Livro de coautor de ‘Elite da Tropa’ aborda violência do Rio e gênese do mensalão

Pendurado por um cinto, com meio corpo para fora de um helicóptero, um policial com um fuzil gargalha enquanto ameaça atirar na multidão reunida para protestar contra o assassinato de um menino, na Mangueira.

Noutro trecho, um assustado jovem de classe média conhece o calor e a corrupção de uma prisão carioca. E, numa terceira, o líder de uma facção criminosa diz que quer se entregar, mas sabe que morrerá na cadeia. Afinal, virou um arquivo vivo e sabe quais policiais e autoridades embolsaram dinheiro do tráfico nos últimos anos.

O antropólogo Luiz Eduardo Soares, ex-secretário nacional de segurança, em entrevista no Rio de Janeiro

O antropólogo Luiz Eduardo Soares, ex-secretário nacional de segurança, em entrevista no Rio de Janeiro

“Rio de Janeiro – Histórias de Vida e Morte”, do antropólogo Luiz Eduardo Soares, traz relatos dos bastidores do poder e da violência que compõem um cruel e sangrento contraponto à imagem de cartão-postal que celebrizou a cidade. As narrativas vão da primeira à terceira pessoa, em estilo informal. “São histórias que considero significativas sobre a vida e a morte no Rio de hoje”, disse Soares à Folha.

Nos primeiros capítulos, o ex-secretário nacional de Segurança Pública do governo Lula em 2003 fala das pressões que recebeu e trata da gênese do escândalo do mensalão.

Ele diz que o livro não é um acerto de contas. “O principal desafio da política é resistir ao utilitarismo. Revelo como ele degrada desde o pequeno personagem do folhetim provinciano até o protagonista épico da epopeia nacional.”

Coautor dos dois volumes de “Elite da Tropa”, que deram origem aos filmes “Tropa de Elite”, Soares afirma que o diretor José Padilha teria recebido pressão do ex-ministro da Casa Civil, José Dirceu, para não filmar um roteiro escrito por ele sobre os bastidores da política nacional.

Procurado pela Folha, Padilha disse acreditar que Dirceu tenha interferido na captação de recursos para o filme junto ao BNDES.

“Tínhamos vencido o edital do banco, mas nosso contrato nunca ficava pronto. Depois de um ano, uma pessoa da comissão me procurou e disse que Dirceu interferira junto à Presidência. Depois, o Dirceu nos procurou e disse que o filme não ia acontecer.” A reportagem tentou contato com o ex-ministro, por meio de sua assessoria, mas não obteve resposta até o fechamento desta edição.

No livro, Soares traça uma linha direta entre a violência usada pela repressão da ditadura (1964-85) e a empregada pela polícia hoje.

Para isso, reconstrói a trajetória da historiadora Dulce Pandolfi, torturada no período. “O legado da ditadura à democracia foi o fortalecimento de grupos policiais criminosos que se desgarraram progressivamente das instituições, sem abandoná-las, e passaram da justiça pelas próprias mãos ao crime como negócio.”

O antropólogo comenta, ainda, sua frustração com o PT, e considera que o desalento da sociedade produz três efeitos negativos: “O aumento do interesse dos jovens pela extrema esquerda, fonte de obscurantismo e violência; o crescimento de uma direita racista que clama pela volta da ditadura; e a ampliação daqueles que fazem leituras maniqueístas e repletas de ódio, ora acusando exclusivamente o PT, como se fosse a única origem de todos os males, ora denunciando a “mídia golpista” e o PSDB como a materialização do mal”.

Leia trechos da entrevista de Luiz Eduardo Soares à Folha.

Folha – Qual a história dos relatos que se referem à chegada do PT ao poder?

Luiz Eduardo Soares – Há no livro dois capítulos que estiveram próximos de virar filme. Eu os coloquei num roteiro que escrevi para José Padilha, sob o título: “Nunca Antes na História deste País”.

