Arquitetura da impunidade e predação do pneuma: o Rio de Janeiro como laboratório da noite feroz
Entrevista publicada no site do Instituto Humanitas Unisinos, 04 Março 2026
Neste proscênio de 2026, onde a restauração trumpista não apenas reconfigura mapas, mas desarticula a própria gramática da diplomacia liberal, o Rio de Janeiro emerge não como um enclave de exceção, mas como o laboratório biopolítico mais avançado do Sul Global
O que se testemunha é uma inversão topográfica definitiva: a falência da promessa civilizatória da capital diante de uma Baixada Fluminense que, longe de ser um resíduo do passado, colonizou o centro do poder com sua lógica de mandonismo armado e clientelismo despótico. Esta metástase institucional revela que a transição democrática brasileira foi um simulacro geográfico; o “gangsterismo mafioso” das periferias não apenas infiltrou o Estado, mas converteu-se na sua própria infraestrutura logística.
A prisão de Rivaldo Barbosa e o desfecho do caso Marielle Franco não são, portanto, anomalias de um sistema que falhou, mas a evidência de um sistema que opera em sua plenitude técnica.
Estamos diante de uma “arquitetura da impunidade” onde a eliminação política foi assimilada como um procedimento administrativo ordinário, operado de dentro dos gabinetes que, por um cinismo ontológico, deveriam salvaguardar a justiça. Aqui, o Estado deixa de ser o mediador do conflito para se tornar o Demiurgo do crime, um arquiteto que desenha o próprio labirinto onde a memória social é conduzida ao abate. É o que poderíamos chamar, em uma visada mais radical, de uma “estetização da barbárie”, onde a força bruta prescinde de máscaras jurídicas para se afirmar como a única natureza real.
Essa soberania territorial encontra seu espelhamento e sua ampliação na expropriação do sensível operada pelo “capital de nuvem”. A Governança Algorítmica não se contenta em capturar dados; ela opera uma predação do Pneuma, devastando a capacidade metonímica do sujeito e substituindo o pensamento arquitetônico pela descarga espasmódica de adrenalina do scrolling infinito.
É a aniquilação da faculdade de fabular mundos: quando a linguagem é devorada por algoritmos que expelem uma sucessão esvaziada de laços lógicos, a política coletiva reduz-se a um simulacro processado em silos digitais. O indivíduo, capturado por uma epistemologia orgânica que altera sua própria bioquímica hormonal, torna-se incapaz de articular uma dissidência que não seja, ela mesma, uma peça na engrenagem da acumulação algorítmica.
Nesse cenário, a geopolítica do medo se reorganiza para enfrentar o que resta de resistência no Sul Global. O elixir da barbárie — que encontra em Gaza e no Trumpismo de 2026 suas versões mais sanguinárias — sinaliza o fim do soft power e a entronização da força como o único imperativo categórico.
O capitalismo contemporâneo, no osso, dispensa as mediações culturais e impõe-se como uma autopoiese autofágica. Resta-nos, entre as ruínas dessa modernização conservadora e o avanço da noite feroz, a insistência em uma philia visceralmente avessa ao pugilato fratricida, buscando nas frestas da imprevisibilidade histórica a faísca de uma soberania que ainda não tenha sido codificada.
Esta entrevista não é um mero protocolo acadêmico; é o registro de uma interlocução necessária entre o rigor da História Comparada e a carne viva de uma das mentes mais brilhantes e corajosas da nossa era.
Leia Mais...»Playlist de todas as entrevistas do especial – Insegurança Pública – feita para o canal My News

Clique no Link para acessar lista completa das entrevistas
“O Rio está farto de GLOs, ocupações e intervenções militares”, diz ex-secretário de Segurança Nacional
Entrevista para o portal Geledés, 03/11/23
Segundo Luiz Eduardo Soares, a cada nova intervenção militar, estreitam-se a capacidade e a credibilidade do Estado de direito, e se expandem ocupações de territórios por grupos criminosos, tiranizando as populações locais.
Luiz Eduardo Soares, ex-Secretário Nacional de Segurança Pública na primeira gestão do governo Lula, é um dos mais respeitados profissionais e estudiosos da área. Antropólogo, cientista político e escritor, ele se debruça nesta entrevista a Geledés a fazer extensa análise sobre os motivos da recente onda de violência que assolou o País e as recém anunciadas medidas pelo Ministério da Justiça para combatê-la.
