Ricardo Benzaquen de Araujo, breve homenagem à sua memória

Luiz Eduardo Soares

 

Essas lembranças são uma pequena homenagem à memória de Ricardo Benzaquen de Araújo, amigo da vida toda. Se me incluo no relato, é porque não seria capaz de escrever uma descrição distante e objetiva do autor e de sua obra. Só me resta prestar um testemunho parcial e comovido. A tarefa de uma apresentação intelectual digna desse nome, como ele e sua obra merecem, fica reservada a estudiosos no futuro ou a colegas mais aptos do que eu na tarefa de desvencilhar-se das emoções.

Conheci Ricardo nos pilotis da PUC, no Rio de Janeiro, no início dos anos 1970. Eu, calouro, ele já na metade do curso; eu em Letras, ele em História. A despeito das escolhas diferentes, logo nos encontramos nas admirações comuns, entre elas, e com destaque, o professor Luiz Costa Lima. Lembro das conversas animadas com nosso grupo de amigos. Apesar da atmosfera carregada –afinal, vivíamos os anos mais sombrios da ditadura–, havia ali uma vitalidade apaixonante. Éramos ambiciosos, irônicos e críticos corrosivos de quase tudo, e nos divertíamos, sem perder a conexão com o sentido dramático do tempo.

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Trate-me Leão, doutora

Publicado no site Justificando em 15 de setembro de 2017

Os mais jovens talvez não saibam, mas as leitoras e os leitores de minha geração certamente se lembram do “Trate-me Leão”, obra prima que projetou o grupo teatral Asdrubal Trouxe o Trombone e seu elenco recheado de novos talentos. O ano era 1977. O sucesso em todo o país foi extraordinário. Filas viravam esquinas. Víamos e revíamos, encantados, todo fim de semana. Era o programa da galera descolada. Ali, desbundados e engajados se uniam. A alegria era a prova dos nove. Vivíamos sob censura e ameaças constantes. Corriam os anos mais violentos da ditadura civil-militar. “Trate-me” abria as janelas da casa mofada e deixava o sol entrar.

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Luiz Eduardo Soares: ​“Não se pode discutir democracia no Brasil fingindo que não há um massacre nas periferias”

CENTRO DE ESTUDOS EM REPARAÇÃO PSÍQUICA DE SANTA CATARINA – CERP-SC
​BOLETIM INFORMATIVO N.16

 

Embora seja questão de vida ou morte para os setores mais vulneráveis da população e decisivo para a democratização da sociedade, o tema das polícias ainda é pouco presente no debate público no Brasil.

É a denúncia desta ausência que tem movido há anos o antropólogo Luiz Eduardo Soares, 63, e que foi a tônica de sua fala na Aula Magna promovida pelo CERP-SC durante o Módulo II do curso “Como lidar com os efeitos psicossociais da violência?”.

“Esse tema permanece negligenciado. São raríssimas as lideranças políticas que se debruçam sobre ele”, afirma, lembrando que mesmo os setores mais progressistas não dão a devida importância às polícias.

“No campo das esquerdas, isso é visto como epifenômeno, como consequência, já que o que importaria seriam as condições estruturais, econômicas e sociais. É verdade, só que nós nos esquecemos de que os aspectos mediadores, essas áreas sombrias, também merecem atenção e investimento de transformação”, diz.

“E, se nós não nos preocuparmos com essas questões, eu lhes garanto que os setores mais retrógrados se preocuparão”.

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Marina poderia ser favorita para 2018, mas ‘queimou caravelas com esquerda’ ao apoiar impeachment, diz fundador da Rede

Júlia Dias Carneiro Da BBC Brasil no Rio de Janeiro
  • 15 agosto 2017

Fundador e ex-membro da Rede Sustentabilidade, o antropólogo e cientista político Luiz Eduardo Soares afirma que a líder política do partido, Marina Silva, pode ter perdido a chance de chegar às próximas eleições presidenciais como favorita após ter declarado apoio ao impeachment de Dilma Rousseff no ano passado.

“Quando ela assumiu essa posição, extremamente irresponsável do ponto de vista da democracia, acho que ela queimou as caravelas relativamente ao campo das esquerdas. Não só do PT, das esquerdas”, considera ele. “Isso circunscreve o seu potencial eleitoral e político.”

Soares elaborou as propostas das candidaturas de Marina na área de segurança pública em 2010 e 2014 e deixou a legenda em outubro do ano passado – um dos signatários de uma carta aberta em que sete intelectuais anunciaram sua desfiliação, com críticas ao partido e a sua líder.

Para Soares, Marina deixou de ser “espontânea e genuína”, o que era a sua marca, e passou adotar posições “ambíguas”, e jogar o jogo “mais tradicional” da política.

Em entrevista à BBC Brasil, o cientista político considera que o cenário para 2018 está em aberto e depende da possibilidade de Lula se candidatar ou não. O caminho até lá também é imprevisível. “Hoje o Temer já é dispensável para as elites”, diz Soares. “Eu diria que sua permanência é realmente incerta.”

