O sentido de uma história depende do ponto a partir do qual começamos a contá-la

Este é o primeiro capítulo do livro Justiça, pensando alto sobre violência, crime e castigo, de Luiz Eduardo Soares, publicado pela editora Nova Fronteira, em 2011.

I. O sentido de uma história depende do ponto a partir do qual começamos a contá-la

Cheguei a Recife atrasado para a palestra na universidade. Não estava muito a fim de papo. Não que eu seja um sujeito antipático. Acho que não sou. Costumo gostar de conhecer pessoas e conversar. Além disso, táxis são ótimos veículos para conhecer a cidade e seu espírito, e as opiniões médias da população sobre política, sexo, crime e futebol. O método não é lá muito científico, mas funciona. A gente fica com uma visão geral do que a sociedade tem discutido. Entretanto, naquele dia não queria prolongar muito o diálogo. Estava preocupado com a hora e com as expectativas de meus colegas. Eles tinham sido muito gentis quando me convidaram, e eu não queria decepcioná-los.

Não tinha jeito. Enquanto eu tentava repassar a palestra de memória – primeiro: definir violência; segundo: apresentar os dados nacionais e internacionais; terceiro: discutir as causas; quarto: apresentar possíveis soluções –, o taxista insistia em puxar assunto. Contava uma história depois da outra e nem esperava para ouvir minha opinião. Emendava logo a próxima. Parecia a Rádio Relógio. Eu tentava escapar, misturando a rememoração dos temas que planejara abordar com as paisagens belíssimas de Recife e Olinda.

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Life and Death in Rio de Janeiro

By Jez Smadja to Los Angeles Review of Books

IN THE BOOKSHOPS with weeks to go before the 2016 Summer Olympics, Luiz Eduardo Soares’s Rio de Janeiro: Extreme City is possibly not the book that the International Olympic Committee, the Visit Rio tourist board, the mayor Eduardo Paes, or indeed many cariocas — a breed of people particularly sensitive to any slurs against their city — will want you to read. There’s barely a mention of the breathtaking scenery, the historic samba schools, the state-of-the-art museums it has delivered in time for the Games, or the new metro extension and light rail system it hasn’t, or not yet at any rate.

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One country, two worlds

Resenha publicada na revista The Spectator por Robert Collins

In October 1964, Charles de Gaulle visited Brazil. The country was six months into its military dictatorship. In April of that year, there had been a relatively bloodless coup against the sitting president, João Goulart, who one morning found a tank pointing its muzzle at his residence in Rio. The ensuing military regime lasted for two decades,and routinely tortured its dissidents. One of those tortured was a 22-year-old female member of a militant guerrilla group who was arrested in 1970 and subjected to paddle beatings and electric shocks to her ears, feet, breasts and thighs. Today, she is president. This is Brazil’s fairy tale.

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Purgatório da beleza e do caos

Ângela Faria
Estado de Minas: 16/10/2015

Luiz Eduardo Soares tinha 10 anos quando abriu a janela e deparou com um canhão apontando para seu quarto. Era fim de março de 1964, o prédio ficava entre os palácios da Guanabara e do Catete, alvos tanto dos militares que deflagraram o golpe, apoiado pelo governador fluminense Carlos Lacerda, quanto das forças pró-presidente João Goulart. Violência difícil de esquecer, aquela. Quase meio século depois, lá estava ele, aos 59, intelectual respeitado, fugindo da polícia a alguns quilômetros dali durante a gigantesca manifestação das jornadas de junho de 2013, correndo de agentes da lei que se divertiam em atirar gás lacrimôgeneo sobre a multidão e até dentro de restaurantes. Brutalidade difícil de esquecer.

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Crônicas da violência revelam o Rio de Janeiro atual

Antropólogo Luiz Eduardo Soares faz literatura de grande qualidade em livro que expõe anatomia da violência nacional

  • Sandro Moser

Texto publicado na edição impressa da Gazeta do Povo de 12 de outubro de 2015

Rio de Janeiro. Cidade da festa e do samba. Sensualidade, praia e natureza exuberante. Criativa, acolhedora, “malandra”, no bom sentido; maravilhosa, enfim. Essas qualidades constam dos anúncios de pacotes de viagens que vendem a experiência de conhecer o Brasil a partir do Rio em agências pelo mundo afora.

