Publicado 09/03/2026, no site OUTRAS PALAVRAS
Antropólogo analisa como uma tríade – clientelismo armado, milícias e captura institucional – forjou o ultradireita, contando com o “realismo político” de parte da esquerda. Diálogo e pluralidade, diz, são antídotos ao vírus impotência coletiva
Luiz Eduardo Soares em entrevista a Thiago Gama
No ano de 2026, a restauração trumpista reconfigura mapas e desarticula a própria gramática da diplomacia liberal — e o Rio de Janeiro, neste cenário, não como um enclave de exceção, mas como um dos laboratórios biopolíticos mais avançados da necropolítica do descarte no Sul Global. O que se testemunha é uma inversão topográfica definitiva: a falência da promessa civilizatória da capital diante de uma Baixada Fluminense que, longe de ser um resíduo do passado, colonizou o centro do poder com sua lógica de mandonismo armado e clientelismo despótico. Esta metástase institucional revela que a transição democrática brasileira foi um simulacro geográfico; o “gangsterismo mafioso” das periferias não apenas infiltrou o Estado, mas converteu-se na sua própria infraestrutura logística.
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Entrevista publicada no site do Instituto Humanitas Unisinos, 04 Março 2026
Neste proscênio de 2026, onde a restauração trumpista não apenas reconfigura mapas, mas desarticula a própria gramática da diplomacia liberal, o Rio de Janeiro emerge não como um enclave de exceção, mas como o laboratório biopolítico mais avançado do Sul Global
O que se testemunha é uma inversão topográfica definitiva: a falência da promessa civilizatória da capital diante de uma Baixada Fluminense que, longe de ser um resíduo do passado, colonizou o centro do poder com sua lógica de mandonismo armado e clientelismo despótico. Esta metástase institucional revela que a transição democrática brasileira foi um simulacro geográfico; o “gangsterismo mafioso” das periferias não apenas infiltrou o Estado, mas converteu-se na sua própria infraestrutura logística.
A prisão de Rivaldo Barbosa e o desfecho do caso Marielle Franco não são, portanto, anomalias de um sistema que falhou, mas a evidência de um sistema que opera em sua plenitude técnica.
Estamos diante de uma “arquitetura da impunidade” onde a eliminação política foi assimilada como um procedimento administrativo ordinário, operado de dentro dos gabinetes que, por um cinismo ontológico, deveriam salvaguardar a justiça. Aqui, o Estado deixa de ser o mediador do conflito para se tornar o Demiurgo do crime, um arquiteto que desenha o próprio labirinto onde a memória social é conduzida ao abate. É o que poderíamos chamar, em uma visada mais radical, de uma “estetização da barbárie”, onde a força bruta prescinde de máscaras jurídicas para se afirmar como a única natureza real.
Essa soberania territorial encontra seu espelhamento e sua ampliação na expropriação do sensível operada pelo “capital de nuvem”. A Governança Algorítmica não se contenta em capturar dados; ela opera uma predação do Pneuma, devastando a capacidade metonímica do sujeito e substituindo o pensamento arquitetônico pela descarga espasmódica de adrenalina do scrolling infinito.
É a aniquilação da faculdade de fabular mundos: quando a linguagem é devorada por algoritmos que expelem uma sucessão esvaziada de laços lógicos, a política coletiva reduz-se a um simulacro processado em silos digitais. O indivíduo, capturado por uma epistemologia orgânica que altera sua própria bioquímica hormonal, torna-se incapaz de articular uma dissidência que não seja, ela mesma, uma peça na engrenagem da acumulação algorítmica.
Nesse cenário, a geopolítica do medo se reorganiza para enfrentar o que resta de resistência no Sul Global. O elixir da barbárie — que encontra em Gaza e no Trumpismo de 2026 suas versões mais sanguinárias — sinaliza o fim do soft power e a entronização da força como o único imperativo categórico.
