Resenha do Livro “Desmilitarizar: Segurança Pública e Direitos Humanos”

Leonardo Isaac Yarochewsky 01/06/2019

No momento em que o governo Federal propõe, a um só tempo, blindar a polícia dos crimes perpetrados – vide o projeto “anticrime” do ministro da Justiça – e armar a população; no momento, em que alguns governantes estaduais defendem abertamente o extermínio de “bandidos”; no momento que as milícias ocupam o lugar do Estado; no momento em que os direitos humanos continuam sendo rechaçados e que a política de drogas continua encarcerando negros e miseráveis, fruto de um sistema penal seletivo; o antropólogo e ex-secretário nacional de Segurança Pública, Luiz Eduardo Soares lança pela Boitempo o livro “Desmilitarizar: Segurança Pública e Direitos Humanos”.

Dentre os diversos temas abordados com a capacidade e inteligência que lhe são próprias, Luiz Eduardo Soares demonstra que não há antagonismo na política de segurança pública e no seu comprometimento com os direitos humanos, pelo contrário, no dizer preciso do autor, “não há política pública senão no âmbito do Estado democrático de direito, em que a Justiça toma a equidade como bússola, onde há pluralismo e reina a liberdade, a despeito dos inevitáveis limites e todas as contradições”.

Luiz Eduardo Soares desfaz o mito de que nos regimes totalitários há mais segurança que nos regimes democráticos. Segundo o antropólogo, o número (quantidade) de crimes por si só – evidenciado em países totalitários – não basta para definir a segurança. A ideia de que mais repressão, tortura, execução (pena de morte), censura, perseguição etc., próprias de regimes autoritários e de exceção gerem mais segurança é falsa. Afinal, diz o autor, “a paz dos cemitérios não figura em nosso sonho feliz de cidade”. Necessário notar, segundo Soares, a forte presença do medo nas sociedades autoritárias e nos regimes totalitários, o que corrobora a ideia de que “sob o totalitarismo não há segurança, porque o medo é onipresente e corrói a segurança”, a começar pela Justiça.

Em sua mais recente obra, o autor faz necessárias críticas à atual política de segurança pública e em especial a que se refere a Polícia Militar e a Justiça Criminal “como promotoras de desigualdades”. Trabalhando com dados e com pesquisas – Mapa da Violência e Censo – Luiz Eduardo Soares demonstra como o sistema penal é violentamente seletivo, matando e encarcerando negros e pobres. Assim, entre 2002 e 2010, segundo o Mapa da Violência publicado em 2012, o número de vítimas brancas caiu 27,5%, enquanto a quantidade de negros vítimas de homicídio cresceu 23,4%. Os dados demonstram claramente que negros e pobres são as principais vitimas da violência e alvos preferidos do perverso sistema penal.

Por tudo, o antropólogo e pesquisador Luiz Eduardo Soares propõe uma nova e revolucionária política de segurança pública com a desmilitarização da polícia.

Para saber mais, recomenda-se a leitura dessa indispensável obra escrita por um dos mais importantes pensadores da segurança pública no País.

Luiz Eduardo Soares: “Não há crime importante no Rio de Janeiro sem a participação policial”

O antropólogo e escritor Luiz Eduardo Soares é considerado um dos mais importantes especialistas em segurança pública no Brasil, assunto que persiste como uma das três principais preocupações dos brasileiros. Autor dos livros “Elite da Tropa” – de 2006, que deu origem ao filme “Tropa de Elite”, de José Padilha – e “Desmilitarizar”, lançado em 2019, Soares foi secretário nacional de Segurança Pública durante o primeiro ano do governo de Lula da Silva e coordenador de Segurança, Justiça e Cidadania do Estado do Rio de Janeiro entre 1999 e 2000.