No livro “Rio de Janeiro – Histórias de Vida e Morte”, o antropólogo Luiz Eduardo Soares mostra que, ainda que alguns dos itens do clichê sejam inegáveis, a experiência urbana no Rio é amplamente superada por aspectos negativos que impõem a necessidade de reinventar a cidade – que no livro serve, mais uma vez, como metáfora do Brasil. 

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Zero zero zero: visão penetrante, conclusiva, e que não autoriza ilusões

Leia a seguir a versão completa da resenha de Luiz Eduardo Soares de Zero zero zero, livro de Roberto Saviano.

Cada um de nós tem suas admirações particulares. Roberto Saviano é um dos meus heróis desde que li Gomorra e soube de sua saga pessoal. Agora, em Zero zero zero, seu livro mais recente, ele foi ainda mais longe. Saviano atua em um gênero que pinça o nervo de nosso tempo: convencionou-se denominá-lo jornalismo literário. Para os céticos, esse título significa nem literatura, nem jornalismo.

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UOL seleciona 10 lançamentos de grandes autores da Flip 2012

A Flip (Festa Literária Internacional de Paraty) concentrará em uma única cidade, entre os dias 4 e 8 de julho, autores consagrados, como Ian McEwan, Jonathan Franzen, J.M. Le Clézio, Jennifer Egan e o brasileiro Luiz Eduardo Soares. Os mesmo autores aproveitam a aproximação da festa para colocar novas obras no mercado.

Do mar à prisão, a ascensão e a queda do economista do tráfico

Autor de Elite da Tropa, ao lado de André Batista e Rodrigo Pimentel,  o escritor e antropólogo Luiz Eduardo Soares retorna ao tema das drogas em seu novo livro, Tudo ou Nada – A história do brasileiro preso em Londres por associação ao tráfico de duas toneladas de cocaína…

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Pirata do Caribe

Autor de “Elite da Tropa”, Luiz Eduardo Soares lança livro sobre brasileiro preso por ligação com tráfico de duas toneladas de cocaína da Colômbia para o Reino Unido

MARCO AURÉLIO CANÔNICO
DO RIO – ILUSTRADA
FOLHA DE S.PAULO

Economista brasileiro é preso em Londres por associação ao tráfico de duas toneladas de cocaína. É julgado por 14 meses e condenado a 24 anos de cadeia. O caso é amplamente noticiado pela imprensa britânica.

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Escrever o Social: uma trilogia | de Luiz Eduardo Soares

Descrevo, em tom de depoimento, as estratégias empregadas nos três livros mais recentes que publiquei: Meu Casaco de General; 500 dias no front da segurança pública do Rio de Janeiro (Companhia das Letras, 2000); Cabeça de Porco (editora Objetiva, 2005), em co-autoria com MV Bill e Celso Athayde,; e Elite da Tropa (idem, 2006), com Rodrigo Pimentel e André Batista. Trata-se do testemunho de uma construção em certa medida ainda em curso, sob a forma esquemática de um programa de trabalho. Testemunho que reúne considerações políticas e a angústia da influência literária, passando por outras ansiedades e interrogações. A trilogia nasceu do reconhecimento de uma problemática. Exponho, sinteticamente, seus componentes. Antes, porém, eis a descrição sumária de cada obra.

I. Os livros
Meu Casaco de General foi o relato da experiência na gestão da segurança pública. Em primeira pessoa. Ali, na experiência objeto da narrativa, o grande desafio era tornar possível o trânsito entre o Palácio de Governo e a sociedade -particularmente a população que sofre mais intensamente os efeitos da violência, a Favela-, entre o poder do representante e a vida real dos representados, entre a autoridade que exclui -selecionando prioridades e filtrando-distorcendo a eqüidade legal- e a urgência dos grupos sociais que lutam pela inclusão de sua agenda na pauta das decisões superiores.