O capitalismo contemporâneo, no osso, dispensa as mediações culturais e impõe-se como uma autopoiese autofágica. Resta-nos, entre as ruínas dessa modernização conservadora e o avanço da noite feroz, a insistência em uma philia visceralmente avessa ao pugilato fratricida, buscando nas frestas da imprevisibilidade histórica a faísca de uma soberania que ainda não tenha sido codificada.
Esta entrevista não é um mero protocolo acadêmico; é o registro de uma interlocução necessária entre o rigor da História Comparada e a carne viva de uma das mentes mais brilhantes e corajosas da nossa era.
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Morreu meu amigo Raul Jungman. Viemos do mesmo campo político, ao longo do caminho nos separamos, passamos a pensar diferente, mas nunca deixamos de gostar um do outro, de nos respeitar, de passar juntos bons momentos, de sentir prazer no convívio, mesmo com as diferenças e até por conta delas, de aproveitar o conhecimento um do
outro, que sempre soubemos valorizar. Há muitos anos conheci seu filho Bruno, uma pessoa adorável, maravilhosa, encantadora, que se tornaria um fotógrafo de grande talento. Bruno morou em nossa casa, minha e de Miriam, e se tornou nosso afilhado, parte de nossa família, que, por extensão, incluiu sempre Patricia. Raul me ligava todo domingo à noite, quando era ministro da segurança. Me falava de sua perplexidade, de seu espanto. Conversávamos horas a fio. Ele nunca deixou de ser uma pessoa dos direitos humanos, nunca renegou sua origem, e sempre foi, acima de tudo, um político democrata e do diálogo. Um construtor de pontes. E sempre acreditou no país, no povo brasileiro. Quando Marielle foi assassinada, eu estava em Londres, acompanhando Miriam, que foi a trabalho. Natalia nos avisou da tragédia e eu liguei imediatamente pra ele. Estávamos todos arrasados, ele também. Viemos pro Rio e ele veio à nossa casa, encontrar-se conosco e com Marcelo Freixo. Era preciso reagir, fazer justiça. Passamos juntos muitos momentos difíceis. Eu o chamava de general, brincando, ele me chamava de marechal. Minha amizade com Raul foi sempre maior que nossas divergências, e não eram poucas. Isso explica por que me sinto assim tão triste, querendo abraçar o Bruno e toda a família.
#RaulJungmann
Publicado 12/01/2026
Para mascarar a finitude e evitar os riscos da construção de um futuro comum, Brasil pode, como Fernando, condenar-se à indiferença e solidão. Mas se o país é capaz desse filme, pode salvar-se do enredo medíocre e decadente em que se meteu
A metamorfose de Wagner Moura nas cenas finais de O Agente Secreto insinua paradoxos que oferecem pistas formidáveis para a identificação do enigma que nós somos -nós, o formigueiro
magnífico cravado nos trópicos. Nomear o enigma, acercar-se dele, não significa desvendá-lo, mas talvez nos deixe mais perto do cão sem plumas e do coração selvagem das coisas que perdemos no fogo. Perto o suficiente para impedir que continuemos a negar sua existência. Perto o bastante pra sentir o cheiro de enxofre e queimar as pontas dos dedos. O incêndio guardado na caixinha de música da vovó é a mais poderosa arma de destruição em massa -como o cinema feroz e delicado, arrebatador e rigoroso, popular e sofisticadíssimo de Kleber Mendonça. Afinal, se nosso país é capaz desse filme, é perfeitamente capaz de salvar-se do enredo medíocre e decadente em que se meteu.
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Ao Fórum Onze e Meia, antropólogo analisou a operação do governador que deixou 121 mortos e propôs alternativas a ações violentas da polícia
O Fórum Onze e Meia desta quinta-feira (6) recebeu o antropólogo e especialista em Segurança Pública Luiz Eduardo Soares para falar sobre a chacina promovida pelo governador Cláudio Castro (PL), na última semana, nos complexos da Penha e do Alemão, no Rio de Janeiro. Ao todo, 121 pessoas foram mortas no âmbito da Operação Conteção, que foi considerada a mais letal da história do país.