O jornalista Danilo Thomaz entrevistou-o, no Rio de Janeiro, na semana em que o Senado brasileiro votou pela suspensão de dois decretos que facilitavam o porte e posse de armas de fogo, assinados em maio pelo presidente. Estes não chegaram, no entanto, à Câmara dos Deputados, onde o chumbo era provável, nem ao Supremo Tribunal de Justiça, que ia esta quarta-feira analisar eventuais inconstitucionalidades no texto. Um dia antes, Jair Bolsonaro acabou por revogar esses decretos, emitindo de seguida três novos com conteúdo semelhante. Para o fazer aprovar, enviou ainda ao Congresso um projeto de lei que altera o Estatuto do Desarmamento, mas cujos os detalhes não são ainda conhecidos. Segundo a imprensa brasileira, Bolsonaro não desistiu dos pontos mais polémicos do pacote legislativo.

Liberdade para matar é fonte de corrupção na polícia, diz Soares

Com o gesto da arminha na mão e o discurso belicista, Jair Bolsonaro e o governador do Rio Wilson José Witzel mandam um recado. Na base, os policiais entendem: estão liberados para matar. “Quando se dá liberdade para o policial lá na ponta para matar, se dá também ao policial a possibilidade de não matar e de negociar a vida. É uma moeda que se inflaciona e que degrada a instituição. É a principal fonte da corrupção, que vai levar à formação das milícias”.
O alerta é do antropólogo Luiz Eduardo Soares em entrevista ao TUTAMÉIA (acompanhe no vídeo acima). Escritor e dramaturgo, secretário nacional de segurança no governo Lula, ele está lançando “Desmilitarizar”. Editado pela Boitempo, o livro traz uma ampla abordagem sobre a segurança pública. Trata das raízes da violência, dos equívocos das políticas sobre drogas e encarceramento em massa, da necessidade de desmilitarizar as políticas. A partir de um diagnóstico denso sobre o país, aponta ideias em várias direções para enfrentar a crescente barbárie na segurança pública. Desfaz, assim, o argumento de que o setor progressista não tem projeto para essa área tão crítica.

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Alto índice de homicídios é naturalizado no Brasil

Luiz Eduardo Soares propõe, dentre outras questões, a desmilitarização das polícias e alteração da lei de drogas

Por Kharen Stecca 

O número estarrecedor de homicídios no Brasil não provoca comoção pública. “Como brasileiros, naturalizamos as mortes, pois em sua maioria se tratam de pessoas pobres e negras”, afirmou o professor Luiz Eduardo Soares, durante a aula inaugural do Programa de Pós-graduação Interdisciplinar em Direitos Humanos, no dia 20 de maio. O professor, que é autor de diversos livros sobre a área de segurança pública e acabou de lançar um livro intitulado “Desmilitarizar – segurança pública e direitos humanos”, foi convidado para falar sobre Segurança Pública, Direitos Humanos e Democracia no Brasil.

 

O professor afirma que a empatia é o que ressignifica o drama, que histórias dão vida aos números e dados. O que explica um dos motivos pelo qual ele escreveu sozinho e em parceria com outros escritores diversos livros de ficção com histórias que relatam casos envolvendo o tema da segurança pública. Para exemplificar, citou o caso de Amarildo, um de muitos desaparecimentos ocorridos após abordagens policiais. “O dado tinha rosto, história, endereço e por isso ganhou outra dimensão”.

Durante a palestra também especificou dificuldades encontradas na segurança pública como a conclusão de investigações. Segundo ele, a porcentagem de casos esclarecidos é muito pequena e, dos que são esclarecidos, muitos são ligados a violência doméstica, porque torna-se mais fácil entender e apurar o caso. “Isso faz com que muitos crimes fiquem impunes, o que não quer dizer que não se puna no Brasil”, afirma. Ele diz isso lembrando que o número de pessoas encarceradas no Brasil é muito alto, que grande parte está em prisão provisória e também uma grande parte dos casos envolve transgressão a lei de drogas. “Ao encarcerarmos dessa forma, o que fazemos é um contrato de violência futura, pois após serem presas, as pessoas têm ainda mais chance de continuar no crime ao sair da prisão”, explica.

