Judith Butler vem aí, trazendo a peste: bem-vinda @ Luiz Eduardo Soares

Judith Butler vem aí, trazendo a peste: bem-vinda

Publicado no site Justificando em, 1 de novembro de 2017

Quando Freud chegava aos Estados Unidos, disse com ironia a um interlocutor que o acompanhava: eles não sabem que lhes trago a peste. A anedota é contestada por seus biógrafos, mas vale como alusão simbólica: a psicanálise destroçava o mito liberal do ator racional, auto-consciente, fundamento da antropologia rasteira, dominante na classe média americana. O novo saber subvertia a consagração do american way of life, utopia dos subúrbios, que Hollywood espalhava pelo mundo, colonizando sentimentos e capturando esperanças. Era mesmo a peste que desembarcava em solo americano.

Judith Butler está chegando ao Brasil. Não é a primeira vez, mas certamente ela nunca havia sido recepcionada, nem aqui nem no mais obscurantista dos recantos do planeta, por 100 mil assinaturas contra sua visita e suas palestras. Eu quase escrevo: não sabia que ela se tornara tão popular nas terras de Vera Cruz, no país dos Papagaios, depois nomeado Brasil. Cem mil leitores de sua obra não gostam dela, não gostam mesmo, enfática e furiosamente, a ponto de se ocuparem em expressar sua opinião publicamente. Imagino que os leitores que apreciam seus livros sejam ainda mais numerosos. Que nação incrível nós seríamos. Mas não é nada disso. Duvido que haja alguém que, tendo lido e compreendido os escritos de Butler, mesmo discordando, cometesse o despautério –que macula ainda mais nossa imagem internacional- de repudiar sua vinda e a realização de suas palestras. O famigerado abaixo assinado é um análogo da queima de livros. Quanto falta para a pira sacrificial da inteligência? Nada, ouso afirmar que não falta nada.

Curioso, quase cômico (não fora trágico), é o seguinte paradoxo: para uma sociedade povoada por empreendedores da ignorância exibicionista, o pensamento de Judith Butler é mesmo a peste. O fato dos signatários do tal manifesto existirem, justifica o manifesto: os sócios do repúdio à autora têm mesmo motivos para temer, temer confrontar-se com o que não podem saber sem sofrerem a metamorfose que os transformará no que temem, e por isso odeiam e exorcizam. Eis aí Freud redivivo. Essa massa de gente cheia de rancor e ressentimento está apavorada com a emergência do feminino e, mais do que isso, com a superação das classificações que aprisionam os sujeitos em quadros classificatórios –porque, afinal, não faz sentido sair do armário e entrar na gaveta. Essa turba teme o distúrbio ontológico que resultaria da supressão das âncoras dos gêneros. Os signatários temem um encontro cara a cara consigo mesmos e com seus demônios.

 

Butler é uma de minhas principais referências intelectuais.

 

Sou professor universitário há 42 anos e desde o começo dos anos 1990 incluo seus livros e artigos na bibliografia de meus cursos. Sua obra circula entre nós há décadas. Butler opera uma articulação engenhosa e criativa entre a antropologia, o desconstrucionismo derridiano, a filosofia da linguagem pós-wittgensteiniana, com destaque para o pensamento de Austin e Searle, o neopragmatismo de Richard Rorty, a psicanálise lacaniana reapropriada criticamente por Gilles Deleuze e a tradição interacionalista, cuja raiz remete à escola sociológica de Chicago e desagua, desde fins dos anos 1950 e começo dos 60, em autores como Goffman, retomado por Michel Foucault. A produção de Judith Butler demonstra a centralidade, a complexidade e a sofisticação do pensamento feminista em nosso tempo.

Rebanhos, cheiros e sinais diacríticos estão formando o segmento conservador da opinião pública brasileira. Reações são provocadas pelo odor que se desprende dos animais percebidos como perigosos: os inimigos. Hordas de bípedes coléricos deixam-se tanger por sinais simplificadores, dualistas, maniqueístas. O Leviatã social está sendo gestado por uma corrente produtora de automatismos, condicionados por palavras de ordem e fórmulas ideológicas triviais. Esse é um sintoma grave, muito grave, e deveria preocupar inclusive os conservadores sensíveis, informados e inteligentes, porque se o Leviatã social triunfar, não haverá espaço nem para eles (e elas), uma vez que toda inteligência será banida e a informação de qualidade, incinerada.

Luiz Eduardo Soares é antropólogo, escritor, dramaturgo e professor de filosofia política da UERJ. Foi secretário nacional de segurança pública. Seu livro mais recente é “Rio de Janeiro; histórias de vida e morte” (Companhia das Letras, 2015).

© Copyright Luiz Eduardo Soares  Site por UNDERSTUDIO