 

Duas situações limite desenhavam a moldura dessa questão: o confronto épico da comunidade da Mangueira com o batalhão de choque da PM, que mediei; a travessia dos corredores do Palácio com os pais do menino assassinado pela polícia, que sobraçavam o quadro com a foto do filho e caminhavam para o encontro com o governador. Sagrado e profano davam um nó em minhas pernas e afundavam o punho em minha garganta. Não por acaso, o capítulo sobre a Mangueira situa-se no centro do livro: o episódio é reportado, na obra, como o palco da mediação e também a arena em que se dramatizaram os conflitos extremos, com mais força e nitidez.

 

Um desafio provocava a imaginação, na experiência relatada: reinventar o relacionamento com a mídia, revertendo expectativas, de lado a lado, ousando falar a “verdade” e renunciando à hipocrisia oficial que tudo justifica. Caricaturas e estereótipos deveriam dar lugar à tensão viva, clara, transparente de relações “verdadeiras” –mesmo que (e sobretudo porque) essa transparência contemplasse a inexorável obscuridade dos poderes, de lado a lado.

 

Finalidade que defini no momento em que vivia o desafio de participar do governo, gerindo a segurança publica do Rio de Janeiro: tecer uma coalizão amplíssima contra a barbárie, perpetrada pelo Estado, pelo sistema penitenciário, pelas entidades sócio-educativas, pelo judiciário, pelas polícias, pelos criminosos, por nossa anestesiada omissão, por nossa impotência inconsciente-de-si. Se o acesso à justiça fosse menos desigual, a tragédia da desigualdade nacional seria menos ruinosa. Cresceriam, nesse possível novo contexto, as condições para o exercício do protagonismo político da cidadania. O livro teria de levar em conta essa finalidade, retomando-a e fazendo, portanto, de suas páginas, em alguma medida, passos no mesmo rumo. Os leitores visados seriam, então, potencialmente, os futuros componentes dessa ampla frente pela paz.

 

A estratégia da escrita tinha de ser a narrativa em primeira pessoa para que fossem contornadas as categorias genéricas que resolvem mas obscurecem as formas concretas em que se manifesta a desigualdade no acesso à Justiça. O que importa para a narrativa e a desmontagem das tramas são as conversas nas esquinas e nos bastidores, os gestos à sombra nas ante-salas dos palácios, as emoções que irrompem fora de lugar, os desajustes e as manobras, os passos e recuos, a imaginação inflamada, as resistências institucionalizadas, os sintomas, a dança das cadeiras, as ambições e os sacrifícios, a desproporção, a exuberância da desproporção, a incrível e hiperbólica assimetria da desproporção. Nada menos clássico do que o relato em primeira pessoa tão desequilibrado quanto seu objeto. O Brasil, definitivamente, não é clássico. As colunatas clássicas dos palácios comentam nossa história com a ironia do paradoxo.

 

Meu casaco de general –menção-homenagem ao saudoso Wally Salomão e a meu dilema libertário, 1968/1999-, foi o trapo do intruso que funcionou como a senha para visitar os salões. E passar despercebido. A estratégia narrativa em primeira pessoa sublinhou a natureza dessa passagem, dessa visita ao palácio, que sempre entendi como intervenção política sob o modo de performance cultural (e vice-versa), desconstruindo agendas, pautas, vocabulários, tropoi da retórica oficial e posturas corporais e dramáticas. Não com o propósito anárquico da destruição, mas com a intenção crítica da reconstrução de laços, pela desobstrução dos canais de comunicação –a partir da recusa à hipocrisia que mascara a desigualdade no acesso à Justiça e da afirmação de que seria, sim, possível um programa que alterasse esse quadro. A hipótese otimista alternativa põe em relevo e em perspectiva -desnaturalizando-a – a política convencional na segurança pública -mas não só aí. A primeira pessoa desarmada e confessional corresponde à mesma orientação desnaturalizadora.

