Ódio na internet e o punitivismo no Brasil

Publicado no site Justificando em 3 de janeiro de 2018

Que paixão é essa, que incendeia as palavras nas redes sociais? A publicação de uma fotografia dispara uma saraivada de posts irados. Estamos diante de um fenômeno que transcende a psicologia individual e a política. De que se trata? Uma hiper-sensibilidade interpretativa, um frenesi hermenêutico, frisson de antenas eriçadas, o afã da repulsa, uma espécie exótica de erótica demarcatória, exuberante retórica taxonômica que ama as frações e as mil tonalidades do mesmo.

Vertigem acusatória, obsessão punitiva que não quer justiça, nem mesmo vingança, mas a conquista de um pedaço do mundo, esquadrinhando os discursos, recortando sua geografia ideológica, esquartejando continuidades, partindo ao meio, de novo e de novo. Catarse do descarte e do desprezo, no impulso incontido da sissiparidade que impõe tenacidade meticulosa e apetite de leão para excomungar, humilhar e expelir.

A fase anal da cultura brasileira explica o sadismo generalizado e a exuberância difamatória, de que a delação constitui a culminância e a condenação, o espasmo do prazer supremo. Todos os pecados do mundo estão em toda parte, dizem, olhos arregalados, os examinadores da ultra-esquerda pequeno-burguesa e os escrutinizadores da direita. Os pecados mortais contaminam as boas intenções, proclamam uns e outros: daí a vigilância permanente dos torquemadas da internet e o entusiasmo exaltado pelos carrascos de Curitiba.

Que prazer, desautorizar o outro, que gozo incomparável exumar a alma impura do outro.

Sim, as patrulhas na internet, à direita e à esquerda, apesar de suas disposições conscientes, jogam lenha na fogueira da justiça criminal. O fogaréu, no espírito de nosso tempo, é um só. O ímpeto acusatório é um só. Esse veneno alimenta a corrosão da democracia, porque se conecta, simbólica e emocionalmente, ao atropelo dos direitos promovido pelo MP, pelas polícias e pela justiça. A cada post uma saraivada de insultos condenatórios. A cada gesto fortuito uma carga de artilharia hiper-crítica. E aqui não se critica o que se ama, como nos tempos do tropicalismo. Critica-se para odiar.

Nesse momento, “Valha-nos Lula, salve-nos da aridez de nossa própria solidão. Precisamos de ti para justificar nosso ressentimento e nossa impotência ante o mundo em ruínas. Precisamos do PT para exorcizar nossos males. Onde mais, Lula, pendurar nossas desditas? Tu és o alvo de nossa cólera porque assim aliviamos nossa dor”, é o que sentem, mas recalcam, os que estão à direita.

A dor de tripular um poder degradante, numa ordem decadente, num sistema em colapso. Por isso, por nada mais, apenas por isso atribuem ao povão o destino bruto de rebanho, tangido pelo pai protetor. “Populistas são os outros. Ignorante é a massa ignara. Nós somos guardiões da razão”, murmura a direita.

Por outro lado, ouve-se nos hinos da ultra-esquerda: “Somos os guardiões da verdade revolucionária”.

E ainda: “Não, vocês ecoam a prepotência dos inimigos. Nós é que formulamos os vereditos derradeiros”, esbravejam os sacerdotes da política identitária, “somos nós que separamos o joio do trigo, os discursos legítimos das heresias”.

Enquanto isso, para saciar as galeras furiosas, os cárceres se entopem de gente, sobretudo jovens negros, legiões de delatados por crimes de opinião cometidos na internet são lançados ao inferno do ostracismo e da vergonha, e o TRF-4 prepara-se para açoitar a história do Brasil, confrontar a democracia e imolar seu cordeiro, excluindo Lula do processo eleitoral.

Eis aí o Brasil, reino do sadismo, aprisionado à fase anal: país da excreção, da execração e da punição.

Pergunto: é hora de divisões, à esquerda?

Luiz Eduardo Soares é antropólogo, escritor, dramaturgo e professor de filosofia política da UERJ. Foi secretário nacional de segurança pública. Seu livro mais recente é “Rio de Janeiro; histórias de vida e morte” (Companhia das Letras, 2015).

Resposta a um amigo

Querido Tony Piccolo, como você sabe, e sente, nossa amizade está acima dessas divergências e eu
só lhe posso agradecer a sinceridade, que é a melhor forma de respeitar o diálogo e o interlocutor.
Tenho sido, como você sabe, um crítico do PT ao longo de muitos, muitos anos. E é claro que setores
do PT (falo assim para não generalizar e cometer injustiças) se envolveram no que há de pior na
política brasileira.

