O sentido de uma história depende do ponto a partir do qual começamos a contá-la

Este é o primeiro capítulo do livro Justiça, pensando alto sobre violência, crime e castigo, de Luiz Eduardo Soares, publicado pela editora Nova Fronteira, em 2011.

I. O sentido de uma história depende do ponto a partir do qual começamos a contá-la

Cheguei a Recife atrasado para a palestra na universidade. Não estava muito a fim de papo. Não que eu seja um sujeito antipático. Acho que não sou. Costumo gostar de conhecer pessoas e conversar. Além disso, táxis são ótimos veículos para conhecer a cidade e seu espírito, e as opiniões médias da população sobre política, sexo, crime e futebol. O método não é lá muito científico, mas funciona. A gente fica com uma visão geral do que a sociedade tem discutido. Entretanto, naquele dia não queria prolongar muito o diálogo. Estava preocupado com a hora e com as expectativas de meus colegas. Eles tinham sido muito gentis quando me convidaram, e eu não queria decepcioná-los.

Não tinha jeito. Enquanto eu tentava repassar a palestra de memória – primeiro: definir violência; segundo: apresentar os dados nacionais e internacionais; terceiro: discutir as causas; quarto: apresentar possíveis soluções –, o taxista insistia em puxar assunto. Contava uma história depois da outra e nem esperava para ouvir minha opinião. Emendava logo a próxima. Parecia a Rádio Relógio. Eu tentava escapar, misturando a rememoração dos temas que planejara abordar com as paisagens belíssimas de Recife e Olinda.

O taxista era uma fonte inesgotável.

Até que, finalmente, pescou minha atenção. Parei de contemplar céu, mar, prédios e bairros históricos, e me concentrei no que ele dizia. E dizia com ênfase, com uma força verdadeiramente dramática, em um tom que oscilava entre a fúria da indignação e a delicadeza das emoções sutis. Fui envolvido pelos sentimentos de meu interlocutor. A história me interessou, como interessaria a qualquer ser humano. E talvez esteja aí uma das chaves do fascínio que a violência exerce sobre todo mundo, por atração ou repulsa. Ela faz, em nós, uma ligação direta com nossas emoções mais profundas e primitivas: terror, amor, ódio, prazer, dor, as seduções do poder, o desamparo da impotência, a proteção paterna, o cuidado materno, a solidão e o abandono, a devastação de nossa identidade e da auto-estima, a incomunicabilidade, a indiferença, o desprezo, a solidariedade, o egoísmo mais extremo e o altruísmo heróico, a generosidade e a compaixão, a afirmação que é vida e a negação radical, que é morte.

Ele contou o seguinte: um adolescente fez sinal; o ônibus parou. O garoto entrou. A porta se fechou atrás dele. Havia poucos passageiros: um em pé, sete ou oito sentados. O jovem sentou-se.

O motorista do ônibus era amigo do taxista, amigo mesmo, quase irmão; parceiro da vida inteira. Cresceram juntos. Começaram, juntos, a trabalhar. Casaram-se na mesma época. As esposas tiveram o primeiro filho mais ou menos no mesmo período. Eram quase uma família só.

Subitamente, pondo-se de pé, o adolescente anunciou o assalto. Daí em diante, as informações não são claras. O que se sabe é que o rapaz atirou no motorista e fugiu com o dinheiro que roubou dos passageiros. O tiro atingiu um órgão vital. O amigo do taxista não resistiu. Já chegou ao hospital sem vida. “Uma estupidez; uma estupidez”, gritava meu interlocutor. “O senhor sabe o que vai acontecer com esse bandido, esse assassino, esse monstro?”, indagou.

Eu mal conseguia pensar no que dizer. Não foi preciso. Ele mesmo respondeu: “Nada. Não vai acontecer nada, porque nosso país é a terra da impunidade. Esse pessoal dos direitos humanos vai proteger o garoto. O delinquente não vai para a prisão porque é menor de idade. Daqui a dois, três anos, o homicida está por aí, livre, matando outros pais de família. Ele deveria ser linchado. Pena não haver pena de morte no Brasil. Queria ver esse cara torrando na cadeira elétrica”.

Sabia que era meu dever responder, ponderar, repelir a acusação que ele fazia a mim e a meus colegas, militantes dos direitos humanos, mas o homem estava tão emocionado – e cheio de razão em cobrar alguma reação do Estado –, que hesitei e, por um tempo, me calei. Tive medo de ofendê-lo. Todo sofrimento merece respeito. Naquele momento, não era o homem que falava; era seu coração, a sua dor. O motorista do ônibus fazia jus ao luto, ali representado por meu silêncio reverente. Há situações em que convidar o outro a raciocinar sobre um ponto de vista diferente já é, em si mesmo, um ato de hostilidade, de incompreensão do drama que a pessoa está vivendo. Há circunstâncias em que argumentar é impróprio e até agressivo, independente do conteúdo da argumentação. Intuindo tudo isso, preferi ficar calado. O momento não era propício a uma disputa para saber quem tem razão. Só me restava dar um abraço e oferecer o ombro ao taxista. Chorar não é feio. Não é vergonha nenhuma abraçar outro homem. Mesmo um desconhecido. Tudo bem. Sei disso. Ele também devia saber. Mesmo assim, apesar do impulso, não tive coragem. Ia ficar meio estranho abraçar o motorista, enquanto ele dirigia. Uma cena triste, que corria o risco de ficar engraçada. Melhor atenuar a manifestação de solidariedade. Talvez ficando imóvel e mudo. Certo ou errado, foi o que acabei fazendo.

