Um olhar estranho para a história do Brasil e um relance utópico

Facebook 27/06/2020
Luiz Eduardo Soares

O método sincrético de associação (ou de sociabilidade), com subordinação inclusiva hierarquizante, de inspiração católica, extinguiu sua validade “terapêutica” ou político-cultural. O sintoma evidente era, já nos anos 80/90, o avanço do mundo evangélico, mais horizontal e agonístico -como procurei mostrar em artigo de 1990, retomado em O Brasil e seu Duplo (Todavia, 2019). A modernização conservadora ou o desenvolvimento combinado e desigual do capitalismo autoritário estava engrenado com a “estética” sincrética, para a qual o tropicalismo, renovando a antropofagia, apresentou uma redefinição crítica, uma atualização dialética, diferenciadora -mas nem todos entenderam o recado premonitório que a arte, mais uma vez, sussurrava no ouvido da história.

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A estética bolsonarista

Um debate sobre estética com #FloraSussekind; #GeorgetteFadel; #LuizEduardoSoares; #Tomazklotzel

Roda das rosas #5 – Live

Nas dramáticas condições em que nos encontramos, surge a questão: como resistir ao genocídio e ao descalabro social e econômico? Bastam notas de repúdio, ações parlamentares e mobilizações virtuais ou também é hora de ir às ruas? Como pensar e praticar ações coletivas com ressonância política em uma situação de isolamento social e de rápido avanço do coronavírus? Deve-se pensar em uma frente ampla, incluindo os que colaboraram para a ascensão do bolsonarismo, ou em uma frente mais restrita, porém com um programa marcadamente popular? Chamamos essa roda para traçar as possíveis convergências e divergências no interior desse debate.

Convidados:

Vladimir Pinheiro Safatle é professor titular da cadeira de Teoria das Ciências Humanas da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. Autor, entre outros, de A esquerda que não teme dizer seu nome (2012), O circuito dos afetos (2015) e Dar corpo ao impossível (2019).

Luiz Eduardo Soares é um antropólogo, cientista político e escritor. Considerado dos mais importantes especialistas em segurança pública do Brasil. Autor, entre outros, de Elite da tropa (2006), Desmilitarizar (2019) e Brasil e seu duplo (2019).

Mediação: Arthur Hussne Bernardo

“O risco da infiltração é permanente porque Bolsonaro investe no fortalecimento das milícias”, diz antropólogo sobre protestos

Publicado em: no RFI

Por: Elcio Ramalho

As manifestações de rua realizadas no último fim de semana em várias cidades do Brasil não se traduziram em confrontos entre apoiadores e adversários do presidente Jair Bolsonaro, como temiam forças de segurança e muitos intelectuais. No entanto, o risco de agentes se infiltrarem em novos protestos para disseminar violência é alto e não pode ser descartado como estratégia para justificar medidas autoritárias, avalia o antropólogo e cientista político Luiz Eduardo Soares.

Um texto assinado por Soares circulou amplamente na internet com pedido para que movimentos sociais não comparecessem aos recentes protestos. A mensagem alertava para a ameaça da presença de agentes infiltrados que poderiam semear o caos e criar um clima de desordem que serviria para justificar eventuais medidas de ruptura institucional.

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“O sebastianismo policial encontrou seu messias. Estão abertas as portas do inferno”

Entrevista ao jornal “O Estado de São Paulo”, 10 de junho de 2020

 

Com Isabella Marzolla

“Segmentos numerosos e com grande potencial de liderança das polícias brasileiras, não apenas das militares nem só das paulistas, foram infectadas pelo bolsonarismo. Ou melhor, já eram bolsonaristas antes de Bolsonaro. As corporações herdaram as culturas corporativas forjadas na ditadura militar, as quais, por sua vez, eram tributárias da longa tradição racista e classista que marcou sua história. Assim como a arquitetura institucional da segurança pública, que inclui o modelo policial, não foi alterada pela transição democrática -a Constituição de 1988 consagrou o que estava estabelecido-, tampouco se democratizou a cultura das instituições. Nenhuma instituição serve aos porões da ditadura impunemente. As digitais da ditadura permanecem atuais, apesar dos discursos oficiais”.
“Se Moro cerrar fileiras pela anulação das eleições no TSE, devolvendo ao povo o direito de escolha, não deveria ser excluído (dos manifestos). Não se trata de ajustar as contas com o passado de ninguém, nesse momento, nem de disputar a liderança da frente anti-fascista. Isso se fará, no futuro. Trata-se de salvar vidas e o que nos resta de democracia”.
“O personagem ausente da equação, até agora, é o povo. Quando o sentimento popular for conquistado para a resistência ao fascismo, o bolsonarismo acabou”.
“O povo queria uma revolução e elegeu a contrarrevolução”.
“Resta saber qual será a via de derrocada da democracia: a sequência desse movimento de corrosão gradual e crescente, que já está em curso, ou alguma ruptura mais clara, a qual envolveria a criminalização dos movimentos sociais, o cerceamento no acesso às informações e a desconstituição do esforço do Supremo na desmontagem da máquina de fakenews. Um sintoma do bolsonarismo é a capitulação de Witzel, chantageado pelos óbices ao repasse de verbas e pelas investigações da PF (que podem ter fundamentos corretos, mas cujo timing não foi indiferente à conjuntura política)”.
“A questão (genocídio dos jovens negros em territórios vulneráveis) não se resume à polícia, e por isso se trata de racismo estrutural: o MP, por ação e omissão, é cúmplice; a Justiça abençoa; as autoridades governamentais autorizam e estimulam; a mídia só eventualmente denuncia; grande parte da sociedade tolera, quando não aplaude. Preciso dizer mais?”
Luiz Eduardo Soares é um dos mais importantes especialistas em segurança pública do país. Antropólogo, cientista político, e co-autor do best seller “Elite da Tropa”, foi secretário nacional de segurança pública (2003).
O tema desta entrevista foi a influência do bolsonarismo sobre as PMs, racismo estrutural e protestos, enquanto a pandemia corre solta.

