Trazemos hoje o quarto texto da série Autorais Luiz Eduardo Soares, “Os Impasses da Teoria da Cultura e a Precariedade da Ordem Social”, publicado em 1984 na série Cadernos do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (Unicamp).
Revisitando um debate aparentemente superado, Luiz Eduardo Soares reconstrói os caminhos que aproximaram as ciências sociais da linguística e da filosofia da linguagem, trazendo à tona os pressupostos estruturalistas que orientaram grande parte da reflexão sobre a cultura no século XX. Mas é justamente nos limites desse paradigma que emerge a questão fundamental do ensaio: como é possível o ato não determinado estruturalmente? Ao recuperar o problema da indeterminação da subjetividade, o autor recoloca em cena a precariedade da ordem social, como uma característica constitutiva de sua formação.
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“As bases da desobediência legítima segundo Hobbes, Locke, Hume, Rousseau, John Stuart Mill e Burke” é o terceiro texto da série Autorais Luiz Eduardo Soares. Escrito em 1982, o ensaio foi originalmente publicado em 1989 na série Estudos, nº 69, do Iuperj, sendo mais tarde republicado nos livros Os Dois Corpos do Presidente, de 1993, e Legalidade Libertária, de 2006.
No texto, Luiz Eduardo realiza um amplo balanço da teoria política moderna a partir do problema da desobediência legítima à autoridade pública, discutindo a controvérsia, no pensamento dos autores em questão, acerca dos fundamentos da obrigação política, da legitimidade do poder, da preservação da ordem constitucional e da própria constituição do Estado moderno.
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Publicamos hoje o segundo texto da série Autorais Luiz Eduardo Soares, “Campesinato e Capitalismo”, originalmente capítulo do livro Campesinato: ideologia e política, de 1981.
O texto nos convida a rever a questão agrária a partir das contradições vividas pelo campesinato no Brasil. Numa formação social em que predomina o modo de produção capitalista, argumenta o autor, o campesinato não pode ser compreendido nem como resíduo pré-capitalista, ou não capitalista, nem como simples engrenagem funcional ao capital. Articulando teoria marxista, crítica ao estruturalismo e um estudo etnográfico de Bom Jesus, o autor revela como a relação entre capitalismo e pequena produção agrícola é muito mais complexa, ambígua e politicamente disputada do que sugerem as interpretações tradicionais.
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A BVPS apresenta sua nova série Autorais, que tem a honra de publicar uma seleção de textos de Luiz Eduardo Soares, uma das maiores referências do debate sobre a segurança pública no país.
Luiz Eduardo Soares construiu uma trajetória acadêmica singular, que não se deixa domesticar pelas fronteiras da especialização e transita com o “rigor da indisciplina” entre a universidade e o campo da gestão estatal. Uma grande curiosidade intelectual indomável aliada a um senso de justiça pública e participativa talvez seja o fio que percorre tantas contas diferentes nessa trajetória desafiante, múltipla, colorida, única – na qual o trabalho intelectual nunca se separa do compromisso ético com a realização dos direitos humanos.
Agradecemos a Luiz Eduardo Soares por nos permitir compartilhar com as leitoras e os leitores da BVPS uma amostra de seu pensamento crítico e provocador.
A seleção de textos da série reúne diferentes momentos decisivos desse percurso, de ensaios já clássicos a escritos ainda inéditos. Mudam os objetos, mas permanece a preocupação com os modos pelos quais a sociedade e seus outros produzem sentido, legitimam ordens e enfrentam a precariedade constitutiva da experiência humana.
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Publicado 16/03/2026 no Site Outras Palavras
Há três perguntas diferentes sobre as mudanças desejáveis na segurança pública: (A) O que devemos construir nessa área, a longo prazo, em paralelo à redução das desigualdades e ao enfrentamento ao racismo estrutural, para que a democracia brasileira se consolide e aprofunde? (B) O que se deve propor ao futuro governo Lula, a partir
As três questões são importantes e não podem ser confundidas. E atenção: sem resposta à primeira indagação, ficaremos sem rumo, sem projeto estratégico, sem horizonte. Sem visão estratégica, permaneceremos girando em falso, condenados a decisões reativas, a movimentos erráticos e defensivos, a iniciativas fragmentárias no varejo das conjunturas, seja quanto ao próximo governo, seja quanto à própria campanha eleitoral. Em outras palavras, sem uma boa resposta à primeira pergunta, seremos incapazes de formular as duas outras respostas.
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Publicado 09/03/2026, no site OUTRAS PALAVRAS
Antropólogo analisa como uma tríade – clientelismo armado, milícias e captura institucional – forjou o ultradireita, contando com o “realismo político” de parte da esquerda. Diálogo e pluralidade, diz, são antídotos ao vírus impotência coletiva
Luiz Eduardo Soares em entrevista a Thiago Gama
No ano de 2026, a restauração trumpista reconfigura mapas e desarticula a própria gramática da diplomacia liberal — e o Rio de Janeiro, neste cenário, não como um enclave de exceção, mas como um dos laboratórios biopolíticos mais avançados da necropolítica do descarte no Sul Global. O que se testemunha é uma inversão topográfica definitiva: a falência da promessa civilizatória da capital diante de uma Baixada Fluminense que, longe de ser um resíduo do passado, colonizou o centro do poder com sua lógica de mandonismo armado e clientelismo despótico. Esta metástase institucional revela que a transição democrática brasileira foi um simulacro geográfico; o “gangsterismo mafioso” das periferias não apenas infiltrou o Estado, mas converteu-se na sua própria infraestrutura logística.