“E agora?, perguntava o taxista. E agora? O que será da viúva? O que vai acontecer com os cinco filhos? Que futuro os espera? Ela sempre trabalhou em casa. Nunca se profissionalizou. Cuidava da casa e já era demais: pouco dinheiro, a garotada para alimentar, problemas para administrar, a educação dos meninos e das meninas… E agora?”

“Provavelmente – ele prosseguiu –, os mais velhos vão ter de abandonar os estudos e trabalhar. Como são muito novos, o jeito vai ser vender bala nas esquinas. Longe de casa e da escola, e perto de gente que mora nas ruas, entre drogas e esmolas, os meninos vão acabar se perdendo. Aquele monstro não só tirou a vida de um pai de família, como matou o futuro dos filhos.”

Fiquei ali, em silêncio, olhando sem ver as belas paisagens de Recife que passavam pela janela. Imaginei o sofrimento dos filhos e da esposa do motorista de ônibus assassinado. Até que me dei conta de que as duas pontas da história se encontravam: o início e o fim. Tomei coragem e disse ao taxista: “Veja o senhor como são as coisas: esses meninos que ficaram órfãos são vítimas, assim como o pai”. Fiz um longo silêncio. O motorista quebrou o silêncio, complementando: “São pobres vítimas indefesas. E sinto muita tristeza por eles.” Tomei fôlego e continuei: “Imagine o senhor: esses pobres meninos, pré-adolescentes, crianças, ainda, daqui a pouco podem estar na rua, sentindo-se abandonadas, com a auto-estima esmagada. Porque, como o senhor disse, por mais que a mãe se esforce, vai ser muito difícil que ela consiga sustentar toda a família, mantendo todos os meninos na escola, trabalhando fora e, ao mesmo tempo, educando as crianças e dando a todas elas o amor de que precisam, agora mais do que nunca”.

“Justamente”, concordou o taxista.

“Pois é – prossegui ­–, esses meninos correm o risco de ir para a rua, envolver-se com drogas, crimes, armas…”

O taxista me interrompeu: “Tudo de ruim, coitados.”

“Um dia – retomei meu raciocínio –, um dia, um deles, desesperado atrás de dinheiro – talvez para comprar crack –, entra num ônibus, rende passageiros e, sem pensar, atira no motorista e foge.”

Olhei para o taxista. Ele devolveu o olhar, de relance. Percebi que estava começando a entender aonde eu queria chegar.

Concluí: “O senhor acha que, nesse caso, se isso viesse a acontecer, o órfão de seu amigo mereceria ser chamado de monstro? O senhor participaria do linchamento dele? O senhor, se fosse juiz e se nosso país tivesse pena de morte, o condenaria à morte?”

O taxista dirigia, olhando fixo para a frente. Não disse mais nada.

Quando parou, dentro do campus da universidade, na frente do prédio em que eu daria a palestra, olhou para mim e respondeu: “Não”.

Paguei a corrida. Recebi o troco. Desejei boa tarde. Agradeci. Quando eu saía do carro, o taxista disse, numa voz mais baixa do que seu tom habitual: “Nunca tinha pensado por esse lado”. Não perdi a oportunidade e completei meu argumento: “Uma história muda de sentido, dependendo do ponto a partir do qual se comece a contá-la. Talvez, entendêssemos de uma forma um pouco diferente o significado do assassinato do motorista do ônibus, se a história de quem o matou tivesse sido contada desde o início. Não se trata de passar a mão na cabeça de quem comete uma atrocidade inominável como essa. Não se trata de subestimar a brutalidade desse ato injustificável. Trata-se de compreender como foi possível que um ser humano tenha se desumanizado a ponto de matar outro ser humano daquele jeito. Se queremos que isso não se repita, teremos de agir para mudar essa realidade capaz de desumanizar uma pessoa. Não adianta, nem é justo, agir por vingança. Isso só acrescenta à história violenta mais um capítulo violento. Ou seja, isso só gera mais violência, quando o que eu e o senhor desejamos não é a vingança, é que violências assim não se repitam”.

Ele balançou a cabeça: “Tem razão”.

Cheguei em cima da hora. Mal tive tempo de cumprimentar os colegas. Subi ao palco, saudei a audiência e anunciei o tema da palestra: “Vim lhes falar sobre violência. Mas pretendo fazê-lo, explicando por que o sentido de uma história depende do ponto a partir do qual começamos a relatá-la”.

 

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