João Pedro Mattos Pinto

Facebook – 19 de maio, 2020

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João Pedro Mattos Pinto, 13 anos, estupidamente assassinado por policiais dentro de casa, brincando em família. Uma criança saiu da casa quando alguns tiros foram ouvidos, para avisar: “aqui só tem criança”. Policiais, diante disso, tomaram a casa por alvo. Lançaram uma bomba de efeito moral ao interior e invadiram a residência atirando. Onde no mundo se age assim? Qual gatilho mental dispara essa insanidade homicida? Que cálculo justificaria invadir uma casa, atirando? Alguém com um mínimo de bom senso, um mínimo de equilíbrio, poderia admitir uma ação assim covarde, tão absolutamente perversa?

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Apelo à unidade anti-fascista

Postado no facebook, em 17 de maio de 2020

Luiz Eduardo Soares

No campo das esquerdas, tem sido crescente o apelo a revisões críticas e auto-críticas. Afinal, se o país está à beira do abismo, com ameaças seguidas de golpe por parte do garimpeiro genocida do Planalto, se o que nos resta de democracia e de respeito constitucional está se esvaindo a cada dia, ante o avanço do fascismo, é porque, além de um vasto conjunto de fatores que não controlamos, alguns erros nós cometemos. Pelo menos um deles é inegável: nós subestimamos o inimigo. Acho que até aqui há consenso. Muito bem, se é assim, o que não se pode admitir em nenhuma hipótese? A resposta é simples: repetir o erro. Que se cometam erros novos é natural e, na prática, inevitável. Mas insistir no mesmo erro seria estúpido e irresponsável, e demonstraria um nível de incompetência, tibieza, pusilanimidade de nossas lideranças incompatível com a gravidade do momento que vivemos. Não é preciso ser um estadista, um visionário ou um gênio para reconhecer que subestimamos o potencial de contaminação e de letalidade do fascismo no Brasil, e que não podemos continuar a subestimá-lo.

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Regina Duarte

Facebook, 8 de maio, 2020 (segundo post do dia)

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Nem sempre o jogo é saudável e serve a causas nobres (que jogo? Explico no segundo parágrafo). Foi o que pensei quando assisti ao espetáculo de Regina Duarte, ontem, pasmo como qualquer pessoa não entorpecida pelo fanatismo. Ela desfilava nas ruas brasileiras de alto a baixo, leve, saltitando sobre os corpos, evitando os moribundos, entoando a marchinha ufanista dos anos de chumbo, mãos dadas a si mesma em versão bailarina, melancolicamente adolescente, pateticamente juvenil, convidando aos uivos a vizinhança para celebrar a amnésia, convocando o que há de macabro e cruel na alma humana para a festa noturna de thanatos, evocando os deuses da morte e da guerra para o festim de sangue e ruína, desdenhando torturas e assassinatos, leve, sempre leve, na pontinha dos pés, tocando flauta e ateando fogo nas matas que restam, fazendo arder as cidades e a decência, soprando as chamas do inferno sobre a história do país, incinerando o que ainda pudesse ter sobrado de dignidade no Brasil.

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Está na hora da unidade para resistir e defender a democracia

Postado no facebook em 8/05/20

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Sinto tristeza e um profundo desânimo com a despolitização, a visão rasa, estreita de vários amigos meus, companheiros valorosos de luta, segunda a qual a democracia nunca existiu para as periferias. Citam Agambem, falam em estado de exceção, etc. Sim, claro, e poucos têm sido como eu tão enfáticos e insistentes quanto a isso: a democracia efetivamente não chegou às periferias. Nada mais verdadeiro: os territórios mais vulneráveis e as comunidades têm sido sistematicamente subtraídos da vigência do Estado democrático de direito. Ali, a exceção é a regra. Ali, na prática, substantivamente, vigora o Estado de exceção, sim. Esse fato é incontestável.

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O luto, Carlitos, e a luta que segue

Facebook, segundo post, dia 4 de maio, 2020

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Em 1979, fui algumas vezes ao Galeão receber grandes líderes das lutas históricas do povo brasileiro que voltavam do exílio. Gregório Bezerra, Miguel Arraes, Luiz Carlos Prestes, Betinho. Nós cantávamos “O Bêbado e a equilibrista”, nosso hino de amor, a canção da Anistia. Eu era jovem, a militância ainda era clandestina, a democracia parecia quase ao alcance da mão, e aquele mar de gente me comovia tanto que parecia que era o Brasil todo que batia dentro do peito. Caía a tarde feito um viaduto. Eram tantos os nossos mortos, assassinados pela ditadura, eram tantos ainda os riscos, o medo rosnava. Cada um de nós arrastava a memória de sangue e horror, mas com nossos heróis chegava o futuro. Era a volta do futuro. E um bêbado trajando luto nos lembrava Carlitos. Hoje, de novo, choram Marias e Clarices, e nós mergulhamos de novo no inferno. A democracia que construímos traiu os sonhos, era um brilho de aluguel. Pelo menos temos as bandeiras, guardamos as bandeiras intactas. E temos ainda o maior dos trunfos, cravado na história de cada um e de cada uma de nós, o hino da esperança que hoje canta por nós, em nossos olhos, sem que seja preciso dizer nada. Obrigado Aldir Blanc.