Trabalhei com Padilha em diferentes versões, sempre em torno do mensalão, mas optamos por não ir adiante.

José Dirceu entrou em contato com Padilha e o convenceu de que o filme poderia influenciar o julgamento. Prometeu dar uma entrevista quando tudo tivesse passado.

Não sei se ainda está de pé ou se faz sentido, depois que o escândalo da Petrobras transformou o mensalão num detalhe. Mas os detalhes interessam. É neles em que mora a ruína do PT.

O livro é um acerto de contas com personagens que crê que o prejudicaram?

Não. Vendo algumas pessoas de passado respeitável presas, sinto uma tristeza grande, mesmo que tenham agido como meus inimigos e que a prisão cumpra um papel positivo na democratização do país.

Escrevi porque o principal desafio da política é resistir ao utilitarismo e à máxima segundo a qual os fins justificam os meios. Detesto a visão que prega a primazia da pátria, do partido, da redenção social.

Em primeiro lugar estão os indivíduos. Nada justifica atropelar a dignidade individual, não importa quão virtuosa seja a causa.

Meus relatos sobre a gênese do mensalão descrevem o modo pelo qual o indivíduo é reduzido a descartável.

Sua indignação contrasta com a resignação do chefe do tráfico que não se entrega porque está certo de que vai morrer.

Sempre me sentia indignado quando via alguém querendo abandonar o crime e sendo impedido por instituições cuja função deveria ser tirar pessoas do crime.

Se um integrante do crime organizado quer mudar de vida, o passo natural deveria ser ajustar as contas com a Justiça e recomeçar como qualquer cidadão.

Se essa pessoa sabe demais sobre corrupção policial, converte-se em uma bomba ambulante. Caso se entregue, arrisca-se a ser assassinado como queima de arquivo.

Que mãe tentará convencer seu filho criminoso a se entregar? Entregar-se a quem? Com quais garantias?

Para quem vive na favela, é negro, pobre e se envolve com a criminalidade, as saídas estão bloqueadas e a sobrevivência vira hipótese remota. O abjeto naturalizou-se.

Custou caro ao Brasil construir um Estado de Direito sobre os escombros da ditadura. Não pode ter sido em vão. Ver a Constituição sendo rasgada todos os dias por instituições do Estado me revolta.

Qual a importância do relato sobre a tortura da historiadora Dulce Pandolfi?

Já se passaram mais de 40 anos, mas a ação devastadora da ditadura marcou a experiência de gerações e virou parte da paisagem mental que molda o Rio hoje, na contramão do clichê hedonista.

Seria possível, de outro modo, compreender a naturalização das execuções extrajudiciais de jovens negros e pobres nas favelas?

Como vê o cenário do Rio às vésperas das Olimpíadas?

Apesar de contarmos com os melhores quadros da PM na cúpula da instituição, os esforços de reorientação legalista têm sido vãos. A PM é ingovernável, apesar de haver ali milhares de profissionais honrados.

A crise atual tende a estimular crimes contra o patrimônio, a guerra às drogas criminaliza a pobreza e as UPPs são devoradas pela velha cultura militar belicista. Além disso, os direitos dos policiais têm sido violados dentro da própria instituição.

O quadro é desolador. Por outro lado, o Rio sempre se saiu bem nos grandes eventos, porque nesses momentos o trabalho cooperativo torna-se a regra. O problema não são os grandes eventos, é o cotidiano.

Qual a saída para desarmar vínculos ilegais entre governos locais, empresas e cartéis?

É a valorização do Estado e o reconhecimento de que a luta contra o racismo e as desigualdades é civilizadora.

É a legalização das drogas e o investimento em educação. É a admissão de que o Estado não pode agir como criminoso, na política ou na polícia.

RIO DE JANEIRO – HISTÓRIAS DE VIDA E MORTE
AUTOR Luiz Eduardo Soares
EDITORA Companhia das Letras
QUANTO R$ 31,90 (256 págs)

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