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O sentido de uma história depende do ponto a partir do qual começamos a contá-la

Este é o primeiro capítulo do livro Justiça, pensando alto sobre violência, crime e castigo, de Luiz Eduardo Soares, publicado pela editora Nova Fronteira, em 2011.

I. O sentido de uma história depende do ponto a partir do qual começamos a contá-la

Cheguei a Recife atrasado para a palestra na universidade. Não estava muito a fim de papo. Não que eu seja um sujeito antipático. Acho que não sou. Costumo gostar de conhecer pessoas e conversar. Além disso, táxis são ótimos veículos para conhecer a cidade e seu espírito, e as opiniões médias da população sobre política, sexo, crime e futebol. O método não é lá muito científico, mas funciona. A gente fica com uma visão geral do que a sociedade tem discutido. Entretanto, naquele dia não queria prolongar muito o diálogo. Estava preocupado com a hora e com as expectativas de meus colegas. Eles tinham sido muito gentis quando me convidaram, e eu não queria decepcioná-los.

Não tinha jeito. Enquanto eu tentava repassar a palestra de memória – primeiro: definir violência; segundo: apresentar os dados nacionais e internacionais; terceiro: discutir as causas; quarto: apresentar possíveis soluções –, o taxista insistia em puxar assunto. Contava uma história depois da outra e nem esperava para ouvir minha opinião. Emendava logo a próxima. Parecia a Rádio Relógio. Eu tentava escapar, misturando a rememoração dos temas que planejara abordar com as paisagens belíssimas de Recife e Olinda.

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Por que desmilitarizar a polícia ostensivo-preventiva?

Luiz Eduardo Soares

Estou convencido de que a desmilitarização é indispensável, mas não suficiente. Há muito mais a mudar. Mesmo porque nossas polícias civis não têm menos problemas do que as militares. Por isso, a abordagem da PEC-51, que o senador Lindbergh Farias apresentou, é muito mais ampla. Mas o tema deste artigo é a desmilitarização. Concentremo-nos no tópico, portanto.

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Segurança Pública – Glossário

Segurança Pública.
Glossário, seguido da PEC-51
Luiz Eduardo Soares

A natureza das definições apresentadas neste glossário:
Os conceitos ou as categorias aqui definidas, se não forem apenas a réplica do texto constitucional, são tipos ideais, modelos abstratos destinados a cumprir duplo propósito, formalmente descritivos e normativos: (1) descrever as linhas gerais dos objetos a que se referem, em termos formais e abstratos –fenômenos sociais, processos históricos, experiências individuais ou coletivas (como percepções, sensações, crenças, conhecimentos e paixões), e invenções culturais como instituições, normas e valores–; e (2) expor parâmetros normativos que orientam expectativas, circunscrevem as condições de possibilidade e assinalam os limites para a obediência voluntária, sobre a qual repousa a autoridade (cujo exercício prescinde da força e nega a violência) e que se traduz na legitimidade do poder, compreendido como instrumento que viabiliza a sociabilidade e opera a mediação entre liberdade individual e justiça, enquanto equidade. Os pressupostos da perspectiva adotada nas definições são a autonomia do sujeito e a racionalidade interlocucionária: a plausibilidade de ambos, sua indissociabilidade e seu valor intrínseco. Em outras palavras, os conceitos tais como descritos não correspondem a experiências reais, mas a (1) referências indispensáveis à abordagem analítica das práticas e à sua avaliação objetiva e moral, (2) assim como a metas desejáveis e necessárias, se comparadas a alternativas, e portanto justificáveis em diálogos livres entre interlocutores iguais, do ponto de vista de seu poder. Ou seja, o Estado de direito no Brasil não tem correspondido à realidade da sociedade brasileira, tão profundamente iníqua. Segurança pública tem sido outro nome da violência. Políticas de segurança com frequência sequer existem, preferindo-se, não raro, a reprodução inercial das rotinas reativas, herdadas de fontes quase imemoriais, organicamente comprometidas com as desigualdades e o racismo. E assim sucessivamente. Contudo, a distância dos tipos ideais o críticos a pode identificar, e medir, graças a eles. A possibilidade de outro mundo o cidadão a vislumbra contemplando-os.
É importante acrescentar que, do ponto de vista das ciências sociais, há interpretações distintas, oriundas tanto do marxismo quanto, por exemplo, de paradigmas teóricos crítico-genealógicos, inspirados em Michel Foucault. Segundo estas perspectivas, os tipos ideais que descrevem o modelo normativo, na medida em que não correspondem às práticas empiricamente verificadas, apenas mascaram a realidade. Em vez de estruturas formalmente definidas por referência à Constituição, derivadas do modelo abstrato que desenha o Estado democrático de direito, seria mais apropriado observar processos historicamente vivenciados e, a partir deles, identificar o funcionamento efetivo do Estado, entendendo-o não como mecanismos, conceitos, valores e normas traídos por ações reais, mas como positividade instaurada no plano da experiência, cuja natureza não transcenderia a rotina degradante. Este argumento conduz à conclusão de que as polícias brasileiras são apenas, inelutável e exclusivamente, o que têm sido nas periferias, reduzindo-se à sua prática, inteiramente indiferente, senão contrárias, ao tipo ideal: instrumentos da violência do Estado contra negros e pobres, indutoras da reprodução do domínio de classe, fatores que aprofundam desigualdades sócio-econômicas e intensificam o racismo. Esta leitura, mesmo quando fiel à empiria, não incorpora a multidimensionalidade complexa da dinâmica história, a qual não se esgota nem na dimensão ideal-normativa nem na esfera das práticas, porque incorpora ambas as dimensões em seu tensionamento, em suas contradições. A Constituição brasileira, conquistada com o sacrifício de tantas vidas na resistência à ditadura, não é apenas a máscara civilizada da barbárie estatal que criminaliza a pobreza e extermina jovens, tampouco moldou uma realidade social à sua imagem e semelhança. Uma visão analiticamente mais aguda e teoricamente menos simplista exigiria que as duas dimensões fossem consideradas. A Constituição e suas determinações produzem, por mediações diversas, eventos e orientam práticas, interferindo na construção da realidade social, assim como a brutalidade feroz dos agentes do Estado intervém na vivência cotidiana da sociedade. Quando se atenta para a complexidade contraditória do social, quando se integram ambas as dimensões, passa a ser possível levar em conta, por exemplo, tanto o calvário de Amarildo –sua tortura e seu assassinato por policiais militares da UPP da Rocinha, no Rio de Janeiro–, quanto a identificação e a prisão de seus algozes. Se a brutalidade criminosa reduz-se ao mero funcionamento de instituições cuja função seria esta, brutalizar as classes populares, a mudança estaria descartada, a Constituição deixaria de representar um parâmetro para a crítica e a transformação dependeria de uma revolução, envolvendo a conquista do Estado (hipótese irrealista e incongruente, a considerar-se a história das revoluções e suas consequências no plano da repressão estatal) ou a formação de novos poderes (sobre cujo funcionamento em ambiente revolucionário nada se sabe que justifique qualquer otimismo relativamente ao respeito aos direitos humanos).

