Facebook, 4 de maio, 2020

LES

A situação é delicada e grave. O QG de Bolsonaro não elabora estratégias, mas táticas de ação, as quais, por serem estreitas quanto à consideração do ambiente (econômico, social, cultural, intersubjetivo e político) e imediatistas, nos dão a impressão de serem exclusivamente reativas, hesitantes e trôpegas, como o caminhar claudicante de um soldado embriagado. Entretanto, os reativos temos sido nós. Ontem, domingo, o presidente nos propôs o “chicken game” -aquele desafio em que dois carros partem a toda velocidade um em direção ao outro até que um motorista desvie, demonstrando medo, salvando a ambos e dando a vitória a seu competidor. Se os dois forem “machos”, morrem abraçados às ferragens, nas chamas de sua patética e ensandecida virilidade.

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Facebook, 3 de maio, 2020

LES

Se me permitem, destaco três matérias na Folha de SP neste domingo, 3 de maio: (1) o ensaio de Nuno Ramos sobre a pandemia e a crise política, o texto mais brilhante que li nos últimos tempos; (2) a coluna de Gaspari, que focaliza finalmente o silêncio da mídia sobre a rede privada de saúde, que tem 50% dos leitos de UTI vazios (enquanto a rede pública está em ou na iminência do colapso) e vem bloqueando o debate sobre a necessidade urgente de unificar a fila de atendimentos para a COVID-19. A rede privada tem 15.898 leitos de UTI e a rede pública, 14.876. Se o ministro, o governo, o MP e a Justiça continuarem a fazer cara de paisagem, os pobres vão morrer, afogados no seco, e os ricos vão se salvar. (3) A coluna da ombudsman, Flavia Lima, mostrando como a mídia continua tratando Sergio Moro como o insuspeito magistrado, como se alguém pudesse entrar, inocente e imaculado, em um governo de energúmenos fascistas e, pior, sair puro e virginal. Quando terá o ex-juiz percebido que o abatedouro não cheirava bem? De todo modo, sublinho aqui a questão que me parece decisiva, sobre a qual Lygia Bahia escrevera e alguns temos martelado, em vão: quando vamos abrir o jogo sobre a rede privada e a necessidade de instaurar a fila única para atendimento?

Post no Facebook, em 28 de abril de 202

Luiz Eduardo Soares

Conheçam o plano do governo federal para sair das cordas e ganhar sobrevida: Guedes foi ao mercado e Bolsonaro foi às compras, comprando o apoio do Centrão -os cargos federais no país todo já estão sendo negociados. Enquanto isso, Guedes passou o seguinte recado à Globo, a Rodrigo Maia e Alcolumbre, aos Bancos e ao empresariado mais poderoso: “Se Bolsonaro cair, Mourão virá com Braga Neto e a turma de generais, implementando planos estatistas, neokeynesianos, ao estilo Geisel-Dilma. Portanto, as elites econômicas têm de renovar o apoio a Bolsonaro, e eu, Guedes, me comprometo, com o endosso do presidente, a seguir liderando o projeto neoliberal no pós-pandemia.”
Ou seja, abram os olhos: o que está em jogo é a direção da política econômica na saída da crise sanitária.

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Post no Facebook, 25 de abril, 2020

Teses de abril (desculpe a brincadeira, Vlad): (

1) O famigerado mercado só se preocupa com o affair Moro na medida em que causa instabilidade. Aquela turma não quer saber se há ou não intervenção auto-interessada na PF, se o presidente é miliciano, aliado de assassinos e cúmplice de genocídios. As elites sempre souberam quem é Bolsonaro. O capital nunca teve escrúpulos.

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Assim como transformaram capitão Nascimento em herói, transformaram Ustra em herói e Bolsonaro em presidente

O Estado de S.Paulo, 22 de abril de 2020

Por Isabella Marzolla

Segurança pública em tempos de pandemia é um tema fundamental. Os riscos de convulsão social, a situação nos presídios, o controle de informação, a lógica das milícias, o aparelhamento das polícias ou mesmo o protagonismo da classe política, com o presidente Bolsonaro e o ministro Moro à frente.
Prato cheio para uma conversa com Luiz Eduardo Soares, antropólogo, cientista político, e co-autor do best seller “Elite da Tropa”. Capitão Nascimento, o anti-herói que se tornou herói para alguns milhares em um sobressalto, também se tornou objeto de reflexão nesta entrevista.
“Uma sociedade que tolera e convive pacificamente com os cantos guerreiros de policiais, entoados nas ruas da cidade, à luz do sol, já aninhou a serpente”.
“O poder na lógica miliciana é o que é porque pode, funda-se a si e em si mesmo, em seu exercício autóctone continuamente reproduzido, que não pode deixar de reproduzir-se sob pena de desmanchar no ar. A dinâmica da autorreferência -que exclui o Outro, a sociedade, os poderes plurais, as instituições, as regras e os limites- prescinde de justificativas, fundamentos, pressupostos. Trata a ciência com escárnio e o questionamento como desafio cuja resposta só pode ser a bala ou a difamação”.

