têm sido ditas nas inacreditáveis tentativas de justificação do injustificável e as qualificações oferecidas pela língua portuguesa. Entre o assassinato da menina Maria Eduarda (desgraçadamente, apenas mais uma vítima) e as palavras que o discurso pode mobilizar. Entre os seguidos assassinatos de policiais e a pobreza do vocabulário acessível. Entre a naturalização da barbárie e as palavras que consigo articular. Esgotou-se o repertório do dizível. Não há mais ênfase possível, depois que a desgastamos em nossas denúncias e críticas proclamadas a todo volume. Por outro lado, o silêncio não é solução e a inércia é cúmplice do status quo.

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Pacto sinistro

Publicado no site Justificando, terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

A sociedade brasileira atravessa turbulências originais. Depois do deslocamento de placas tectônicas em 2013, com a emergência massiva de novos protagonismos, muita água passou por baixo da ponte, e também por cima dela, com o ímpeto de um tsunami que ameça levá-la na enxurrada –a ela e a todas as demais pontes, não só retóricas. O ódio tomou o poder e reina, soberano.

Na falta de projetos alternativos, a insurreição sublimada faz tremer os pilares da sociabilidade e das instituições. Em síntese, eis o que, a meu juízo, ocorreu: Dilma foi reeleita negando a crise e prometendo dar continuidade à era de prosperidade e redução das desigualdades –é inegável que os dois mandatos de Lula constituíram um marco histórico, nesse sentido (os dados são eloquentes), graças ao casamento feliz entre a virtude (a visão, a ousadia e a habilidade do presidente) e a fortuna (o contexto internacional tão favorável).

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A esquerda e o novo lugar do indivíduo

Artigo publicado no caderno Ilustríssima da Folha de São Paulo em 27/11/2016

De meu ponto de vista, a esquerda é o campo político daqueles que não aceitam desigualdades que se projetem sobre os potenciais de desenvolvimento das crianças. Empenham-se na construção de sociedades, em escala global, livres de racismo, misoginia, homofobia e intolerância religiosa. Não aceitam a redução da liberdade, senão nos limites ditados pela necessidade de fazê-la igualmente acessível aos outros. A forma de vida idealizada por uma esquerda libertária, com a qual me identifico, é aquela na qual respeito à alteridade e emancipação individual constituam o núcleo central da moralidade. É a forma de vida em que caiba ao Outro a descrição de si mesmo, independente de classificações prévias. É aquela na qual a individualidade é experimentada com radicalidade criativa e não implica individualismo, porque inclui engajamento coletivo na universalização de suas condições de possibilidade.

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Manifesto em solidariedade a Luiz Eduardo Soares

Meus sinceros agradecimentos à manifestação de solidariedade, cujo valor, para mim, foi inestimável. Agradeço às organizadoras e a cada um e cada um que endossou o manifesto.

Luiz Eduardo Soares 31/10/2016

Nós, intelectuais, artistas, estudiosos e ativistas do campo da segurança pública vimos a público manifestar nosso repúdio à forma vil com que o candidato à prefeitura do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella, nas inserções diárias de rádio e TV da propaganda eleitoral, desde a última sexta-feira, dia 20/10, ataca o antropólogo Luiz Eduardo Soares, acusando-o de ter vínculos com redes criminosas.

Num país em que a segurança pública não é garantida para a grande maioria da população e onde 60 mil homicídios acontecem a cada ano, especialistas como Luiz Eduardo Soares vêm dedicando sua energia na busca por políticas que garantam a possibilidade de se viver com mais segurança, justiça e igualdade. Luiz Eduardo é uma das maiores autoridades do país nesse campo e sua competência é reconhecida dentro e fora do Brasil.

Entendemos que o período eleitoral deve ser um momento para que candidatos apresentem propostas e possam ser avaliados pela população a partir de ideias, de seu compromisso com a verdade e da lisura no trato da coisa pública. Nesse sentido, repudiamos com veemência os ataques a Luiz Eduardo feitos pelo candidato à prefeitura Marcelo Crivella, que faltam com a verdade e revelam completa falta de escrúpulos na ambição pelo poder.

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Carta aberta aos membros da REDE

Segunda-feira, 3 de outubro de 2016

*Os signatários postergaram a publicização desta carta aberta até o dia seguinte às eleições para evitar seu eventual uso eleitoreiro, prejudicando candidaturas, injustamente.

Por que saímos da REDE Sustentabilidade

Passadas as eleições municipais, seria importante que a REDE realizasse um balanço político. Mais do que o exame dos resultados alcançados em sua primeira participação eleitoral, trata-se de avaliar o percurso político até aqui tendo em conta os propósitos que estiveram presentes na fundação do partido.

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As acusações contra Lula e a contrarreforma

Publicado no site “Justificando” em 16 de setembro de 2016

O Ministério Público Federal, atuando no Paraná, entendeu que o ex-presidente Lula é o chefe de um organização criminosa que assaltou o Estado brasileiro. Os procuradores fundamentaram sua conclusão em três interpretações dos fatos identificados nas investigações: 1) indivíduos que desempenharam funções públicas favoreceram interesses privados, em troca de propinas milionárias, as quais foram divididas com outros indivíduos e partidos políticos. Entre os beneficiários estava o PT; 2) Os corruptos foram nomeados com o aval do presidente da República; 3) O presidente sabia o que faziam.

