Depois de Junho

Compartilhamos duas convicções: a sociedade brasileira experimenta mudanças profundas e nada se compara, nenhuma obra da arte ou da ciência, à beleza e à complexidade de uma pessoa, em sua singularidade.

Como se percebe, as duas certezas não têm nenhuma relação entre si. Ou têm?destaque_ddj_entrevistas
Uma intuição sutil sussurra, quase inaudível: sim.
Será mesmo possível que transformações coletivas, profundas mas pouco visíveis, se entreguem nas frestas de entrevistas longas e serenas, em que pessoas que nós admiramos contam suas histórias, expõem ideias e nos deixam entrever diferentes dimensões de si mesmas? O encantamento de que a vida é capaz exala a emoção que vale o conhecimento? A ver. Ouvir. Sentir. Pensar. Com a calma que anda em falta no mercado e por aqui, na internet.

Luiz Eduardo Soares entrevista Willian de Oliveira, Marcelo Freixo, Andréa Pachá, Pablo Capilé, Marcus Faustini, Preto Zezé e Raul Jungmann. Na pauta os movimentos iniciados depois de junho de 2013

Clique aqui para ter acesso as entrevistas>>

Luiz Eduardo Soares e Tomaz Klotzel

A gota de sangue

(Postado no facebook em 10/02/2014)
Luiz Eduardo Soares

A morte do cinegrafista da Band é uma tragédia e um ponto de inflexão no processo político em curso. Pela tragédia, me solidarizo com a dor de familiares e amigos. Quanto à política, esse episódio dramático é a gota d’água, ou a gota de sangue que muda a qualidade dos debates e das identidades em conflito.
Quebrar vitrines é prática equivocada, contraproducente e ingênua, mas compreensível como explosão indignada, ante tanta iniquidade e a rotineira violência estatal, naturalizadas pela mídia e por parte da sociedade. Mas tudo se complica quando atos agressivos deixam de corresponder à explosão circunstancial de emoções, cuja motivação é legítima. Tudo se transforma quando atos agressivos já não são momentâneos e se convertem em tática, autonomizando-se, tornando-se uma espécie de ritual repetitivo, performance previsível, dramaturgia redundante.

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Linchamento e rolezinho

Luiz Eduardo Soares (5 de fevereiro de 2014)

Permitam-me compartilhar uma hipótese: as cenas de linchamento na zona sul do Rio, montadas por jovens brancos de classe média, que falam a língua portuguesa com dicção facistóide e racista, são reações performáticas –inconscientes, no confronto intersubjetivo, travado no campo simbólico-político– aos rolezinhos, os quais dramatizam migrações democráticas, suprimindo fronteiras entre centro e periferia, deslocando a primazia violenta e iníqua de classe e cor.

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A terra treme no país de desigualdades e paradoxos

Link para o artigo publicado no Los Angeles Review of Books>>
(com tradução na sequência do teto em inglês)

Hora Zero no relógio popular

Luiz Eduardo Soares

(Antropólogo, cientista político, escritor e professor da UERJ)

 

A sociedade brasileira tomou as ruas e sequestrou para si o título que lhe custara bilhões de reais e, por decisões autocráticas, a excluíra: o grande evento. Centenas de milhares de pessoas deslocaram o campo de futebol para o meio da rua e vestiram a camisa do país, assumindo inaudito protagonismo histórico. Resta ao intérprete calçar as sandálias da humildade e admitir sua ignorância e perplexidade ante o fenômeno radicalmente novo. O interesse público fora confiscado pela tecnocracia, aliada a empreiteiras e subserviente à tutela arrogante (e voraz) da Fifa. Os então chamados “grandes eventos” serviram de justificativa para lucros extraordinários e a festa da especulação imobiliária, sob a retórica do legado social, enquanto a mobilidade urbana tornava-se, crescentemente, uma contradição em termos. A massa rompeu expectativas e a tradição de apatia, e inventou um movimento que será, por suas lições e seus efeitos, o verdadeiro legado às gerações futuras. A narrativa passou a ser escrita, nas ruas e nas redes virtuais, por milhões de mãos e vozes, desejos e protestos, inscrevendo seus autores na cena global, em diálogo com outras praças, outras multidões, outras lutas. A sociedade virou o jogo.

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Entrevista a Angela Faria, no caderno Pensar do Estado de Minas

Entrevista a Angela Faria, no caderno Pensar do Estado de Minas – publicado em 22 de junho, 2013

Luiz Eduardo Soares

(Antropólogo, cientista político e escritor, professor da UERJ)

 

As perguntas são as seguintes:

 

(1) Que lições a moçada está dando ao país? Diz-se que a “desorganização” do movimento deles pode levar: 1º) a nada. 2) ao reforço de posturas conservadoras, dos “neocons” verde-amarelos. Você concorda?

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Luiz Eduardo Soares: o que vem depois da queda da tarifa?

O movimento dependerá da capacidade de não confundir rejeição ao atual sistema político-partidário com recusa da democracia. É urgente incluir na agenda a refundação do modelo policial.

Por Luiz Eduardo Soares

Há uma semana escrevi sobre o movimento pelo “passe livre” (www.luizeduardosoares.com), chamando a atenção para o fato de que o novo surpreende e assusta, porque rompe a estabilidade das expectativas, coloca em xeque nossos esquemas cognitivos, revela a precariedade da ordem social e evoca o espectro de nossa finitude. Somos levados a reconhecer que não apenas a vida humana é frágil como aquilo que chamamos “realidade” é débil e movediço. Por isso, o desconhecido tende a suscitar em nós reações defensivas e explicações que funcionam como a confirmação do que já se sabe — ou se supõe saber. Se o propósito é conhecer, devemos buscar, com humildade, a compreensão autorreflexiva e a desnaturalização das descrições correntes. Até porque todo esforço de entendimento é também ação política.

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O que eu sei e o que não sei sobre as manifestações pelo passe livre

 

Luiz Eduardo Soares

Diante de um fenômeno que rompe a rotina e surpreende a expectativa de estabilidade, as reações individuais são as mais variadas. Entretanto, de um modo geral, o primeiro impulso é defensivo e visa a auto-conservação. Qualquer mudança nos ameaça porque traz consigo a fantasia de que nosso mundo pessoal tão precário e incerto está em risco e pode ruir a qualquer momento. Essa fantasia provém da radical insegurança que nos é constitutiva, seres mortais que somos. Não apenas a vida humana é frágil como aquilo que chamamos “realidade” é débil e movediço. Para sustentar-se, nossa “realidade” precisa dos outros, do olhar alheio, de seu reconhecimento, de sua confiança, da reiteração de manifestações de amor, amizade e respeito. A “realidade” depende das redes sociais que tecem afetos, valores, símbolos e ideias, tudo isso embrulhado em narrativas cotidianas verossímeis para o conjunto dos interlocutores.

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