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Life and Death in Rio de Janeiro

By Jez Smadja to Los Angeles Review of Books

IN THE BOOKSHOPS with weeks to go before the 2016 Summer Olympics, Luiz Eduardo Soares’s Rio de Janeiro: Extreme City is possibly not the book that the International Olympic Committee, the Visit Rio tourist board, the mayor Eduardo Paes, or indeed many cariocas — a breed of people particularly sensitive to any slurs against their city — will want you to read. There’s barely a mention of the breathtaking scenery, the historic samba schools, the state-of-the-art museums it has delivered in time for the Games, or the new metro extension and light rail system it hasn’t, or not yet at any rate.

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Ante a naturalização da barbárie, sociedade precisa se unir por um pacto republicano

Publicado no site Justificando em  10 de abril de 2017

Há algum tempo não escrevo. Não tenho me sentido capaz de romper o silêncio e vencer a impotência diante do que tem acontecido, sobretudo no Rio de Janeiro. Há uma desproporção irredutível entre a barbaridade das execuções extra-judiciais e os adjetivos disponíveis na linguagem verbal. Entre as barbaridades que têm sido ditas nas inacreditáveis tentativas de justificação do injustificável e as qualificações oferecidas pela língua portuguesa. Entre o assassinato da menina Maria Eduarda (desgraçadamente, apenas mais uma vítima) e as palavras que o discurso pode mobilizar. Entre os seguidos assassinatos de policiais e a pobreza do vocabulário acessível. Entre a naturalização da barbárie e as palavras que consigo articular. Esgotou-se o repertório do dizível. Não há mais ênfase possível, depois que a desgastamos em nossas denúncias e críticas proclamadas a todo volume. Por outro lado, o silêncio não é solução e a inércia é cúmplice do status quo.

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Ricardinho, pequena homenagem à sua memória

Luiz Eduardo Soares

 

Essas lembranças são uma pequena homenagem à memória de Ricardo Benzaquen de Araújo, amigo da vida toda. Se me incluo no relato, é porque, em vez de uma descrição distante e objetiva de sua obra, prefiro dar o testemunho dos efeitos de sua presença em minha vida.

Conheci Ricardo nos pilotis da PUC, no Rio de Janeiro, no início dos anos 1970. Eu, calouro, ele já na metade do curso; eu em Letras, ele em História. A despeito das escolhas diferentes, logo nos encontramos nas admirações comuns, entre elas, e com destaque, o professor Luiz Costa Lima. Lembro das conversas animadas com uma tribo muito interessante, que incluía Sérvulo Figueira, George Lamaziére e Eduardo Viveiros de Castro. Apesar da atmosfera carregada –afinal, vivíamos os anos mais sombrios da ditadura–, havia ali uma vitalidade apaixonante. Éramos ambiciosos, irônicos e críticos corrosivos de quase tudo, e nos divertíamos, sem perder a conexão com o sentido dramático do tempo.

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