Leia Mais...»Podcast Primeiro Café Entrevista com professor Luiz Eduardo Soares
TERÇA, 14/06/2022: No episódio de hoje, recebemos o antropólogo, cientista político e escritor Luiz Eduardo Soares. Considerado um dos mais importantes especialistas em segurança pública do Brasil, o professor conversa com Lucas Rohan e Paula Bianchi sobre como o tema será debatido na campanha eleitoral deste ano, os retrocessos do governo Bolsonaro e as expectativas para o futuro.
Entrevista de Luiz Eduardo Soares a Cristian Klein, do Valor
Um enclave antidemocrático
Antropólogo Luiz Eduardo Soares diz que governadores não controlam
polícias em seus Estados. Por Helena Ce l e st i n o , para o Valor, de São Paulo
A resposta que o Supremo Tribunal
Federal (STF) der à operação policial
na favela do Jacarezinho, no
Rio, com um rastro de 28 mortes,
pode acabar com o enclave antidemocrático
das forças de segurança no Brasil, uma herança
da ditadura que sobrevive até hoje. Esta
é a opinião e a esperança do antropólogo
Luiz Eduardo Soares, um dos mais respeitados
especialistas em segurança pública, autor
ou coautor de 20 livros e com passagens
por cargos como a Secretaria de Segurança
Pública no governo Lula e a coordenação da
Justiça, Segurança e Cidadania no Rio.
“Foi um desafio frontal ao Supremo”, diz,
referindo-se ao desrespeito à proibição do STF
de operações policiais nas comunidades durante
a pandemia. Entre junho e outubro de
2020, a ordem foi cumprida, e o número de
mortes despencou, sem que a criminalidade
aumentasse. Foi uma inversão temporária da
escalada do número de vítimas da violência
policial entre 2003 e 2020.
“Só no Rio registraram-se 18.110 mortes”,
diz ele. Nesta entrevista, ele analisa a politização
das polícias e o descontrole das forças de
segurança em todo o país. “Os governadores
não controlam as polícias nos Estados”, diz
Luiz Soares, el mayor experto brasileño en seguridad pública, analiza en profundidad la situación del país
1) Luiz Eduardo Soares, no solo eres un gran académico, antropólogo y politólogo, sino que trabajaste en el ejecutivo brasileño y diseñaste programas de gobierno. ¿Qué fue importante implementar y qué quedó por hacer en un país que tiene matanzas recurrentes en su historia?
Querido Tulio, muchas gracias por las generosas palabras, pero, lamentablemente, mi respuesta, en contra de mi intención, te frustrará. Lo que me pides es casi una autobiografía, porque he dedicado casi toda mi vida a ayudar a que estas masacres recurrentes nunca vuelvan a ocurrir. Siguen ocurriendo y cada vez con mayor frecuencia y brutalidad más letal. Entonces, antes de frustrar sus expectativas de una respuesta, fue mi lucha, no solo la mía, solo soy otro activista de derechos humanos que se suma a muchos, muchos otros, lo que se frustró.
Leia Mais...»Política Democrática Online destaca coalizão para reforma estrutural nas polícias
Com análises sobre política, economia e cultura, edição de novembro foi lançada nesta quinta-feira (12)
Cleomar Almeida, assessor de comunicação da FAP
Necessidade de coalizão para se enfrentar a questão da governança das polícias, embate entre favoráveis e contrários à volta às aulas presenciais e a união de forças progressistas e de centro que levaram à derrota da Donald Trump são os principais destaques da revista Política Democrática Online de novembro. Lançada nesta quinta-feira (12), a publicação é produzida e editada pela FAP (Fundação Astrojildo Pereira), sediada em Brasília e que disponibiliza todos os conteúdos em seu site, gratuitamente.
Clique aqui e acesse a revista Política Democrática Online de novembro!
No editorial, a publicação diz que “o país ingressou na reta final de uma campanha eleitoral atípica”. Segundo o texto, tudo indica que prevaleceu no eleitorado a tendência ao pragmatismo, à separação prudente das esferas nacional e municipal da política. “Nessa conjuntura, cabe às forças de oposição prosseguir na convergência programática, no fortalecimento de um amplo leque de alianças para o segundo turno das eleições, em torno do eixo político hoje fundamental: defesa da saúde, da vida e da democracia”, afirma, em um trecho.
