Ricardinho, pequena homenagem à sua memória

Luiz Eduardo Soares

 

Essas lembranças são uma pequena homenagem à memória de Ricardo Benzaquen de Araújo, amigo da vida toda. Se me incluo no relato, é porque, em vez de uma descrição distante e objetiva de sua obra, prefiro dar o testemunho dos efeitos de sua presença em minha vida.

Conheci Ricardo nos pilotis da PUC, no Rio de Janeiro, no início dos anos 1970. Eu, calouro, ele já na metade do curso; eu em Letras, ele em História. A despeito das escolhas diferentes, logo nos encontramos nas admirações comuns, entre elas, e com destaque, o professor Luiz Costa Lima. Lembro das conversas animadas com uma tribo muito interessante, que incluía Sérvulo Figueira, George Lamaziére e Eduardo Viveiros de Castro. Apesar da atmosfera carregada –afinal, vivíamos os anos mais sombrios da ditadura–, havia ali uma vitalidade apaixonante. Éramos ambiciosos, irônicos e críticos corrosivos de quase tudo, e nos divertíamos, sem perder a conexão com o sentido dramático do tempo.

Pessoalmente, eu não queria muita coisa, só mudar o mundo, e Ricardo, cujos sonhos de mudança não eram menos ardentes, tinha, mais que eu, os pés no chão e a cabeça no lugar: ele me dava a mão e me devolvia à realidade, em sua extraordinária complexidade, suas contingências, variações, incertezas, em sua imprevisibilidade. Ele me ensinava, sem assumir tom professoral, que entre cores opostas e polos antagônicos havia todo um gradiente, cuja percepção exigia sensibilidade refinada e adestrada pela erudição. Ricardo mostrava que sob a grandiloquência das ideologias germinava a despotencialização do pensamento, debaixo do manto sagrado das utopias heroicas oculatavam-se pesadelos totalitários. Nossa amizade era o mais poderoso antídoto às tentações da Hybris. Por outro lado, o ceticismo de Ricardo era risonho e leve, delicado e afetuoso, nunca ríspido, jamais arrogante, e não conduzia ao imobilismo ou à resignação. Esse híbrido formava um cristal precioso, uma obra holográfica que resultaria em auto-construção original e luminosa. Por isso, desde o primeiro dia e para sempre, Ricardinho.

Só havia uma nota destoante: Ricardo era o vascaíno do grupo, o que contrastava com suas inclinações céticas. Ele nascera para ser botafoguense, dizíamos; um acidente infantil provavelmente confundira, em seu espírito, os pretos e brancos.

Voltaríamos a nos encontrar no PPGAS do Museu Nacional, estudando antropologia, e, bem mais tarde, compartilhando laços afetivos e intelectuais com Otavio Velho, seu orientador no doutorado, meu orientador no mestrado, nosso mentor e amigo. Durante 14 anos, entre 1987 e 2000, como professores do antigo IUPERJ, fomos vizinhos de sala, separados por uma divisória fina e frágil. Passávamos dias e, tantas vezes, noites, lado a lado, às vezes os fins de semana, compartilhando o cafezinho e conversas intermináveis. Desde então, penso em nosso convívio como uma única e longa conversa que se estende e desdobra, sem fim, apenas interrompida para os ossos do ofício. Mesmo quando a vida nos afastou, sua voz ressoava, risonha e melancólica, me alertando para o fato de que nada está resolvido, jamais suficientemente compreendido, e, por isso, convém evitar julgamentos e sentenças definitivas. Conhecimento é ciclo infinito da leitura dos leitores de sucessivas gerações e da escuta paciente das palavras. Ricardinho exerceu a erudição como poucos em nosso país, não como atletismo da soberba, mas, ao contrário, como antídoto à onisciência.

Agora, o intervalo, a conversa interrompida, resta a tarefa de ajudar tantos irmãos, órfãos de sua amizade, a fazer ecoar o rumor generoso, doce e amargo, de sua sabedoria e de seu amor.

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