Soares analisou o que o massacre significou para a Segurança Público do Rio e suas consequências sociais e políticas, além de debater quais ações são realmente efetivas para combater o crime organizado.
Confira a íntegra da entrevista.
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Publicado 06/11/2025 às 20:07
Após ação brutal no Rio, direita busca explorar eleitoralmente o medo e colocá-lo no centro da agenda brasileira. Governo hesita. Mas alternativas, concretas e já testadas em diversos pontos do mundo, pode refundar a Segurança e as Polícias
O controle territorial por grupos armados no Rio de Janeiro submete a população residente nessas áreas a um domínio tirânico e a toda sorte de abusos, incluindo a cobrança de taxas por bens e serviços e interdições ao exercício de direitos básicos. Trata-se, portanto, não apenas de um sério problema de segurança pública como de uma forma de negar aos mais pobres o respeito e a condição plena de cidadania. Esse controle territorial armado é exercido por dois tipos de organizações criminosas: as fações criminais e as milícias.
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Quem perderá tempo com a cabeça de Iago? Ela resta como a peça que falta no jogo de armar, o pedaço do corpo, da lógica e da história que ficou sobrando na política do governador. Os fascistas precisam desesperadamente de uma saída política, e eles a buscam na morte e no medo
Uma cabeça pendurada na árvore. O corpo intacto. Só a cabeça, o fruto estranho. No Sul dos Estados Unidos, pendiam das árvores os negros enforcados pela KKK. No Alemão, só a cabeça de Iago, 19 anos, trabalhador. Ornamento preservado. Iago Rodrigues era trabalhador. Policiais mantiveram seu corpo intacto. Só queriam a cabeça. Troféu de guerra. Foram mais de 120, quem se lembrará de Iago? Era uma operação policial. Quem perderá tempo com a cabeça que faltava? Seu Robson viu outro rapaz levado ao beco, andando com dificuldade, apoiado no ombro do policial da Core. A caminhada seria curta. O policial deu alguns passos pra trás e fuzilou o número noventa e três, ou seria o oitenta e quatro? Quem vai se lembrar? Seu Robson cobrou a covardia. Pediram seus documentos, anotaram a placa e arrebentaram seu carro. O recado está escrito com spray na lataria. Alguém vai denunciar à polícia a polícia? Quem vai compilar os relatos do massacre, a memória do horror?
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OutrasPalavras
Crise Brasileira
Por Luiz Eduardo Soares
Publicado 03/11/2025 às 17:26
O banho de sangue nas favelas cariocas é exemplar na disputa por seu significado na luta política. Ouvir as maiorias é imperativo – mas não se deve abdicar de liderar, pedagogicamente, o repúdio radical a atos execráveis contra a vida: o massacre é inaceitável

Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil
No massacre do dia 28 de outubro, no Rio de Janeiro, foram mortas 121 pessoas -a contagem pode aumentar-, muitas delas com a extravagância de quem não se limita a matar: manifesta o desejo de comentar o assassinato, acrescentando ao crime um superlativo e uma assinatura, produzindo excesso de significação (decapitação, mutilação, esfaqueamento, desmembramento) que, paradoxalmente, anula o significado objetivo e utilitário da prática homicida, redefinindo o gesto como um movimento além do ato, destinado a comunicar outro sentido, não contido na cena “operacional”. Mais uma vez, compulsão à repetição como “política de segurança”, em escala crescente: está em jogo, novamente, o endereçamento da abjeção social -para que lado olhar, onde identificar a fonte do mal e do medo, mobilizando quais afetos? É aí que se instala, e intensifica, o racismo. Há um locus privilegiado, um território. O racismo é uma geografia, uma geopolítica urbana -viva Milton Santos! A operação policial não visava prover segurança, mas qualificar a insegurança.
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