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O dia em que Bolsonaro tomou posse na presidência do Brasil

Publicado no site Justificando em 4 de dezembro de 2017

Chovia muito em Brasília e nas principais capitais do país. O dia nasceu como nascem os dias primeiro de janeiro. No Rio, por exemplo: gente tropeçando em latinhas de cerveja, lixo acumulado nas calçadas e gatos pingados emborcados na areia. A tempestade que acabou com a festa deu uma trégua e abriu sua escotilha de bronze, deixando passar uns raios de sol fraquinhos. As homenagens a Iemanjá, talvez as últimas, ainda boiam no mar escuro, mas as velas se apagaram. A turma do subúrbio já voltou pra casa, a viagem é longa. Nos apartamentos ao longo da orla, a classe média curte a ressaca do champagne morno e barato. São tempos bicudos. Contra todos os indícios e contariando as previsões, eis aí o ano da graça de 2019.

Jair Bolsonaro toma posse no fim da manhã gélida do planalto central, apesar do verão. O Congresso está disposto a aclamar a nova cara do poder e abre as portas para os patriotas que vieram em caravana de todo o país. Casa cheia. Nas galerias, todo mundo veste a camisa da seleção brasileira, sopra vuvuzelas e entoa o hino da campanha vitoriosa: “sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amor ô, ô.” Senhoras e senhores erguem terços, bíblias e panelas, o novo símbolo nacional.

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Autor de ‘Elite da Tropa’ propõe reforma com refundação da polícia e legalização das drogas

Publicado no Blog do MAG da Folha de São Paulo em 20/12/2017

Por marcos augusto gonçalves

Se você pudesse implantar uma reforma para mudar o cenário da segurança pública do Brasil nos próximos anos, que proposta você faria?

Quem responde, abaixo, é Luiz Eduardo Soares, 64, que tem longa experiência em segurança pública. Foi secretário nacional da área no primeiro ano do governo de Luiz Inácio Lula da Silva, depois de já ter passado por função análoga no Estado do Rio, em 1999-2000. Soares é autor, entre duas dezenas de títulos, de “Elite da Tropa” (de 2006, com os ex-policiais André Batista e Rodrigo Pimentel), livro que deu origem ao filme “Tropa de Elite” (2007), de José Padilha.

Mestre em antropologia, com doutorado em ciência política e pós-doutorado em filosofia política, ele considera que um plano de segurança será fundamental para os candidatos que pretendam enfrentar propostas populistas, como as do deputado Jair Bolsonaro (PSC-RJ), na disputa eleitoral de 2018. No momento em que o debate das “reformas” é insistente em círculos políticos e na mídia, a reforma da segurança, política pública que está muito longe atender às demandas da sociedade, não poderia ficar de lado. Seria preciso alterar a Constituição, mudar atribuições, refundar as polícias e levar em conta a perspectiva de legalização das drogas.

“Considerando a importância cada vez maior do tema e o avanço da extrema direita, acho que os candidatos do campo democrático e progressista não terão sucesso se negligenciarem essa área”, diz o antropólogo.

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Judith Butler vem aí, trazendo a peste: bem-vinda

Publicado no site Justificando em, 1 de novembro de 2017

Quando Freud chegava aos Estados Unidos, disse com ironia a um interlocutor que o acompanhava: eles não sabem que lhes trago a peste. A anedota é contestada por seus biógrafos, mas vale como alusão simbólica: a psicanálise destroçava o mito liberal do ator racional, auto-consciente, fundamento da antropologia rasteira, dominante na classe média americana. O novo saber subvertia a consagração do american way of life, utopia dos subúrbios, que Hollywood espalhava pelo mundo, colonizando sentimentos e capturando esperanças. Era mesmo a peste que desembarcava em solo americano.

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Guerra obscurantista contra Caetano Veloso deve envergonhar o país

Publicado no site Justificando em , 28 de outubro de 2017

Os cavaleiros da cruzada em curso na internet não têm limites. Sua guerra covarde e obscurantista contra Caetano Veloso deve envergonhar o país. É inaceitável naturalizar o que está acontecendo. Caetano somos todos os que amamos a liberdade. O que mais vamos esperar para agir? Convido os leitores a refletir sobre o que está em jogo.