Um outro problema levantado é a divisão das polícias, o fato de haver polícias com poder de investigação (civil) e polícia ostensiva, sem poder de investigação (militar). Para o professor, a PM – polícia mais numerosa no país – é cobrada por produção. “Produção no caso da PM é prisão, mais precisamente prisão em flagrante, que é possível sem investigação, então é essa prisão que será feita”, afirma. Esse modelo policial, casado com a lei de drogas brasileira é uma união que complica tudo, avalia Soares.

Para ele o caminho que o Brasil precisaria avaliar seria rever o modelo de policiamento, para uma polícia de ciclo completo, diminuir o encarceramento, agilizando o julgamento de prisões provisórias e mudar a lei de drogas. Ele explica que já perguntaram a ele se essa fórmula seria certeza de melhora na segurança pública. Ele afirma: “Como estudioso sabemos que não é possível dar essa garantia, mas pior do que estamos acho impossível ficar”. Ele também criticou o pacote anticrime de Moro, enviado ao Congresso: “Dar licença para matar pode gerar muitas reações, os bandidos se armam ainda mais e isso aumenta a chance de policiais morrerem e, juntamente com as condições precárias de trabalho desses policiais, que ganham salários baixos, abre-se a deixa para a criação de acordos entre policiais que se corrompem com os bandidos, dando origem às milícias”.

A desmilitarização também é outra possibilidade colocada pelo professor. Segundo ele, policiais são muitas vezes submetidos à condições de trabalho precárias e aceitam isso porque são militares e não podem reagir. “Hoje esse assunto não é debatido, porque não é de interesse dos governantes, mas a desmilitarização, no meu entendimento, seria amplamente aceita pelas bases das polícias; hoje a maior resistência está nos delegados e não nos agentes”, completa.

ENTREVISTA

O Jornal UFG também entrevistou o professor Luiz Eduardo Soares. Confira!

Quais as perspectivas para a segurança pública diante das ações propostas pelo atual governo?

Luiz Eduardo – Elas vão na contramão do que seria necessário e é consenso pelos pesquisadores e estudiosos da área e os próprios policiais mais experientes e maduros. Estamos caminhando no aprofundamento do desastre. Porque estamos no desastre há anos. Estamos intensificando as dinâmicas negativas: o encarceramento em massa, que fortalece facções criminosas; a destruição da vida de jovens negros, de periferias; a flexibilização do acesso às armas que agrava o problema que já existia. O pacote de Moro vai na contramão do que seria necessário. Ano passado foram mais de 434 mortes provocadas por ações policiais só no Rio, um recorde. Com o excludente de ilicitude, que corresponde a uma autorização para matar, uma pena de morte sem julgamento, essas execuções policiais vão se multiplicar. Outra questões também são preocupantes, como o aumento das penas e a impermeabilidade ao debate em torno da flexibilização da lei de drogas. A agenda é regressiva e obscurantista.

O governo está divulgando que diminuíram o número de homicídios no primeiro trimestre. O que diz desses dados?

Luiz Eduardo – Esse dado não inclui mortes em ações policiais. E ainda é muito prematuro para fazer uma avaliação em 3 meses. É preciso muita cautela. Não quero discutir dados, mas prefiro ser mais cauteloso e acho que é necessário ver a visão completa, com os dados de mortes em ações policiais.

A desmilitarização seria aceita facilmente pela sociedade?

Luiz Eduardo – Na sociedade não tenho dados, imagino que a resistência seria grande, porque não há um debate, não sabem do que se trata. As pessoas pensariam até que seria não ter polícia, o que não é verdade. Mas entre os policiais não acredito que seria difícil conseguir a maioria.

