Luiz Eduardo Soares: “Há um clamor por segregação no Rio”

Antropólogo lança livro com mosaico de histórias sobre o Rio, apresentado como um microcosmo das tensões sociais do país

Qual o Brasil de hoje? Qual o país de ontem? O furacão político-institucional vivido hoje tem paralelo na história? 2015 vai repetir 1964 ou 1954? Seria preciso um vidente para responder a questões como essas, que atormentam a nação. Ou então alguém experimentado, estudado ou que tenha sentido muitas dessas experiências na própria pele. É o caso do escritor e antropólogo fluminense Luiz Eduardo Soares, 61 anos. Além de intelectual respeitado até pelos adversários politicos, vivenciou em cargos executivos do governo federal, do governo estadual do Rio e de municípios (como Porto Alegre), o lado prático das questões nacionais: as puxadas de tapete do xadrez partidário, as contradições ideológicas, as decepções com as trapaças do sistema e dos que o enfrentam.

Problemas econômicos do Brasil têm origem na tensão política

Soares está lançando seu 15º livro, Rio de Janeiro: Histórias de Vida e Morte, em evento previsto para esta segunda, às 19h, na Livraria Cultura (Tulio de Rose, 80), incluindo um bate-papo com o sociólogo Marcos Rolim. No livro, Soares passa a limpo suas seis décadas de andanças pela capital fluminense.

Rio de Janeiro está longe de ser obra linear. Vai e vem, sem preocupação com ordem cronológica, no ritmo de uma conversa interrompida por cada novo amigo que chega ao bar. Descritas em detalhes saborosos, as situações são, na maioria, autobiográficas. Algumas, da rotina de amigos. De todas Luiz Eduardo participou, como protagonista ou espectador.

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É assim que um extasiado Luiz Eduardo se reencontra com as origens de esquerda e flutua empurrado pela multidão de black-blocs, nos protestos de junho de 2013. O escritor faz o leitor navegar num barco carregado de cocaína, pela narrativa de um playboy entediado que se tornou um grande traficante internacional. Uma história tão mirabolante que pareceria um clichê de filme B, mas aconteceu de fato.

Na memória do antropólogo ainda criança, o leitor acorda com o cano de um canhão contra a janela do quarto, no alvorecer do golpe militar, em 31 de março de 1964. A residência é a de Luiz Eduardo, cuja família se dividiu entre apoiadores e opositores à ditadura. No livro, o leitor também percorre a favela dentro do carro blindado do chefe de uma das três grandes facções do tráfico no Rio. Ele busca conselhos com o intelectual Luiz Eduardo, mas não os segue.

Por que, desta vez, o senhor optou por um mosaico com o Rio como pano de fundo, em vez de um livro temático?

Não há uma síntese do Rio de Janeiro. Nenhuma definição seria suficiente. Nenhum conceito daria conta da complexidade, das contradições e da multiplicidade de experiências, vozes, interesses e paixões. Nenhum relato daria conta da variedade. Por isso, assim como fez Suketu Mehta, em seu Bombaim: Cidade Máxima, optei por compor um mosaico de narrativas. Desse modo, relatei histórias verdadeiras e surpreendentes, levando o leitor a mergulhar nas mais diversas áreas e dimensões do Rio de Janeiro, deixando os clichês de lado. Minha escolha foi contar histórias, não analisá-las.

O Rio tem passado pelo fenômeno dos arrastões e das milícias de jovens marombeiros decididos a bater nos batedores de carteira. É um fenômeno que vai se espalhar pelo Brasil?

Claro que sempre há risco da contaminação, porque fenômenos sociais às vezes se propagam por imitação, inspiração, mimetismo e emulação. Por isso, é perigosa a criação e disseminação de uma nova linguagem de expressão do ódio e de articulação da violência. E também é verdade que o racismo e a reação contra o declínio das desigualdades e das segregações existem, pelo menos potencialmente, em todo o Brasil. Veja o que ocorreu em 2013 com os rolezinhos: performances coletivas derrubavam, simbolicamente, as barreiras invisíveis, embora reais, que afastavam jovens pobres e negros de espaços frequentados pelas elites. Sem violência, divertindo-se e cantando, grupos de jovens da periferia de São Paulo atravessavam os shoppings, celebrando e afirmando a mudança nas cartografias sociais, redefinindo a geopolítica interna de nosso país, sepultando segregações. Esse movimento sensibilizou o imaginário nacional e, no Rio de Janeiro, um grupo de playboys de classe média linchou um jovem negro, amarrando-o a um poste e o abandonando nu, reduzido a uma posta de carne. Prendê-lo ao poste significava fixá-lo, bloquear o fluxo geopolítico antissegregacionista. Agora, mais uma vez, as praias do Rio se converteram em arena na qual se vivencia o medo do Outro, do bárbaro. O impulso reativo é interromper a mobilidade e manter a cidade dividida. Entretanto, agora, tudo é mais complicado, porque o rolezinho não era violento nem criminoso, mas os arrastões são violentos e envolvem a prática de roubos e furtos. A reação, no entanto, dos que se sentem ameaçados, em geral, é a mesma: um clamor por segregação.

E qual seria a solução?

Para superar esta situação dramática, só uma repactuação: o Estado se comprometeria a respeitar as leis, renunciando às execuções extrajudiciais e aplicando a lei de execuções penais, no sistema penitenciário, e as comunidades vulneráveis se mobilizariam para politizar o ressentimento dos jovens e ajudar a impedir que os grupos acatem instruções de traficantes e ajam autodestrutivamente, reforçando preconceitos.

O senhor foi candidato a vice-governador no início dos anos 2000, mas em vários capítulos fica perceptível sua decepção com o “toma lá da cá” da política convencional. Descarta nova candidatura?

Descarto, sim. Candidatura, nunca mais. Depois do que passei, e que relato no livro, o leitor e a leitora entenderão por que desejo me manter longe da política eleitoral. Quanto a identidades partidárias, ajudei a criar a Rede Sustentabilidade.

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