Facebook, 4 de maio, 2020

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A situação é delicada e grave. O QG de Bolsonaro não elabora estratégias, mas táticas de ação, as quais, por serem estreitas quanto à consideração do ambiente (econômico, social, cultural, intersubjetivo e político) e imediatistas, nos dão a impressão de serem exclusivamente reativas, hesitantes e trôpegas, como o caminhar claudicante de um soldado embriagado. Entretanto, os reativos temos sido nós. Ontem, domingo, o presidente nos propôs o “chicken game” -aquele desafio em que dois carros partem a toda velocidade um em direção ao outro até que um motorista desvie, demonstrando medo, salvando a ambos e dando a vitória a seu competidor. Se os dois forem “machos”, morrem abraçados às ferragens, nas chamas de sua patética e ensandecida virilidade.

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Facebook, 3 de maio, 2020

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Se me permitem, destaco três matérias na Folha de SP neste domingo, 3 de maio: (1) o ensaio de Nuno Ramos sobre a pandemia e a crise política, o texto mais brilhante que li nos últimos tempos; (2) a coluna de Gaspari, que focaliza finalmente o silêncio da mídia sobre a rede privada de saúde, que tem 50% dos leitos de UTI vazios (enquanto a rede pública está em ou na iminência do colapso) e vem bloqueando o debate sobre a necessidade urgente de unificar a fila de atendimentos para a COVID-19. A rede privada tem 15.898 leitos de UTI e a rede pública, 14.876. Se o ministro, o governo, o MP e a Justiça continuarem a fazer cara de paisagem, os pobres vão morrer, afogados no seco, e os ricos vão se salvar. (3) A coluna da ombudsman, Flavia Lima, mostrando como a mídia continua tratando Sergio Moro como o insuspeito magistrado, como se alguém pudesse entrar, inocente e imaculado, em um governo de energúmenos fascistas e, pior, sair puro e virginal. Quando terá o ex-juiz percebido que o abatedouro não cheirava bem? De todo modo, sublinho aqui a questão que me parece decisiva, sobre a qual Lygia Bahia escrevera e alguns temos martelado, em vão: quando vamos abrir o jogo sobre a rede privada e a necessidade de instaurar a fila única para atendimento?

Post no Facebook, em 28 de abril de 202

Luiz Eduardo Soares

Conheçam o plano do governo federal para sair das cordas e ganhar sobrevida: Guedes foi ao mercado e Bolsonaro foi às compras, comprando o apoio do Centrão -os cargos federais no país todo já estão sendo negociados. Enquanto isso, Guedes passou o seguinte recado à Globo, a Rodrigo Maia e Alcolumbre, aos Bancos e ao empresariado mais poderoso: “Se Bolsonaro cair, Mourão virá com Braga Neto e a turma de generais, implementando planos estatistas, neokeynesianos, ao estilo Geisel-Dilma. Portanto, as elites econômicas têm de renovar o apoio a Bolsonaro, e eu, Guedes, me comprometo, com o endosso do presidente, a seguir liderando o projeto neoliberal no pós-pandemia.”
Ou seja, abram os olhos: o que está em jogo é a direção da política econômica na saída da crise sanitária.

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Post no Facebook, 25 de abril, 2020

Teses de abril (desculpe a brincadeira, Vlad): (

1) O famigerado mercado só se preocupa com o affair Moro na medida em que causa instabilidade. Aquela turma não quer saber se há ou não intervenção auto-interessada na PF, se o presidente é miliciano, aliado de assassinos e cúmplice de genocídios. As elites sempre souberam quem é Bolsonaro. O capital nunca teve escrúpulos.

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Assim como transformaram capitão Nascimento em herói, transformaram Ustra em herói e Bolsonaro em presidente

O Estado de S.Paulo, 22 de abril de 2020

Por Isabella Marzolla

Segurança pública em tempos de pandemia é um tema fundamental. Os riscos de convulsão social, a situação nos presídios, o controle de informação, a lógica das milícias, o aparelhamento das polícias ou mesmo o protagonismo da classe política, com o presidente Bolsonaro e o ministro Moro à frente.
Prato cheio para uma conversa com Luiz Eduardo Soares, antropólogo, cientista político, e co-autor do best seller “Elite da Tropa”. Capitão Nascimento, o anti-herói que se tornou herói para alguns milhares em um sobressalto, também se tornou objeto de reflexão nesta entrevista.
“Uma sociedade que tolera e convive pacificamente com os cantos guerreiros de policiais, entoados nas ruas da cidade, à luz do sol, já aninhou a serpente”.
“O poder na lógica miliciana é o que é porque pode, funda-se a si e em si mesmo, em seu exercício autóctone continuamente reproduzido, que não pode deixar de reproduzir-se sob pena de desmanchar no ar. A dinâmica da autorreferência -que exclui o Outro, a sociedade, os poderes plurais, as instituições, as regras e os limites- prescinde de justificativas, fundamentos, pressupostos. Trata a ciência com escárnio e o questionamento como desafio cuja resposta só pode ser a bala ou a difamação”.

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