 

 

 

‘Pacote anticrime de Moro é pior do que pena de morte’

31/05/19 por Fausto Salvadori

Antrópologo e ex-secretário nacional de Segurança Pública, Luiz Eduardo Soares lança o livro ‘Desmilitarizar’, em que propõe uma nova polícia; em entrevista, afirma que as propostas do governo Bolsonaro vão aumentar a violência e fortalecer o crime organizado.

“Resposta: eu não sei”. O antropólogo Luiz Eduardo Soares tem mais de 20 livros publicados, já foi secretário nacional de Segurança Pública e coordenador de Segurança, Justiça e Cidadania do Estado do Rio de Janeiro, entre outras funções, mas tem perguntas que ele não sabe responder — e calhou de ser a pergunta que eu mais queria fazer para ele nessa entrevista: como chegamos ao ponto de idolatrar torturadores e como sair dessa?.

Soares pode não saber como chegamos aqui, mas de algo não tem dúvida: a situação da segurança pública e dos direitos humanos no Brasil só vai piorar, já que o governo do presidente Jair Bolsonaro (PSL) e os de seus aliados, como os governadores João Doria (PSDB), em São Paulo, e Wilson Witzel (PSL), no Rio, se limitam a intensificar as piores práticas das gestões anteriores, que só serviram para aumentar a violência, lotar as prisões e fortalecer as facções criminosas. Sobre o pacote anticrime do ministro da Justiça e Segurança Pública, Sérgio Moro, afirma que vai “é uma pena de morte instituída sem julgamento”.

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Licença para matar gera corrupção policial, diz coautor de “Elite da Tropa”

Não é preciso acreditar de fato nos direitos humanos para defendê-los. É o que defende o antropólogo Luiz Eduardo Soares. Para ele, o respeito a esses direitos são inevitáveis para a efetividade de qualquer política de segurança pública — uma questão prática. Em seu livro recém-publicado, “Desmilitarizar: Segurança Pública e Direitos Humanos” (ed. Boitempo), Soares explica que a autorização para matar além do limite constitucional está na origem do surgimento das milícias, em sua avaliação hoje o maior problema da segurança pública no país. Soares é coautor de “Elite da Tropa” (ed. Objetiva), livro que inspirou o filme “Tropa de Elite” (2007). Foi ainda secretário estadual de segurança pública do Rio de Janeiro e secretário municipal de prevenção da violência nas cidades de Porto Alegre e Nova Iguaçu (RJ), no fim da década de 1990 e começo dos anos 2000. Sua nova obra reúne 14 ensaios sobre as políticas de segurança do Brasil nos últimos anos, com críticas às medidas de combate ao tráfico e ao aumento dos encarceramentos que levaram ao fortalecimento do crime organizado. Em entrevista ao UOL, Soares ainda comentou o pacote anticrime proposto pelo atual ministro da Justiça, Sergio Moro, os decretos que facilitam a posse e o porte de armas, assinados pelo presidente Jair Bolsonaro, e outras medidas de segurança pública adotadas pelos atuais governos federal e estaduais.
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Desmilitarizar – Segurança pública e direitos humanos

Polícias, drogas, milícias, combate à corrupção e raízes da violência. Esses e tantos outros temas são examinados aqui pelo autor do livro que inspirou o filme Tropa de elite. Luiz Eduardo Soares propõe iniciativas objetivas e imediatas para alguns dos nossos mais graves problemas sociais.

Agenda de lançamento:

Segunda-feira, 20 de maio, às 19h // UFG
“Segurança pública, direitos humanos e democracia no Brasil”
Aula inaugural do Programa de Pós-Graduação Interdisciplinar em Direitos Humanos – UFG

Sexta-feira, 24 de maio, às 18h30  // Livraria Leonardo Da Vinci
Debate de lançamento de Desmilitarizar com Coronel Íbis Pereira (ex-comandante geral da PMRJ),  Jurema Werneck (Anistia Internacional),  Jandira Feghali (PCdoB) e Marcelo Freixo (PSOL).

