Salve Geral e 9mm: a corrosão do vocabulário punitivo

Luiz Eduardo Soares

Em Salve Geral, Lúcia ajeita os cabelos diante do espelho, enquanto espera ser atendida pela proprietária do salão de beleza: Ruiva, advogada criminal que se dispôs a ajudar seu filho. Atrás do espelho falso, Ruiva a observa. Lúcia vê o próprio rosto refletido, mas, sem o saber, dirige o olhar para a advogada cafajeste, cúmplice dos criminosos. Ruiva é a antípoda de Lúcia, recatada mãe de família de baixa classe média, professora de piano, viúva, devotada ao filho, cujo destino fortuito levou à prisão –quase inadvertidamente, como “o estrangeiro” de Camus. Lúcia e Ruiva, a mãe apolínea e a mãe dionisíaca, miram-se na imagem invertida de si mesmas. Estão condenadas a tornarem-se a outra. A protetora, que encarna o modelo da mãe idealizada, sacrifica-se, vendendo o piano, instrumento de sua realização pessoal –profissional e narcísica. Sacrifica-se de novo pelo filho, aproximando-se do PCC e aceitando mergulhar no abismo vertiginoso do lado escuro da lua. Acaba participando do círculo de reciprocidade entre presos e seus comparsas libertos, intermediando relações perigosas. Finalmente, para redimir o filho e libertá-lo (Édipo às avessas), adota nova linguagem corporal, outro figurino, nova máscara, e se entrega apaixonadamente ao Outro, ao homem que reúne em si todos os signos da alteridade: um dos líderes presos da facção criminosa. A travessia conduz Lúcia à posição de Ruiva. Fragilizada, vulnerável, Lúcia termina, mesmo que por circunstâncias involuntárias, identificando-se, na prática, com o lugar de quem é forte, arma-se e perpetra a violência. A maldição do espelho cumpre-se. A cena que sintetiza Salve Geral antecipa seu desfecho e carrega sua trama densa. Imagens se superpõem na trajetória dramatúrgica. Trocam-se posições. A vulnerabilidade desloca-se para o personagem da mulher ferina, antes poderosa. A metamorfose de Lúcia liberta o filho, mas, em certo sentido, também a liberta da camisa de força do arquétipo (sócio-cultural e psicológico) da mãe pura e piedosa, que sacrifica o próprio desejo para prover o alimento vital ao filho. Essa liberdade, mesmo precária –como fuga tensa–, depende de visitas ao inferno. Lúcia liberta-se de si e renuncia ao paraíso artificial de uma vida de tempos mortos e pianíssimos, adere ao próprio desejo e, então, devolve ao filho a liberdade –ainda que desidealizada, maculada com sangue. O filme de Sérgio Rezende submete a violência ao jogo de espelhos e substitui as posturas maniqueístas e simplificadoras por uma inquietante ambiguidade, muito mais atordoante (porque muito mais verdadeira) do que as fábulas do senso comum. De que lado estão, afinal, os mocinhos? O filme derrota esse vocabulário empobrecedor e essa interpretação unilateral. A janela que se abre sobre os fenômenos da violência é especular. Quem olhar bem para si encontrará o outro indesejável. O ódio ao mal corresponde à vontade culpada de exorcizá-lo de si mesmo. Duvidemos do discurso punitivo e vingativo.

Um quadro análogo nos oferece 9mm, a extraordinária série produzida por Roberto D’Ávila e escrita sob a coordenação de Newton Cannito, a partir do argumento de Carlos Amorim, sobretudo no episódio 13 da segunda temporada –também dedicado ao dia em que São Paulo parou–, dirigido por XXXXX.  Ali também estão contemplados os vínculos familiares: a relação angustiada da inspetora Luisa com a filha que passa tempo com o pai, na Europa (maternidade incompleta, portanto); a paternidade incompleta do inspetor Horácio, cujo símbolo ostensivo é a fome de amor e reconhecimento manifestada incansavelmente por seu enteado, Gilson; a tardia descoberta do pai por parte do delegado Eduardo (outra experiência de paternidade incompleta); a orfandade do detetive 3P, criado pela tia, cujo primo é irmão incompleto e incompleto inimigo: metade parceiro, metade seu avesso. A solidão do detetive Tavares, que vive a incompletude: mora com a irmã, nega sua origem para fazer-se policial, e é traído por seu grupo social de referência, sob o comando do bandido Abacate.

No brilhante último episódio da segunda temporada, em diálogo cruzado com temas que aludem à crise do PCC, em 2006, e à segunda parte do livro Elite da Tropa, a cidade beija a lona quando policiais, liderados pelo primo de 3P, policial corrupto, cúmplice de traficantes, sequestram a irmã do líder da facção criminosa para provocar uma guerra e executar lideranças do crime. Mas a correlação de forças pende para o outro lado, o processo sai de controle, e as autoridades policiais rendem-se à necessidade da negociação. Inclusive o promotor Caio, paradoxal arauto de posições duras, seduzido pelo sucesso demagógico e pela ambivalência adúltera da esposa –que tacitamente abençoa–, incita o confronto mas capitula ante suas consequências.

A costurar a trama uma criança em andrajos, ferida, terrível mediadora entre domínios da cidade. Ela dissemina o medo, transitando entre os domínios da fantasia paranóica, da antevisão do futuro e da condenação do passado. Pequeno deus-de-primeiro-testamento, esse personagem magnífico faz o papel do coro grego: vocaliza a cidade dos invisíveis, dos rejeitados, sujos e marginais.

Para conter a violência foi necessário render-se a ela. Para liderar essa peculiar vitória, foi preciso contar com um time de personagens marcados pela incompletude –assim como a criança é os er incompleto por excelência. Só assim seria possível frequentar o mundo das margens. As fronteiras terminam suprimidas, as culpas distribuídas com equidade, o claro escuro maniqueísta substituído pela polifonia de responsabilidades. Em suma, leitor: você quer conhecer a violência? Comece olhando no espelho. Do lado de lá estará quem você não conhece, embora íntimo. Eis o recado de ambas as obras.

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