 

***

 

Cabeça de Porco é um mergulho no universo dos jovens mais vulneráveis, que se deixam recrutar pela dinâmica de reprodução do tráfico de drogas e armas, nas favelas, vilas e periferias de nove cidades, situadas nas cinco regiões brasileiras. Os autores entrelaçamos entrevistas, depoimentos dos envolvidos diretamente na prática da violência, relatos de experiências, interpretações e reflexões sobre temas conexos, como a resistência à mudança e a esperança como dever. É nos relatos da própria vivência que os autores personalizam sua intervenção e assumem nitidamente suas dicções diferenciadas. Sucedem-se discursos em primeira e em terceira pessoa. Os registros atualizam a polifonia que, em Meu Casaco de General, era tematizada. A situação sem saída a que alude o título é labiríntica e desafiadora. O espaço referido na outra acepção do título –cortiço- é pobre, exíguo, e sugere inadequação, incompletude, inacabamento, convívio promíscuo. A mistura e o aperto ensejam uma vizinhança induzida ao convívio. Não se trata do lugar da síntese, da harmonia, da conjugação complementar de diferenças em equilíbrio. Trata-se, insisto, de convívio -na irredutibilidade das diferenças, na irredutibilidade do número.

 

Os palácios de Meu Casaco eram vazados por viés oblíquo que apanhava a assimetria –assimetria que é a verdade do acesso à justiça, mascarada pela eqüidade formal-, emporcalhando a pureza clássica que corresponde à auto-imagem do poder, projetada na suntuosidade simétrica e harmônica da arquitetura. O cortiço e a confusão, sinalizados no título Cabeça de Porco, remetem ao avesso da ordem cosmética que o governo e seus palcos encenam. Entretanto, sob a babel da favela sem-saída, do nó que não desata, amarrando destinos e os condenando à tragédia, revela-se uma ordem submersa e cruel: a tirania do crime; o despotismo da polícia; a disciplina de condições que degradam vida e auto-estima, gerando invisibilidade, violando direitos. Na contramão, despontam fortuna e virtude transgressoras dessa disciplina malsã, virando pelo avesso o anverso da ordem democrática, reencontrando a democracia e a terra dos direitos, na dialética da criação cultural.

 

Nesse cortiço-labirinto, juntamo-nos os autores, nossas trajetórias tão distantes entre si, vozes e estilos tão diferentes: o antropólogo e gestor público; o rapper; o líder social e produtor de hip-hop. Um branco, classe média, universitário; dois negros, oriundos da favela –um deles morador de favela; o outro, ex-morador de rua. O antropólogo não analisa os discursos de seus parceiros, soma-se aos registros deles. Os parceiros não são, entre si, objetos. Exercitam a arte da sociabilidade e do convívio; ensaiam, entre si, pontes; escrevem um livro-ponte; desconstróem, juntos, na multiplicidade dos tons, a invisibilidade -tema pervasivo. A pluralidade de tipos discursivos, mesmo entre os capítulos de um mesmo autor, fez do cortiço-sem-saída uma travessia em círculos, cujo poder de gravitação agregou interesses de leitores os mais diversos: desde jovens de favelas e periferias, a juízes e promotores, professores e agentes sociais, artistas e gestores públicos. Nas respostas que os autores receberam, um ano depois de lançado o livro–período em que foram vendidos 40 mil exemplares-, as pontes existem.

 

***

 

Elite da Tropa foi lançado exatamente um ano depois do Cabeça de Porco. Também foi projeto de três cabeças, ainda que a escrita, especificamente, tenha ficado a meu encargo. Trata-se de mergulho no universo dos policiais, o outro lado de nossa “guerra” fratricida. Os autores são o mesmo antropólogo; um policial negro, bacharel em Direito pela PUC, de origem social pobre; um ex-policial branco, pós-graduado em sociologia urbana, de origem social nas camadas médias –ambos na faixa dos trinta anos e casados, um deles com dois filhos. Aqui, a estratégia não foi o cortiço ocupado pela babel de registros, em distintas chaves discursivas, mas a composição da narrativa a partir de eixo ficcional: uma voz fictícia, expressiva de um ethos particular, relata, em primeira pessoa, episódios seqüenciais, que, aos poucos, revelam conexões entre si. Os episódios traduzem vivências típicas dos policiais. A segunda parte retoma fios da trama e personagens introduzidos na primeira parte, mas trabalha com a pluralidade a seco, na forma do texto dramático, sem narrador. As pontes explodiram. Restaurar a verdade da explosão, provocada pelos crimes do Estado, é tarefa indispensável se desejamos reconstruí-las. Verdade e reconciliação, o mote de Mandela, é a meta da obra.