Segunda-feira, 27 de maio, às 17h30 // UFPE
Lançamento de Desmilitarizar no I Congresso Nacional de Policiais Antifascismo

Quinta-feira, 29 de maio, às 17h // V Salão do Livro Político (Teatro Tucarena)
Debate “Do tráfico à milícia: o estado paralelo que mata Marielles todos os dias”, com Camila Nunes Dias (UFABC), Henrique Carneiro (USP) e Douglas Belchior (Uneafro-Brasil)

Sexta-feira, 31 de maio, às 19h // Tapera Taperá
Debate de lançamento de Desmilitarizar com Dra. Eunice Prudente (USP), Monica Seixas (PSOL), Paulo Teixeira (PT)  e Bruno Paes Manso (USP).

Herdamos o sistema das instituições de segurança do período ditatorial

Luiz Eduardo Soares, antropólogo e cientista político especialista em segurança pública, lança o livro ‘Desmilitarizar’ (Ed. Boitempo). Ele avalia que uma desmilitarização da Polícia Militar significaria o seu fortalecimento em diversos aspectos. ‘Com isso, seria possível que toda polícia existente passasse a realizar todas as tarefas da área. Só existe no Brasil essa distinção’, explica.

Estamos indo rumo à selvageria, à barbárie

A entrevista é de Eduardo Nunomura, publicada por CartaCapital, 14-05-2019.

Antes que a entrevista acabasse, o antropólogo e cientista político Luiz Eduardo Soares compartilhou notícias pelo WhatsApp que recebeu de moradores do Complexo da Maré, na zona norte do Rio, denunciando policiais militares que atiravam de dentro de um helicóptero. “Não sei se viu os vídeos do governador Witzel conclamando à barbárie, se apresentando como vingador, justiceiro, entrando ele mesmo com policiais armados no helicóptero, um negócio inacreditável”, relatou. “Essa é a nossa realidade, que invade nossa entrevista.”

Uma das maiores autoridades sobre segurança pública no Brasil, Soares estava em Nova York para ajudar na seleção de projetos da Open Society Foundations e falou sobre o lançamento do livro Desmilitarizar, da Boitempo, enquanto a violência eclodia em seu estado natal. Ironicamente, parte da sociedade aplaude e tira selfies com forças policiais, como nas manifestações em 2015, enquanto uma maioria se vê na mira de fuzis.

Crítico do governo de Jair Bolsonaro, o ex-secretário Nacional de Segurança Pública (janeiro a outubro de 2003) afirma que o “Estado Democrático de Direito não está em plena vigência” e a hora é de bloquear a derrocada.

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Pacote anticrime de Moro fortalecerá as milícias no Rio, avalia Luiz Eduardo Soares

Em entrevista para Luis Nassif, um dos principais pensadores da segurança pública do país conta a história da consolidação das milícias e o possível impacto da “política de estado” que ministro quer promover no país

Jornal GGN – O antropólogo, autor do livro “Elite da Tropa” (que deu origem ao filme Tropa de Elite) e ex-secretário de Segurança Pública do Rio de Janeiro, Luiz Eduardo Soares se tornou referência sobre a realidade social carioca. Em entrevista ao editor-chefe do GGN, Luis Nassif, ele conta como as milícias nasceram e se fortaleceram no estado a partir de uma relação promíscua com agentes do Estado.

O cientista político pondera também nesta entrevista que o chamado “pacote anticrime” do ministro da Justiça e Segurança Pública, Sérgio Moro, tende apenas a fortalecer esse sistema ilegal e paralelo da exploração do medo e insegurança entre a população carioca.