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Como foram as manifestações de 7 de junho

Facebook, 8 de junho, 2020

LES

 

É hora de valorizar tudo o que os atos pela democracia e contra o racismo mostraram de positivo, desde os cuidados para evitar a expansão da pandemia até a atenção bem planejada que evitou provocações, de modo a que as grandes bandeiras em torno das quais todas e todos se uniam impuseram-se com luz própria, sem máculas. O fato de que os números tenham sido modestos não reduz a importância das manifestações e até contribuiu, dadas as circunstâncias, para seu sucesso.

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Apelo às lideranças democráticas

3 de junho de 2020

Luiz Eduardo Soares

Faço um apelo a todas e todos que sabem o que significaria um golpe policial-militar, sob liderança fascista. Os sinais são assustadores, ostensivos e crescentes. Hoje, o vice-presidente publicou um artigo absurdo e ameaçador no Estadão. Aras, embora tenha se corrigido depois, disse ao Bial que as Forças Armadas poderiam, sim, intervir se um poder invadisse a seara do outro, numa clara alusão crítica ao Supremo. Ives Gandra está a postos para escrever a justificativa “constitucional” do golpe. Nunca faltaram juristas aos generais; não faltarão ao capitão. Eduardo Bolsonaro confirmou: a ruptura está decidida, espera-se apenas a oportunidade. O presidente sobrevoou manifestação contra o Supremo e o Congresso ao lado do ministro da Defesa. Precisa desenhar?

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A história do mineiro esperto

Facebook, 2 de junho, 2020

A história do mineiro esperto

Eu morava nos Estados Unidos, fazia pós-doutorado e frequentava, quando podia, um restaurante brasileiro. Estávamos em meados dos anos 90. O dono era um mineiro muito simpático. Conversávamos sobre futebol e a saudade de nossa terra. Sem internet, a saudade era grande. Para minha inveja, ele tinha uma antena especial em casa que lhe permitia ver, em tempo real, alguns jogos do Brasil. Como se aproximava a decisão do campeonato carioca que meu time disputaria, combinei com meu novo amigo que assistiríamos juntos. Uma semana antes, a ansiedade crescia e eu o procurei para acertar os detalhes.

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João Pedro Mattos Pinto

Facebook – 19 de maio, 2020

LES

João Pedro Mattos Pinto, 13 anos, estupidamente assassinado por policiais dentro de casa, brincando em família. Uma criança saiu da casa quando alguns tiros foram ouvidos, para avisar: “aqui só tem criança”. Policiais, diante disso, tomaram a casa por alvo. Lançaram uma bomba de efeito moral ao interior e invadiram a residência atirando. Onde no mundo se age assim? Qual gatilho mental dispara essa insanidade homicida? Que cálculo justificaria invadir uma casa, atirando? Alguém com um mínimo de bom senso, um mínimo de equilíbrio, poderia admitir uma ação assim covarde, tão absolutamente perversa?

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Apelo à unidade anti-fascista

Postado no facebook, em 17 de maio de 2020

Luiz Eduardo Soares

No campo das esquerdas, tem sido crescente o apelo a revisões críticas e auto-críticas. Afinal, se o país está à beira do abismo, com ameaças seguidas de golpe por parte do garimpeiro genocida do Planalto, se o que nos resta de democracia e de respeito constitucional está se esvaindo a cada dia, ante o avanço do fascismo, é porque, além de um vasto conjunto de fatores que não controlamos, alguns erros nós cometemos. Pelo menos um deles é inegável: nós subestimamos o inimigo. Acho que até aqui há consenso. Muito bem, se é assim, o que não se pode admitir em nenhuma hipótese? A resposta é simples: repetir o erro. Que se cometam erros novos é natural e, na prática, inevitável. Mas insistir no mesmo erro seria estúpido e irresponsável, e demonstraria um nível de incompetência, tibieza, pusilanimidade de nossas lideranças incompatível com a gravidade do momento que vivemos. Não é preciso ser um estadista, um visionário ou um gênio para reconhecer que subestimamos o potencial de contaminação e de letalidade do fascismo no Brasil, e que não podemos continuar a subestimá-lo.

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