 

Raspar o esmalte das palavras foi um percurso difícil. Da sobriedade pouco adjetiva de Meu Casaco para a multiplicidade de registros do Cabeça, houve um salto arquitetônico, cujo ponto de inflexão foi a passagem do fluxo narrativo, típico do memorialismo do primeiro livro, para a edição do mosaico, para a ordenação das peças do quebra-cabeça, tarefa chave na composição do segundo livro. O salto para o terceiro livro não foi apenas arquitetônico; foi, sobretudo, a torção radical da voz. No Elite, tive de falar outra língua. Reaprendi a escrever. A reinvenção do self-narrativo é o momento inaugural da decisão estética, é a matriz da opção literária, porque impõe a linguagem, o lugar do juízo, sua forma, seu critério, o ponto de corte para a percepção e os projetos descritivos, a inscrição dos termos contratuais para os jogos da interlocução com os leitores e os personagens (e os leitores-personagens).

 

A decisão fundante, no Elite da Tropa, tomou emprestados os leitores ao mundo da vida para detê-los, em flagrante, prostrando-os, rendidos, cativos, na trama do texto. Essa interpelação (fictícia e real) seduz, instiga, ameaça, invade, agride, brutaliza, escarnece, ironiza. Estabelece uma relação. Lança uma ponte. O poder gravitacional da narrativa encontra nesse laço a sua manobra, por excelência.

 

O recurso à interlocução (“Você, que se está lendo…”), nos marcos de uma voz devassa, rascante, tangendo uma escrita escavada na pedra, está na inversão que provoca: evoca o exterior para aprisioná-lo, fazendo, da mentira ficcional -que são os leitores sempre evocados-, o correlato da experiência a que alude a narrativa –refiro-me à experiência da supressão da alteridade (típica da polícia brutal, que é também a experiência da política tirânica). Encerrar a narrativa em si mesma, encerrá-la em seu ponto de partida, bloquear seus passos, cerceá-la, vigiá-la para que não se mova, girar com o relato em mil direções, disparando a metralhadora giratória da imaginação, multiplicando fatos que ecoam, no fundo, a mesma história: esta é uma forma de apertar o grilhão, torcer o torniquete, aludindo a uma falsa liberdade, a liberdade dos acontecimentos, acontecimentos que apenas na aparência se distinguem.

 

Assim se construiu a história do Elite da Tropa, história que não se diz, que não se deixa contar, história desse não dizer-se, dessa resistência a pronunciar seu próprio nome –seu nome é desumanização, é o escândalo do crime inominável sob a égide do Estado; é o escândalo do arbítrio e do escárnio oficial; da Justiça que se faz pelo avesso; é o escândalo do Estado que erige a barbárie como hábito noturno. Por isso, a ficção diz a “verdade”, sendo a verdade essa intangibilidade, essa inacessibilidade, esse veto, essa inexpugnabilidade do escândalo enquanto tal.

 

A “verdade” que Elite ousa sussurrar, entre dentes, mordendo a orelha do leitor, é a assimilação do inaceitável, a naturalização do intolerável. O trabalho dessa naturalização no interior do sujeito é a brutalização, por cujo processo a supressão do outro inscreve suas marcas no self que a pratica –suprime-se, o self, fazendo da reflexividade um espelho desviado do focodivertimento. É engraçado. Pode ser engraçada, a tragédia. A diversão resulta da reificação do outro, que termina promovendo, na dinâmica da auto-consciência, a transformação da simetria do espelho em assimetria. O círculo vira espiral, em que o self perde-se de si e olha sempre para onde já não está. A caçada do outro morde o rabo. É a si que o sujeito caça. Para aniquilar. Tortura-o, “trabalha-o”, para fazê-lo “cantar”, “dar”, dizer quem é e onde estão as suas armas. É o sujeito em fuga de si a buscar no outro a resposta especular impossível. Qualquer resposta do outro torturado será insuficiente, não saciará a fome de saber. A violência é esta ânsia de si-mesmo, refratária ao espelho que a desnudaria em seu solipsismo irreversível. Não sendo espelho, o outro é deriva, o outro lança a outro, sempre, a resposta, porque a pergunta erra o alvo, por definição.