Luiz Eduardo acaba de lançar um novo livro chamado “Desmilitarizar – segurança pública e direitos humanos” (Editora Boitempo) trazendo propostas para combater o que chama de “gato orçamentário”, ou seja, o resultado da conexão entre o legal e ilegal, gerador dessas organizações criminosas que hoje atuam de formas mais brutas do que os comandos do tráfico.

A seguir, os principais trechos da entrevista.

O impacto do pacote anticrime de Moro

As polícias do Rio estão batendo recordes históricos na quantidade de mortes de civis provocadas em serviço. Nos primeiros três meses de 2019, foram 434 vítimas, volume 20% maior em relação às mortes praticadas por policiais nos três primeiros meses do ano anterior quando, também, foi registrado aumento de 36% da letalidade policial em relação ao primeiro trimestre de 2017.

“Nós estamos chegando a 1/3 dos homicídios sendo praticados pelas próprias polícias, em casos de confrontos, a respeito dos quais não há investigação, não há prestação de denúncia pelo Ministério Público, que lava as mãos e cujo a atitude é abençoada depois pelo Judiciária”. Ainda segundo o antropólogo, menos de 2% dos casos foram denunciados pelo MPF à Justiça gerando alguma punição.

No pacote “anticrime”, Moro propõe mudança na legislação sobre a excludente de ilicitude (perdão de punição) em casos em que o Judiciário entender que houve legítima defesa. “Esse mecanismo] só concorre para o aumento da violência policial (…) sendo pior que a pena de morte, porque concede licença para execução extra-judicial, ou seja, sem julgamento”.

A proposta do chamado “plea bargain”, incluída no pacote anticrime e importada do modelo judiciário norte-americano, onde o Ministério Público ganha mais poderes para negociar diretamente com o acusado, deve contribuir também para o aumento da população carcerária. O objetivo do mecanismo é pular o curso normal do trâmite judicial, oferecendo ao acusado a opção de, assumindo a culpa, negociar uma pena menor. De quebra, o Ministério Público não precisará produzir mais provas para comprovar a acusação.

“Esse tipo de negociação, em condições precárias, do ponto de vista do réu, acaba fazendo com que o resultado seja o encarceramento, mesmo que em quantidade de anos menor do que eventualmente teria no processo usual. E isso é dramático porque nós temos a terceira maior população carcerária do mundo – estamos chegando a 800 mil presos. Como é impossível sobreviver na prisão sem vincular-se a uma facção criminosa, pois elas dominam o sistema penitenciário, na medida que vamos lançando jovens a esse inferno institucional, alimentamos as facções criminosas, portanto contratando violência futura”.

Em suma, o pacote “anticrime” reforça o “encarceramento de forma desqualificada”, apenas reforçando os problemas já existentes do sistema brasileiro de segurança pública.

O cientista político destaca também que a proposta de Moro “faz com que o flagrante delito seja o grande modo de operação das polícias, sem investigação, sem definição das prioridades realmente relevantes. [Assim], nós tendemos a ter um inchaço mais pronunciado da população carcerária e, com isso, mais crimes e mais violência contratada para o futuro”.

Como nascem as milícias

A história das milícias no Rio de Janeiro é interligada à política e entendê-las é a chave para resolver o problema da segurança pública no Estado, defende Eduardo Soares.

Logo quando surgiram esses grupos, formados por policiais e ex-policiais corruptos, alguns políticos e governantes, entre eles César Maia, chegaram a se manifestar justificando que as milícias eram sistemas de “autodefesa comunitária”.

“[Entretanto], não é a própria comunidade, são segmentos policiais”, completa o antropólogo ressaltando que, ao contrário das facções que vivem do tráfico de drogas, os milicianos perceberam que poderiam lucrar além da comercialização de produtos ilegais (drogas e armas), incluindo a exploração imobiliária e acesso aos serviços públicos básicos na comunidade como eletricidade e gás.