Na entrevista exclusiva concedida à Política Democrática Online, o antropólogo e filósofo Luiz Eduardo Soares, defensor da desmilitarização das polícias militares, avalia que somente uma coalizão pode dar ao país as condições políticas para que se faça uma reforma estrutural nessas corporações policiais. “Só uma coalizão pode proteger os governos que se disponham a agir, e não adianta pensar nas forças armadas como uma solução mágica, porque se não o Rio já teria resolvido, por exemplo, o problema com as milícias”, diz.
Leia Mais...»Guilhotina #89 – Luiz Eduardo Soares
Bianca Pyl e Luís Brasilino entrevistam o antropólogo Luiz Eduardo Soares, que está lançando pela Boitempo o livro “Dentro da noite feroz: o fascismo no Brasil” (https://www.boitempoeditorial.com.br/diplomatiquebr). Professor visitante da UFRJ, ex-secretário nacional de segurança pública (2003), coordenador de segurança, justiça e cidadania do estado do Rio de Janeiro entre 1999 e 2000 e autor de mais de vinte livros, ele falou conosco sobre a nova obra, em que faz uma análise da conjuntura brasileira diante do avanço do projeto fascista encampado pelo governo federal. Conversamos sobre a aplicabilidade da categoria fascismo no caso brasileiro; as razões da popularidade desse discurso na atualidade; o papel da crise econômica, da Lava Jato e do ódio contra minorias; a ligação do governo com as milícias e muito mais. *Links: https://diplomatique.org.br/guilhotina-87-bruno-paes-manso/. Trilha: Arnaldo Antunes, “O real resiste”; e Caetano Veloso, “Um índio”.
Luiz Eduardo Soares, o ficcionista oculto pelo cientista político
Luiz Eduardo Soares é escritor, dramaturgo, antropólogo, cientista político e pós-doutor em Filosofia Política. É professor visitante da UFRJ, professor aposentado da UERJ e ex-professor do IUPERJ e da UNICAMP. Foi visiting scholar nas Universidades Harvard, Columbia, Virginia e Pittsburgh. Publicou 18 livros, entre os quais “Meu Casaco de General: 500 dias no front da segurança pública do Rio de Janeiro” e “Rio de Janeiro: histórias de vida e morte (ambos pela Companhia de Letras)”, ambos finalistas do Prêmio Jabuti. Escreveu o romance “O Experimento de Avelar”, publicado pela editora Relume Dumará, em 1997. Embora inspirado em fatos reais, foram escritos em registro ficcional “Elite da Tropa” (com André Batista e Rodrigo Pimentel), publicado em 2006 pela Objetiva, “Elite da Tropa II” (com os mesmos coautores e Claudio Ferraz), publicado pela Nova Fronteira, em 2010, “Espírito Santo” (com Rodney Miranda e Carlos Eduardo Ribeiro Lemos), editado pela Objetiva, em 2008, além de “Rio de Janeiro; histórias de vida e morte”, publicado em 2015 pela Cia das Letras e pela Penguin, em Londres, “Vidas Presentes”, em 2017, “Educação para Mudar o Mundo” (no prelo) e “Tudo ou Nada”, pela Nova Fronteira, em 2012, cuja versão para teatro também escreveu (permanece inédita). Escreveu as peças “Entrevista com o vândalo”, montada em 2014 sob direção de Marcus Vinicius Faustini, e “O confronto” (em parceria com Domingos de Oliveira e Marcia Zanelato), montada em 2010 sob direção de Domingos de Oliveira. Seus livros mais recentes são “Desmilitarizar; segurança pública e direitos humanos” (Boitempo, 2019), “O Brasil e seu Duplo” (Todavia, 2019) e “Dentro da noite feroz; o fascismo no Brasil”(Boitempo, 2020). Foi Secretário Nacional de Segurança Pública, Sub-Secretário de Segurança Pública e Coordenador de Segurança, Justiça e Cidadania do Estado do Rio de Janeiro, além de Secretário Municipal de Prevenção da Violência em Porto Alegre e Nova Iguaçu.
Leia Mais...»







