Post no Facebook, 25 de abril, 2020

Teses de abril (desculpe a brincadeira, Vlad): (

1) O famigerado mercado só se preocupa com o affair Moro na medida em que causa instabilidade. Aquela turma não quer saber se há ou não intervenção auto-interessada na PF, se o presidente é miliciano, aliado de assassinos e cúmplice de genocídios. As elites sempre souberam quem é Bolsonaro. O capital nunca teve escrúpulos.

(2) Para quem tripula o capital, o foco da preocupação são Braga Neto e Rogério Marinho, que estão acenando para a revalorização do Estado na economia, deslocando Guedes e a agenda neoliberal. O ministro ultra-neoliberal era o único mascarado, sem paletó, de meias, tão deslocado na foto quanto ausente na apresentação do novo PAC, dias antes.

(3) Por isso, as elites só aceitarão o afastamento de Bolsonaro sob duas condições: (a) que a instabilidade se intensifique; (b) que Mourão beije a mão do mercado, prometendo afastar a dupla estatista e reentronizar Guedes (ou um placebo do mesmo veneno).

(4) Um fator que pode acelerar o endosso das elites ao impeachment seria o avanço da dupla Braga-Marinho sobre o terreno de Guedes.

(5) Por outro lado, se Braga Neto perde protagonismo, acalmando o mercado e preservando a aliança de Bolsonaro com as elites, a instabilidade política pode se aprofundar, neutralizando o efeito apaziguador referido.

(6) Não devemos confundir Globo & Folha com o conjunto das elites, nem panelaços com corrosão irreversível e necessariamente grave do apoio a Bolsonaro.

(7) A direita está dividida, mas seus estrategistas têm tido o cuidado de isolar as esquerdas para evitar que as oposições capitalizem o fracasso de Bolsonaro. Por isso, muita gente tem a impressão falsa de que as esquerdas estão mudas e inertes. Suas vozes é que estão sendo sistematicamente bloqueadas. Até para criticar a impropriedade de reafirmar a radicalidade neoliberal em tempos de crise global, o Jornal Nacional, com raríssimas exceções, dá espaço aos mesmos arautos do liberalismo, recentemente convertidos ao neokeynesianismo.

(8) A direita salva-se da derrocada bolsonarista quando encontra uma liderança em seu campo que pode afastar-se de Bolsonaro sem aproximar-se das esquerdas: Moro.

(9) Todos sabemos quem é Moro, sabemos quem é Bolsonaro, sabemos que o primeiro sabe quem é o segundo, e sempre soube, não descobriu agora. Sabemos que Bolsonaro sabe quem é Moro. Sabemos a que serviu a Lava-Jato. A história do Brasil vai contar, no futuro, o que significou essa cumplicidade criminosa.

(10) As esquerdas terão de desmistificar Moro para que haja avanço democrático no Brasil e para que a Justiça recupere um mínimo de credibilidade. Entretanto, (obrigado pela dica preciosa, Miriam Krenzinger) se tentarem fazer isso agora, meterão os pés pelas mãos, dispersarão energia e perderão a oportunidade histórica de intensificar a pressão até esmagar o fascismo bolsonarista. Não se trata de abandonar a crítica a Moro, mas de entender que o momento exige foco, objetividade e precisão. O momento é de mostrar que o rei está nu. O mito a desmascarar é Bolsonaro. A luta política não se encerra, hoje, nem na remoção de Bolsonaro do poder. A luta continuará. Quem quiser travar a luta em todas as frentas ao mesmo tempo estará condenado à derrota.

(11) Contudo, nada está resolvido. A dinâmica política não é linear, depende de circunstâncias, muitas imprevisíveis, e das ações dos atores: virtú e fortuna. Não subestimemos Bolsonaro, nem a estupidez e a brutalidade de seus seguidores.

(12) Bolsonaro ajustará contas com seu destino político quando a pandemia produzir a tragédia em massa e a letargia criminosa de seu governo condenar a população mais vulnerável ao desespero. Infelizmente, esse futuro já foi contratado e está a caminho.

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