 

A voz policial encena e constrói a trama narrativa com esse jogo e essa prisão, em que se condena à dilaceração. O solipsismo desse falso diálogo com os leitores ausentes gira em torno do próprio eixo até precipitar energia suficiente para explodir. A explosão original lança ao espaço literário sessenta e dois personagens e elimina o centro regente, a voz que conduz: inicia-se, assim, a segunda parte. A narrativa cede lugar ao drama: escrita direta e desprovida de meta-linguagem. A literatura do diálogo. Porque o self é impossível, insuscetível de portar a enunciação das sínteses, refratário à tessitura que une as pontas em conflito. O self-narrador é puro conflito. Adrenalina e guerra. Irreconciliável. A escrita do Elite é acre, tosca, aparentemente desprovida de polimento. Esmalte raspado. Verbo rasgado. No entanto, foi a mais elaborada e a que exigiu maior investimento na ourivesaria, entre todas as que produzi.

 

II. Termos da problemática
Dizia que a trilogia nasceu do reconhecimento de uma problemática e prometi descrever seus componentes. São os seguintes:

 

Um desafio: a relação, sobretudo a relação entre pólos extremos –(1) “nós”, os leitores, enquanto sociedade e opinião pública, e as autoridades políticas ou os gestores públicos; (2) “nós” e os meninos do tráfico, sua paradoxal pureza e sua alucinada crueldade; (3) “nós” e os policiais, particularmente os guerreiros do Bope, essa persistente e uniforme alucinação da alteridade.

 

O contexto: as abissais desigualdades brasileiras, cuja face talvez mais dramática se manifeste no acesso à Justiça, a começar pela ponta policial, cujo filtro seletivo é sabidamente racista e classista –e etário, claro.

 

Não está mais disponível: o diapasão arcaico que distensionava o embaraço moral e conceitual, em que se domesticava o incomensurável, o irreparável, e o que emergia como incomunicável entre agentes antagônicos: luta de classes.

 

Uma fonte de angústia hamletiana: pode-se persistir na convicção libertária da geração 68 e dirigir as polícias? Sim, aposto que sim. Faço de minha vida o campo de experimentação para demonstrar essa possibilidade estranhíssima. O ponto para o laço é a reinvenção das concepções e práticas sobre República e Democracia. Os textos que descrevem o laboratório deveriam carregar a energia subjetivista de um sujeito dilacerado e afirmativo, no fio da navalha. Energia sendo o avesso do adjetivo, pura carga substantiva. Relatos cada vez menos judicativos e qualificadores. A dureza cabralina, a aspereza de Rubem Fonseca, a crueza de Céline e a ironia rodrigueana, a prosa que a tradição do jornalismo literário norte-americano nos legou, com o jorro vital de um memorialismo à Henry Miller – meu Deus, que pretensão. Mas essa polifonia ambiciosíssima e despropositada replica a angústia de outra influência: a dos rebeldes libertários, meus heróis civilizadores, ante os desafios da violência contemporânea. Rousseau e Hobbes, gladiadores: perpétuo adiamento do triunfo.

 

Qual a comunicação possível, aquém de estigmas e projeções inibidoras? O que seria dizer a “verdade”? Como contá-la –seria possível contá-la? Seria necessário construí-la, teórico-conceitualmente? De que “verdade” se trata? Ou seria melhor pensar em termos de fluidificação de canais de comunicação para aproximar experiências compartilháveis? Ou o dilema deveria ser posto da perspectiva das linguagens? Ou do ponto de vista do estabelecimento de protagonismos discursivos? A questão é da linguagem ou dos sujeitos, ou estes apenas se põem na e como linguagem, ainda que sob o registro de estratégias autorais? Relatos ou análises? Afirmação de parcialidades, desejos e interesses, percursos e projetos? Ou edificação de um ponto de vista sub specie aeternitatis, a partir do qual seriam possíveis conceitos e juízos?