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Entrevista publicada no site do Instituto Humanitas Unisinos, 04 Março 2026
Neste proscênio de 2026, onde a restauração trumpista não apenas reconfigura mapas, mas desarticula a própria gramática da diplomacia liberal, o Rio de Janeiro emerge não como um enclave de exceção, mas como o laboratório biopolítico mais avançado do Sul Global
O que se testemunha é uma inversão topográfica definitiva: a falência da promessa civilizatória da capital diante de uma Baixada Fluminense que, longe de ser um resíduo do passado, colonizou o centro do poder com sua lógica de mandonismo armado e clientelismo despótico. Esta metástase institucional revela que a transição democrática brasileira foi um simulacro geográfico; o “gangsterismo mafioso” das periferias não apenas infiltrou o Estado, mas converteu-se na sua própria infraestrutura logística.
A prisão de Rivaldo Barbosa e o desfecho do caso Marielle Franco não são, portanto, anomalias de um sistema que falhou, mas a evidência de um sistema que opera em sua plenitude técnica.
Estamos diante de uma “arquitetura da impunidade” onde a eliminação política foi assimilada como um procedimento administrativo ordinário, operado de dentro dos gabinetes que, por um cinismo ontológico, deveriam salvaguardar a justiça. Aqui, o Estado deixa de ser o mediador do conflito para se tornar o Demiurgo do crime, um arquiteto que desenha o próprio labirinto onde a memória social é conduzida ao abate. É o que poderíamos chamar, em uma visada mais radical, de uma “estetização da barbárie”, onde a força bruta prescinde de máscaras jurídicas para se afirmar como a única natureza real.
Essa soberania territorial encontra seu espelhamento e sua ampliação na expropriação do sensível operada pelo “capital de nuvem”. A Governança Algorítmica não se contenta em capturar dados; ela opera uma predação do Pneuma, devastando a capacidade metonímica do sujeito e substituindo o pensamento arquitetônico pela descarga espasmódica de adrenalina do scrolling infinito.
É a aniquilação da faculdade de fabular mundos: quando a linguagem é devorada por algoritmos que expelem uma sucessão esvaziada de laços lógicos, a política coletiva reduz-se a um simulacro processado em silos digitais. O indivíduo, capturado por uma epistemologia orgânica que altera sua própria bioquímica hormonal, torna-se incapaz de articular uma dissidência que não seja, ela mesma, uma peça na engrenagem da acumulação algorítmica.
Nesse cenário, a geopolítica do medo se reorganiza para enfrentar o que resta de resistência no Sul Global. O elixir da barbárie — que encontra em Gaza e no Trumpismo de 2026 suas versões mais sanguinárias — sinaliza o fim do soft power e a entronização da força como o único imperativo categórico.
O capitalismo contemporâneo, no osso, dispensa as mediações culturais e impõe-se como uma autopoiese autofágica. Resta-nos, entre as ruínas dessa modernização conservadora e o avanço da noite feroz, a insistência em uma philia visceralmente avessa ao pugilato fratricida, buscando nas frestas da imprevisibilidade histórica a faísca de uma soberania que ainda não tenha sido codificada.
Esta entrevista não é um mero protocolo acadêmico; é o registro de uma interlocução necessária entre o rigor da História Comparada e a carne viva de uma das mentes mais brilhantes e corajosas da nossa era.
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Morreu meu amigo Raul Jungman. Viemos do mesmo campo político, ao longo do caminho nos separamos, passamos a pensar diferente, mas nunca deixamos de gostar um do outro, de nos respeitar, de passar juntos bons momentos, de sentir prazer no convívio, mesmo com as diferenças e até por conta delas, de aproveitar o conhecimento um do
outro, que sempre soubemos valorizar. Há muitos anos conheci seu filho Bruno, uma pessoa adorável, maravilhosa, encantadora, que se tornaria um fotógrafo de grande talento. Bruno morou em nossa casa, minha e de Miriam, e se tornou nosso afilhado, parte de nossa família, que, por extensão, incluiu sempre Patricia. Raul me ligava todo domingo à noite, quando era ministro da segurança. Me falava de sua perplexidade, de seu espanto. Conversávamos horas a fio. Ele nunca deixou de ser uma pessoa dos direitos humanos, nunca renegou sua origem, e sempre foi, acima de tudo, um político democrata e do diálogo. Um construtor de pontes. E sempre acreditou no país, no povo brasileiro. Quando Marielle foi assassinada, eu estava em Londres, acompanhando Miriam, que foi a trabalho. Natalia nos avisou da tragédia e eu liguei imediatamente pra ele. Estávamos todos arrasados, ele também. Viemos pro Rio e ele veio à nossa casa, encontrar-se conosco e com Marcelo Freixo. Era preciso reagir, fazer justiça. Passamos juntos muitos momentos difíceis. Eu o chamava de general, brincando, ele me chamava de marechal. Minha amizade com Raul foi sempre maior que nossas divergências, e não eram poucas. Isso explica por que me sinto assim tão triste, querendo abraçar o Bruno e toda a família.
#RaulJungmann