O Tropicalismo faz 50 anos e seus efeitos não cessaram. A despeito da sombra que caiu sobre o país, o Brasil é hoje, em parte graças à força tectônica daquela ousadia radical, menos provinciano e racista do que era há meio século, menos preconceituoso e mais livre para amar canções, pessoas e poemas. A sociedade brasileira está hoje mais madura, crítica e aberta para amar-se a si mesma, sem auto-indulgência, na diversidade que a constitui, apesar da avalanche regressiva, da conjuntura conflagrada e do ódio que envenena as relações.

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Na mesa do presidente, a licença para matar

Publicado no site Justificando em, 12 de outubro de 2017

Foi aprovado pelo Congresso Nacional, e agora aguarda sanção presidencial, o projeto de Lei que desloca para o âmbito da Justiça Militar o julgamento de membros das Forças Armadas, atuando em operações de GLO (Garantia da Lei e da Ordem). Essa mudança representa um acinte à Constituição e uma ameaça raramente vista aos direitos humanos. A transferência da responsabilidade à Justiça Militar dá-se apesar do fato de que as vítimas de eventuais crimes (como homicídios dolores e torturas) sejam civis e que os crimes porventura cometidos estejam capitulados no código penal, aqueles que regem as decisões da Justiça criminal. Quais são os problemas dessa proposta, cuja finalidade seria proteger os membros das Forças Armadas?

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Ricardo Benzaquen de Araujo, breve homenagem à sua memória

Luiz Eduardo Soares

 

Essas lembranças são uma pequena homenagem à memória de Ricardo Benzaquen de Araújo, amigo da vida toda. Se me incluo no relato, é porque não seria capaz de escrever uma descrição distante e objetiva do autor e de sua obra. Só me resta prestar um testemunho parcial e comovido. A tarefa de uma apresentação intelectual digna desse nome, como ele e sua obra merecem, fica reservada a estudiosos no futuro ou a colegas mais aptos do que eu na tarefa de desvencilhar-se das emoções.

Conheci Ricardo nos pilotis da PUC, no Rio de Janeiro, no início dos anos 1970. Eu, calouro, ele já na metade do curso; eu em Letras, ele em História. A despeito das escolhas diferentes, logo nos encontramos nas admirações comuns, entre elas, e com destaque, o professor Luiz Costa Lima. Lembro das conversas animadas com nosso grupo de amigos. Apesar da atmosfera carregada –afinal, vivíamos os anos mais sombrios da ditadura–, havia ali uma vitalidade apaixonante. Éramos ambiciosos, irônicos e críticos corrosivos de quase tudo, e nos divertíamos, sem perder a conexão com o sentido dramático do tempo.

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Trate-me Leão, doutora

Publicado no site Justificando em 15 de setembro de 2017

Os mais jovens talvez não saibam, mas as leitoras e os leitores de minha geração certamente se lembram do “Trate-me Leão”, obra prima que projetou o grupo teatral Asdrubal Trouxe o Trombone e seu elenco recheado de novos talentos. O ano era 1977. O sucesso em todo o país foi extraordinário. Filas viravam esquinas. Víamos e revíamos, encantados, todo fim de semana. Era o programa da galera descolada. Ali, desbundados e engajados se uniam. A alegria era a prova dos nove. Vivíamos sob censura e ameaças constantes. Corriam os anos mais violentos da ditadura civil-militar. “Trate-me” abria as janelas da casa mofada e deixava o sol entrar.

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Luiz Eduardo Soares: ​“Não se pode discutir democracia no Brasil fingindo que não há um massacre nas periferias”

CENTRO DE ESTUDOS EM REPARAÇÃO PSÍQUICA DE SANTA CATARINA – CERP-SC
?BOLETIM INFORMATIVO N.16

 

Embora seja questão de vida ou morte para os setores mais vulneráveis da população e decisivo para a democratização da sociedade, o tema das polícias ainda é pouco presente no debate público no Brasil.

É a denúncia desta ausência que tem movido há anos o antropólogo Luiz Eduardo Soares, 63, e que foi a tônica de sua fala na Aula Magna promovida pelo CERP-SC durante o Módulo II do curso “Como lidar com os efeitos psicossociais da violência?”.

“Esse tema permanece negligenciado. São raríssimas as lideranças políticas que se debruçam sobre ele”, afirma, lembrando que mesmo os setores mais progressistas não dão a devida importância às polícias.

“No campo das esquerdas, isso é visto como epifenômeno, como consequência, já que o que importaria seriam as condições estruturais, econômicas e sociais. É verdade, só que nós nos esquecemos de que os aspectos mediadores, essas áreas sombrias, também merecem atenção e investimento de transformação”, diz.

“E, se nós não nos preocuparmos com essas questões, eu lhes garanto que os setores mais retrógrados se preocuparão”.

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