Regina Duarte

Facebook, 8 de maio, 2020 (segundo post do dia)

LES

Nem sempre o jogo é saudável e serve a causas nobres (que jogo? Explico no segundo parágrafo). Foi o que pensei quando assisti ao espetáculo de Regina Duarte, ontem, pasmo como qualquer pessoa não entorpecida pelo fanatismo. Ela desfilava nas ruas brasileiras de alto a baixo, leve, saltitando sobre os corpos, evitando os moribundos, entoando a marchinha ufanista dos anos de chumbo, mãos dadas a si mesma em versão bailarina, melancolicamente adolescente, pateticamente juvenil, convidando aos uivos a vizinhança para celebrar a amnésia, convocando o que há de macabro e cruel na alma humana para a festa noturna de thanatos, evocando os deuses da morte e da guerra para o festim de sangue e ruína, desdenhando torturas e assassinatos, leve, sempre leve, na pontinha dos pés, tocando flauta e ateando fogo nas matas que restam, fazendo arder as cidades e a decência, soprando as chamas do inferno sobre a história do país, incinerando o que ainda pudesse ter sobrado de dignidade no Brasil.
Agora, explico a primeira frase. Corria o ano de 1976, eu morava num quarto e sala, numa rua estreita e árida do Humaitá, dava aulas numa faculdade privada em Jacarepaguá e fazia mestrado no Museu Nacional, em São Cristóvão. Saía cedo, voltava tarde, estudava feito um louco, trabalhava feito um condenado, mas um dia fiquei em casa, talvez porque fosse feriado, e acompanhei um acontecimento que comoveu toda a vizinhança. Morreu um jovem que morava no prédio ao lado. Acidente de moto. A irmã adolescente não suportou a dor. Era grande demais pra ela. Fugiu pra rua, enquanto a família cuidava de outras providências, e passou algumas horas pra lá e pra cá, convidando, aos gritos, para uma festa à noite, em sua casa. Ela ria, cantava, dançava e bradava seu convite alucinado aos que testemunhavam das janelas aquele desfile funerário sublimado e invertido. Eu aprendi que a negação tanto pode emudecer, quanto ritualizar o sacrifício do real no teatro da mais exaltada agonia. Quando a noite caía, depois de incontáveis tentativas vãs de fazê-la entender e aceitar, o pai gritou com todas as suas forças, estremecendo os corações de todos nós: seu irmão está morto. Ela calou-se e conseguiu chorar. Percebi que, ao longo das horas, a família se empenhara tanto em persuadi-la e confortá-la, que acabara se beneficiando nesse movimento, tranquilizando-se e se convencendo da realidade incontornável do que a adolescente recusava. A família foi poupada, em parte, do sofrimento que a menina concentrou em si na performance delirante. Ela enlouqueceu para manter a sanidade da família. Pelo viés de sua negação, os outros puderam enxergar. Ela ofereceu aos demais a imagem da tragédia límpida e clara, representando seu avesso. Uma dinâmica psico-social estava em jogo. Cada um cumprindo seu papel para formar um sistema mais equilibrado. O grito do pai restaurou a ordem do real recusada, quando seu impacto já podia ser absorvido pela família em condições menos traumáticas, graças à coragem da filha de por em cena seu desespero.
Regina Duarte fez o contrário. Negou a morte, a pandemia, a ditadura, para diluir os critérios mais elementares que nos servem para separar bem e mal, vida e morte, justiça e despotismo, verdade e mentira, a cultura e sua derrocada -derrocada politicamente conduzida pela Dama da sordidez, namoradinha da boçalidade nacional, sob as ordens do capitão pandemia, o garimpeiro genocida do Planalto.

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