“Os milicianos, mais velhos, maduros e espertos, passaram a se candidatar diretamente à vereador, à Assembleia Legislativa e a fizerem acordos com políticos”, completa Eduardo Soares ressaltando que o apoio de milicianos contribuiu para à primeira eleição de Sérgio Cabral ao governo do Estado, em 2006.

Em 2010, durante a campanha para sua reeleição, no segundo turno, seu opositor Fernando Gabeira expôs imagens de Cabral abraçado com milicianos que já estavam presos, imagens usadas pelo próprio ex-governador na corrida eleitoral anterior.

Naquela ocasião, Cabral entrou na Justiça e conseguiu proibir a veiculação das imagens que ele mesmo tinha postado em 2006, ao lado de milicianos. Em seguida foi reeleito.

Apesar do papel “inacreditável” do judiciário promovendo censura de imagens importante para o debate político, mostrando a promiscuidade entre representantes políticos e milícias, Eduardo Soares aponta que àquela eleição “já mostrava uma inflexão, uma mudança, da percepção pública, e da grande mídia, relativamente ao fenômeno da milícia”.

Se antes elas eram toleradas, a partir dali começaram a ser apontadas como um mal a ser combatido, sobretudo após a tentativa de assassinato de jornalistas do Dia, da CPI conduzida pelo então deputado estadual Marcelo Freixo, denunciando a violência das milícias e do filme Tropa de Elite 2, que expôs nacionalmente o problema do Rio.

Com a exposição, as milícias “mudaram a atitude, deixaram de torturar e matar publicamente, como faziam antes, como forma de afirmação do seu poder, e passaram, como chamou sociólogo Ignácio Cano, a matar e agir no sapatinho, gíria no Rio de Janeiro que significa sem fazer alarde. Criaram cemitérios clandestinos e não deixaram de operar”.

Eduardo Soares explica ainda que as milícias são fruto daquilo que chama de “gato de orçamento”.

“Se trata de uma conexão ilegal e informar, como nos casos de gato de energia, mas estamos falando de ‘gato orçamentário’ (…) O orçamento para Segurança, no Rio de Janeiro, apesar de ser elevadíssimo é insuficientemente do ponto de vista salarial, para o ganho da massa. Os policiais recebem salários indignos e têm de implementá-los, o que é perfeitamente e razoavelmente honesto, todos nós fazemos isso”.

O problema, explica o antropólogo, é que na segurança pública o trabalho tipo ‘bico’ gera conflito de interesses. “Se cria aí uma zona de sombra muito importante, o policial honesto, bem intencionado, faz esse trabalho na segurança informal e ilegal e volta pra casa. Sob riscos, [muitos morrem nesse trabalho ilegal], mas seguem sua vida… Mas há aqueles que se aproveitam disso, sabendo que essa é uma área de sombra, e criam insegurança artificialmente para vender segurança”.

“O irmão do hoje deputado federal Marcelo Freixo (PSL-RJ) foi assassinado em 2006, porque se tornou síndico de um condomínio e resolveu rever os contratos com a segurança privada. Esse é um sintoma muito claro de como vai se espalhando essa malha da segurança privada local e ilegal”, completa o pesquisador.

O Estado, por sua vez, fecha os olhos às atividades trabalhistas paralelas de policiais, “porque é daí que vem o suplemento salarial, o bico que garante uma certa pacificação, estabilidade e impede demandas contra o orçamento público, situações grevistas etc”, destaca.

Quando o Rio conseguiu combater as milícias

O cientista político ressalta que, até 2010, a segurança pública do Rio foi capaz de juntar esforços, “graças à coragem e capacidade do delegado Claudio Ferraz, da Draco (Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas)”, resultando na prisão de quase 500 milicianos.

Após mudança de governo e longo período sem nenhum tipo de repressão contra esses grupos, as milícias voltaram a pulular, e de forma mais articulada com os poderes do Estado do que antes. Acompanhe a seguir o vídeo da entrevista na íntegra.

 

 

 

 

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