A intenção deste artigo é questionar esta acusação a Lula. Eu o faço com a autoridade moral de quem tem denunciado a corrupção dos governos petistas, desde antes do mensalão; de quem sempre defendeu a Lava-Jato e admira a competência, a coragem e a independência do procurador Deltan Dallagnol.

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Programa de Governo de Alessandro Molon (REDE), candidato a prefeito, e de Roberto Anderson (PV), candidato a vice-prefeito do Rio de Janeiro

A presente versão do programa representa estágio preliminar de um trabalho em progresso, aberto a novas contribuições, tanto do PPL, que agora se integra à aliança, quanto de todos que se disponham a colaborar, seja via internet, seja presencialmente, em nossas rodas de conversa. Suas fontes foram várias: contribuições de colaboradores individuais, de grupos de trabalho, de especialistas e ativistas consultadas e de sugestões registrada nas redes sociais e em nossa plataforma: <juntospelorio.com.br>

Além do programa, a campanha Rede-PV e o candidato a prefeito do Rio de Janeiro, Alessandro Molon, firmam seu compromisso com os seguintes documentos:

–Carta de Princípios da Associação Internacional de Cidades Educadoras

–Carta de Itacoatiara- Reconectando a Juventude na Política

–Rio Agenda 21

–Carta Compromisso – Plano Municipal da Primeira Infância no Rio- Rede Nacional da Primeira Infância

–Carta de Adesão ao Programa Cidades Sustentáveis

Clique aqui para baixar o PDF do programa completo>>

After the party: Rio wakes up to an Olympic hangover

publicado no site do The Guardian em 21/08/2016

The Olympic Games are coming to a close, having demonstrated once again that Rio de Janeiro knows how to organise and promote big events. But after the party, and the billions spent to show the world that we deserve a place among the great democracies, comes the hangover; the bills begin to arrive, and we have no way to pay. As the festive air and the tourism subside, and with the Paralympics due to start in a matter of weeks, the old problems remain.

It is now that the residents of Rio de Janeiro begin to wonder: what will the legacy be? As we present ourselves to the world, have we revealed our faults? Or has the power of our cultural creativity come to the fore? Therein lies the contradiction of Rio: the combination of beauty and poverty, hedonism and inequality, a carnival atmosphere and bloody violence.

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Meu encontro com Prestes

publicado em 26 de outubro de 2015, no site Justificando

À memória de Joel Teodósio

 

No primeiro semestre de 1980, após insistentes solicitações, Prestes abriu uma janela na agenda concorrida para nos atender. Combinamos – eu e o saudoso Joel Teodósio – chegar um pouco mais cedo e nos encontrar na portaria do prédio, em Botafogo, onde o secretário geral do partido comunista nos receberia. A legenda ainda era ilegal, mas, àquela altura, com a anistia em pleno vigor e a ditadura em franco declínio, não levávamos mais a sério a clandestinidade. Os dois fomos pontuais. Eu estava nervoso como noivo à moda antiga que vai ser apresentado ao futuro sogro. Por mais que houvesse abismos entre nós, Prestes era um dos principais personagens da história do Brasil. Eu e Joel militávamos no velho PCB. No meu caso, desde o começo dos anos 70. Prestes não era como um de nós, era um ser mitológico que frequentava livros de história e o imaginário popular. Em 1924, abandonou o posto de engenheiro-capitão do exército, no Rio Grande do Sul, para liderar uma grande marcha com mil e quinhentos homens. A coluna Prestes, como passou a ser conhecida, percorreu, em dois anos e meio, 25 mil quilômetros, pregando uma revolução nacional popular, sem ideias claras ou filiação ideológica definida. O movimento acreditava no progresso e na soberania nacional, na valorização dos mais pobres e na afirmação de um poder público honrado. Exilou-se em 1928 e retornou ao país em 1930, clandestinamente, convertido ao marxismo. Foi para Moscou em 1931 e voltou em 1934, apto a ingressar no PCB, fundado em 1922, do qual, em 1943, embora preso, tornar-se-ia secretário geral. Passou nove anos em uma cela solitária, de 1936 a 1945.

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A hora e a vez do pacto republicano

Coluna para o site Justificando publicada em 26/05/2016

Eis o abacaxi: quando, por vias formalmente compatíveis com ditames constitucionais (mesmo havendo notório erro de juízo), um grupo político infestado de mafiosos assume o poder federal (deixo de lado, para efeito de raciocínio, os vínculos evidentes com grandes interesses econômicos), é preciso mobilizar a grande tradição do pensamento político para enfrentar o desafio, cujo caráter é, simultaneamente, intelectual, ético, legal e político. O cidadão democrata e republicano, fiel a seu dever constitucional, ao mesmo tempo indignado ante a gravidade ético-política da conjuntura, coloca-se a pergunta, o que fazer?, posto que já não basta contemplar e opinar. Agir é um imperativo ético e uma necessidade política. Entretanto, sem formular, intelectual ou conceptualmente, a natureza holográfica do abacaxi, em suas múltiplas camadas e dimensões - um monumental abacaxi-em-movimento -, não há como decidir o caminho, como definir o rumo. Nesse momento, a reflexão acumulada da filosofia política ajuda.

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