 

Escolhi a narrativa. Por que? Por motivos diversos, entre os quais: o discurso sem-sujeito (isto é, desprovido do sujeito inscrito no território da história e da cultura), enunciado da ótica do sujeito-universal, sub specie aeternitatis, subsume o múltiplo do sentido na unidade do conceito, exorcizando a pluralidade das vozes que soam, no mundo da vida. Mas eram essas que me interessavam.

 

A linguagem de matiz teórico repele o espaço babélico, conflitivo e pluridimensional, dos sujeitos históricos, com marcas sociais, étnicas e de gênero, entre outras, até para tentar cumprir sua pretensão de infundir inteligibilidade a esse domínio vasto e disperso das diferenças, singularidades e contingências. Mas eram esses sujeitos históricos, com nomes e cores, gênero e desejos, que me interessavam.

 

O mundo do acontecimento e da liberdade, sob disciplinas de poderes difusos e concentracionários, poderes em disputa cerrada, liberdade em resistência cerrada. E toda esta agitação, emoldurada por incerteza e risco, incorpora o discurso supostamente sem marca da teoria, marcando-o a frio e fogo, e lhe infundindo potência –ainda que ao preço da inteligibilidade sublime, superior, sintética, esclarecida, desinteressada. Esse mundo me interessa. Interessa o meio (descentrado) de seu redemoinho, o labirinto de suas ruelas. Babel interessa: a polifonia –e sua música irredutível. Assim como o rigor de sua indisciplina.

 

Além disso, dizia mestre Richard Rorty: os compêndios de filosofia falharam; não alcançaremos a paz perpétua demonstrando a superioridade racional da paz, da justiça e da democracia. Resta-nos tentar (r)estabelecer a comunicação, em cujo fluxo os relatos individualizados sobre circunstâncias específicas são mais capazes de promover empatia, de estender aquilo que David Hume denominava os “we-groups”. Em outras palavras: dado que o universal não é um pressuposto fundado na essência racional do humano, só pode ser um projeto ético-político-cultural, a ser construído. A sensibilidade humana para o sofrimento alheio continua a ser, desde tradições religiosas remotas até Rousseau, a plataforma para essa aventura cuja finalidade é apenas reduzir danos e evitar sofrimentos evitáveis -bem mais modesta, portanto, que as utopias modernas, as quais nos sopraram a alma revolucionária. Resta-nos pôr em circulação discursos, experiências, valores, em cenas concretas, com emoções vividas. Respeitando as singularidades de sujeitos com gênero e marcas culturais, históricas, empíricas, individuais. Menos o ser humano do que os seres humanos, de carne e osso, isto é, devolvidos à corporeidade e à finitude.

 

A narrativa é também e sobretudo o campo para o trabalho pluridimensional do símbolo e do inconsciente, espaço de encontros e pontes imateriais, laboratório para experimentações e território sempre aberto a explorações reflexivas, além e aquém do discurso sistemático da razão.

 

A partir desse cenário problemático, montei a arena para o trabalho. Mas não acreditem que tenha sido assim, tão cartesiano: perguntas e desafios são identificados; métodos definem-se; operação da escritura é posta em marcha. Quem dera fosse tudo tão organizado, planejado, tão claro e distinto. Tudo foi sempre obscuro e surpreendente, carregado de emoção, a sensibilidade à flor da pele, a ansiedade prenunciando o silêncio e a impotência – engasgos, recuos e recomeços. E nada foi solitário. Os co-autores foram parceiros da longa jornada, ainda que, provavelmente, vejam à sua maneira o percurso e imaginem outras cartografias. Devo a eles a oportunidade singular dessa aventura.

 

*Luiz Eduardo Soares: Professor da UERJ.

 

NOTA

 

Agradeço a Miriam Guindani a leitura crítica da primeira versão do presente ensaio e as sugestões para torná-lo mais compreensível e analiticamente perceptivo

 

 

 

iEste ensaio foi publicado na Revista Cultural eletrônica Z, em 2007.

 


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