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Sobre a politização dos policiais (um diálogo com Bruno Torturra)

Facebook – 21 de fevereiro, 2020

Luiz Eduardo Soares

A politização dos policiais não começou com Bolsonaro, nem se esgota entre os militares. Conheço muitos ultra-direitistas militantes nas polícias civis e federais. E não se trata apenas de afinidades eletivas entre espíritos conservadores e instituições que portam a marca histórica de culturas corporativas conservadoras. Há bem mais que isso e o que há não é óbvio. A rotina policial -e aqui não generalizo a análise, refiro-me apenas aos segmentos (e são numerosíssimos) infectados pelo bolsonarismo, em todo o país- põe em marcha uma vida de militância e ativismo, sem dizer seu nome. A prática policial desses segmentos corresponde a um verdadeiro ativismo político contínuo. Ela se dá sob a forma de reafirmação de um crivo de leitura da história, ideologicamente enviesado, que foi viabilizado (legitimado) pela continuidade institucional e valorativa das polícias, fruto da transição política negociada, sem ruptura, que prevaleceu no Brasil. Trata-se ao mesmo tempo de leitura do passado e construção do presente à sua imagem e semelhança. A história do Brasil racista e classista tem sido escrita todos os dias, exaltada, celebrada e rememorizada, pela violência policial. A história no que ela tem de essencial e inercial, como se fora menos um fluxo e mais uma condição ontológica reposta, reencenada, reinstalada. A prática desses segmentos policiais tem escrito e reescrito a história na pele, no corpo (e no espírito) dos escravos, no dorso da sociedade (dorso pobre e negro) -a imagem eu a devo a Kafka, em seu conto magnífico, Na Colônia Penal.

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Alguns pontos para reflexão. O desafio será combiná-los e extrair consequências.

Facebook em 20 de fevereiro de 2020.
Luiz Eduardo Soares

O general Braga Neto assume a Casa Civil. Fora interventor no Rio. Presume-se que conheça como ninguém os bastidores da segurança pública fluminense e a atuação das milícias. É razoável supor que saiba o que aconteceu em 2018 e qual a natureza dos vínculos dos Bolsonaro com milicianos. Se a especulação faz sentido, posso deduzir que ele fosse tido pelos que têm o que temer como uma espécie de mina explosiva, capaz de detonar a República. Entretanto, tenderia a calar-se, fosse este o caso, em nome do que os oficiais militares prezam acima de tudo: a responsabilidade. Se o que sabe fosse tão perigoso, ele provavelmente guardaria o conhecimento sob sete chaves. Contudo, riscos sempre existem, em função de mudanças conjunturais, sobretudo havendo um vice confiável, do ponto de vista dos militares. Por isso, trazer a mina para a sala contígua no Palácio talvez seja o mais prudente a fazer. Lealdades personalizadas se sobrepõem ao puro princípio abstrato da responsabilidade pública.

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Barbárie autorizada

facebook, 5 out de 2018

Amigos, grande parte de nossas vidas é regida pelo que é invisível: emoções, afetos, expectativas, desejos, memórias, fantasias. Há também nossas crenças, valores e as ideias que produzimos ou reproduzimos. Boa parte dos veículos que dão corpo a esse mundo de coisas intangíveis são os símbolos, de que nós, os antropólogos e os artistas, nos ocupamos. Uma característica chave dessa realidade virtual é que ela está imersa feito um iceberg no grande oceano que chamamos inconsciente. Os símbolos são como barcos que brilham no fundo escuro da noite. Quando as ondas baixam, nós os vemos, iluminados, sinalizando para nós alguma mensagem distante e obscura. Quando as ondas sobem, os barcos desaparecem no horizonte.  

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Por que voto em Haddad

Devo começar afirmando minha admiração por Boulos e Ciro. Acredito que Boulos se tornará uma grande referência política, cujo protagonismo contribuirá para redesenhar a configuração partidária atual e espero poder acompanhá-lo no futuro pós-eleitoral. Sua candidatura, entretanto, foi assumida como oportunidade de politização da sociedade, particularmente das classes subalternas, sem a pretensão de disputa efetiva. E aí está o problema, porque as eleições de 2018 são dramaticamente decisivas para o país.

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O tuíte do General

O tuíte do General

Luiz Eduardo Soares

O tuíte do general VillasBoas, comandante do Exército, é a maior chantagem à Justiça desde a ditadura. O Supremo tem, agora, uma arma apontada contra os juízes: ou votam contra o HC de Lula e pela prisão em segunda instância, ou… ou o quIe, general? Traem a pátria? Traem o interesse público? Contrariam suas convicções pessoais? Desagradam sua corporação? Se o ministro Fachin tinha sido ameaçado, agora teria razões para denunciar a chantagem.

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