Domingos – Documentário de Maria Ribeiro

Luiz Eduardo Soares

O talento de Maria Ribeiro não nos deu um documentário sobre a vida, o tempo e a obra de Domingos de Oliveira, mas um filme com Domingos. Explico por que e quão profundamente essa estratégia se relaciona com a singularidade do Domingos-artista, poeta, cineasta. 

O tempo é a matéria por excelência da música, trabalhada, ocupada, distendida e comprimida pelo som, segundo padrões criados pelas tramas do espírito humano. O tempo é também a matéria do cinema, mas nesse caso ela é trabalhada não só pelo som, mas também por imagens e por conteúdos previamente empacotados nos códigos culturais disponíveis.
Ao contrário do que sugerem os comentários modestíssimos de Domingos sobre sua obra, ela se inclui entre as maiores de nosso repertório cinematográfico. Ousaria dizer que Domingos, mais do que qualquer outro grande autor do cinema brasileiro, dominou a linguagem inefável das relações humanas, aquela que desliza pelo vazio entre corpos e gestos, aquela que vibra e oscila na hesitação da voz, aquém da coreografia, dos movimentos identificáveis e completos, aquela que não alcança o plano das palavras, que circula e imanta as sensibilidades na esfera infra-linguística.
Ali, no intervalo entre o som e o sentido, entre a voz e a palavra, no limbo da semântica reconhecida, antes que o fruto da verbalização amadureça em conteúdos discerníveis, justamente ali, Domingos planta a bandeira de suas intervenções audio-visuais. Ali, na beira dos sussurros e das hesitações, onde as falas ainda não se precipitaram e a vertigem das vacilações nos aproxima do lado escuro que tememos e ignoramos. E também do outro lado, na margem oposta, povoada por mistérios solares e deuses do humor, que fascinam e erotizam, Domingos evoca o enigma e o sustenta teso no tempo, suspenso diante dos espectadores, vibrando, corda esticada entre personagens/atores.
 Seus filmes nos oferecem o vácuo antes da fala, o vácuo cavado em cada fala, o vácuo ecoando a fala arqueada, modulada pelo gaguejar que tensiona os pólos relação e solidão, vida e morte, significação e ruído.
O que é isso, afinal? Em uma palavra, talvez seja a vivência da intimidade; a experiência estética e existencial que tem a coragem extraordinária de explorar o limite entre o que somos, fomos e podemos vir a ser. A experiência estética e existencial que tem a audácia de tentar a aproximação excessiva com o risco que é o outro. Tem a ousadia de compartilhar no tempo-filme esse convívio delicioso e terrível, lugar das paixões que imolam e celebram todas as dramaturgias possíveis do amor.
A centelha, a fração, o grão infinitesimal, delicadíssimo, que concentra paradoxos e contradições, nesse fotograma cabe a dor do mundo, e a promessa de felicidade. E é tão delicioso saborear esse grão, nos filmes de Domingos, tão maravilhosamente delicioso saborear cada grão e os demais –esse grão que Domingos nos dá e que exprime em seu minimalismo radical, em seu despojamento franciscano, a intimidade, a vivência sensorial da intimidade, entendida como o acesso quase imediato e supra-linguístico ao mapa dos desafios humanos.
Domingos o faz sem o peso das retóricas rebarbativas e pretensiosas, na simplicidade do gaguejar, no tumulto babélico das vozes em torno da mesa de um bar. Por isso é tão fácil não ver sua genialidade. Por isso é tão fácil subestimar suas obras-primas. Por isso é tão fácil, para ele mesmo, esconder-se nos andrajos da humildade.
Alguns talvez estranhem: “minimalista, Domingos? Mas seus personagens são loquazes por excelência, suas cenas se prolongam em diálogos verbosos, por vezes redundantes”. Insisto: minimalista. Nas obras de Domingos, os personagens falam como os de Bergman calam. Falam para estender a corda do tempo e adiar o silêncio, antecipado com angústia insuportável. Falam como quem bebe à beira do precipício. Falam como quem ocupa o tempo, preenche o espaço e posterga o fim inexorável. Falam para exorcizar até onde for possível a consciência da solidão e dos limites da linguagem. Esticando o fio até fazer soar o som que se tira da linha tesa, os personagens boquirrotos evocam o fim, o limite e a angústia. Esse paradoxo não se tece com redundâncias e eloquência, plataformas de conteúdos e significados circunstanciais, mas com a matéria simples e anterior: o exercício do falar como verbo intransitivo.
Entretanto, no cenário dramatúrgico de amores e desamores, corações de ouro e de pedra, todas as mulheres do mundo e mundo nenhum, em que os leves percalços de tramas românticas enlevam nossos sentidos, a infusão do veneno trágico provoca uma alquimia singularíssima. O riso pode desafogar a ansiedade instada pelo estranhamento cuja causa não se chega a divisar. Os lábios podem acompanhar a corda do tempo esticada no varal desse teatro esquisito de superficialidades abissais. A graça ocupa o vazio da tensão que cede.
O vozerio de casais falastrões remoendo filosofices puxa o nervo da alma até a saturação. Exatamente como Bergman, nos trópicos, isto é: pelo avesso. O excesso mimetiza o barroco para nos dar o oco inacessível, embora onipresente, com sua pregnância existencial gélida e sua potência estética desestabilizadora. O palavrório é música. O falatório é instrumento de rituais sutis. O artista pinta e borda com tantas cores para que se insunue o extremo alvo da escuridão.
Nada disso pretende sugerir que, no fundo, Domingos seja um cético hermético e tedioso, um esteta erudito da náusea “essencial”. Domingos é apenas um cético brilhante, um sedutor fascinante, que trocou a náusea pela ironia porque prefere a diversão à morte. Sua visão gauche da política e dos temas sociais não expressa alienação de classe média, mas recusa ao cliché. Ele nos devolve a polis enriquecida justamente por tratá-la com sua sensibilidade livre e desarmada. Sua polis é preenchida por indivíduos. Indivíduos que carregam desertos, que lidam como podem com os limites da linguagem, dos afetos e dos relacionamentos, mas que também revelam coragem e disponibilidade para o risco. Risco representado pelas experiências variadas do amor e pelo mergulho nesse âmbito de sombra e luz, a intimidade.
Que ninguém se engane. Maria Ribeiro nos trouxe um ensaio geral para o contato inquietante com o gênio de Domingos. Não foi à toa que seu documentário misturou vida e obra, e nos deu a marcha vital e alegre do cotidiano. Maria percebeu em que direção devemos seguir se nos dispomos a buscar o tesouro. Ela nos convoca para um breve exercício de intimidade e nos lança diante de abismos assombrosos, sorrindo, brincando. Aprendeu com o mestre.
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