Linchamento e rolezinho

Luiz Eduardo Soares (5 de fevereiro de 2014)

Permitam-me compartilhar uma hipótese: as cenas de linchamento na zona sul do Rio, montadas por jovens brancos de classe média, que falam a língua portuguesa com dicção facistóide e racista, são reações performáticas –inconscientes, no confronto intersubjetivo, travado no campo simbólico-político– aos rolezinhos, os quais dramatizam migrações democráticas, suprimindo fronteiras entre centro e periferia, deslocando a primazia violenta e iníqua de classe e cor.
Prossigo: por que acorrentaram o jovem negro a um poste e o desnudaram? Porque, como se tratava de reação inconsciente aos rolezinhos (migração simbólica democratizante, que evoca e convoca o que há de positivo na dinâmica social no país), era preciso fixá-lo, reterritorializá-lo. Por que pelo pescoço? Porque alude à dramaturgia sádica do escravismo e da KKK. E também porque remete à voz, à fala, ao protagonismo, ao sujeito, não apenas a seu corpo. E por que o desnudaram? Para humilhá-lo, claro, mas também porque os facistóides-racistas precisavam devolver a voz ao corpo, reduzir o protagonismo –que é agência de um sujeito– à carne sem espírito. O corpo sem voz, separado da cabeça, simbolicamente, prefigura a morte do sujeito, da agência humana, e re-instaura a resignação maquínica do indivíduo aos mecanismos de dominação.

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