“Uma topologia cruel: religiosidade, hermenêutica e finitude” é o quinto texto da série Autorais Luiz Eduardo Soares, publicado originalmente em 1986, na revista Religião e Sociedade, e republicado em 1994 no livro O Rigor da indisciplina.
A partir de uma experiência pessoal de perda, Luiz Eduardo Soares analisa a hermenêutica como uma prática que atravessa a narrativa, a memória, a teoria e o comportamento inconsciente do cotidiano. Ao acompanhar os esforços humanos para atribuir sentido à ausência e à finitude, o autor questiona as fronteiras entre reflexão intelectual e experiência comum e transforma seu próprio texto em laboratório de investigação, submetendo a interpretação aos mesmos limites e paradoxos que procura compreender.
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Trazemos hoje o quarto texto da série Autorais Luiz Eduardo Soares, “Os Impasses da Teoria da Cultura e a Precariedade da Ordem Social”, publicado em 1984 na série Cadernos do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (Unicamp).
Revisitando um debate aparentemente superado, Luiz Eduardo Soares reconstrói os caminhos que aproximaram as ciências sociais da linguística e da filosofia da linguagem, trazendo à tona os pressupostos estruturalistas que orientaram grande parte da reflexão sobre a cultura no século XX. Mas é justamente nos limites desse paradigma que emerge a questão fundamental do ensaio: como é possível o ato não determinado estruturalmente? Ao recuperar o problema da indeterminação da subjetividade, o autor recoloca em cena a precariedade da ordem social, como uma característica constitutiva de sua formação.
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“As bases da desobediência legítima segundo Hobbes, Locke, Hume, Rousseau, John Stuart Mill e Burke” é o terceiro texto da série Autorais Luiz Eduardo Soares. Escrito em 1982, o ensaio foi originalmente publicado em 1989 na série Estudos, nº 69, do Iuperj, sendo mais tarde republicado nos livros Os Dois Corpos do Presidente, de 1993, e Legalidade Libertária, de 2006.
No texto, Luiz Eduardo realiza um amplo balanço da teoria política moderna a partir do problema da desobediência legítima à autoridade pública, discutindo a controvérsia, no pensamento dos autores em questão, acerca dos fundamentos da obrigação política, da legitimidade do poder, da preservação da ordem constitucional e da própria constituição do Estado moderno.
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Publicamos hoje o segundo texto da série Autorais Luiz Eduardo Soares, “Campesinato e Capitalismo”, originalmente capítulo do livro Campesinato: ideologia e política, de 1981.
O texto nos convida a rever a questão agrária a partir das contradições vividas pelo campesinato no Brasil. Numa formação social em que predomina o modo de produção capitalista, argumenta o autor, o campesinato não pode ser compreendido nem como resíduo pré-capitalista, ou não capitalista, nem como simples engrenagem funcional ao capital. Articulando teoria marxista, crítica ao estruturalismo e um estudo etnográfico de Bom Jesus, o autor revela como a relação entre capitalismo e pequena produção agrícola é muito mais complexa, ambígua e politicamente disputada do que sugerem as interpretações tradicionais.
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A BVPS apresenta sua nova série Autorais, que tem a honra de publicar uma seleção de textos de Luiz Eduardo Soares, uma das maiores referências do debate sobre a segurança pública no país.
Luiz Eduardo Soares construiu uma trajetória acadêmica singular, que não se deixa domesticar pelas fronteiras da especialização e transita com o “rigor da indisciplina” entre a universidade e o campo da gestão estatal. Uma grande curiosidade intelectual indomável aliada a um senso de justiça pública e participativa talvez seja o fio que percorre tantas contas diferentes nessa trajetória desafiante, múltipla, colorida, única – na qual o trabalho intelectual nunca se separa do compromisso ético com a realização dos direitos humanos.
Agradecemos a Luiz Eduardo Soares por nos permitir compartilhar com as leitoras e os leitores da BVPS uma amostra de seu pensamento crítico e provocador.
A seleção de textos da série reúne diferentes momentos decisivos desse percurso, de ensaios já clássicos a escritos ainda inéditos. Mudam os objetos, mas permanece a preocupação com os modos pelos quais a sociedade e seus outros produzem sentido, legitimam ordens e enfrentam a precariedade constitutiva da experiência humana.
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Publicado 16/03/2026 no Site Outras Palavras
Há três perguntas diferentes sobre as mudanças desejáveis na segurança pública: (A) O que devemos construir nessa área, a longo prazo, em paralelo à redução das desigualdades e ao enfrentamento ao racismo estrutural, para que a democracia brasileira se consolide e aprofunde? (B) O que se deve propor ao futuro governo Lula, a partir
As três questões são importantes e não podem ser confundidas. E atenção: sem resposta à primeira indagação, ficaremos sem rumo, sem projeto estratégico, sem horizonte. Sem visão estratégica, permaneceremos girando em falso, condenados a decisões reativas, a movimentos erráticos e defensivos, a iniciativas fragmentárias no varejo das conjunturas, seja quanto ao próximo governo, seja quanto à própria campanha eleitoral. Em outras palavras, sem uma boa resposta à primeira pergunta, seremos incapazes de formular as duas outras respostas.
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Publicado 09/03/2026, no site OUTRAS PALAVRAS
Antropólogo analisa como uma tríade – clientelismo armado, milícias e captura institucional – forjou o ultradireita, contando com o “realismo político” de parte da esquerda. Diálogo e pluralidade, diz, são antídotos ao vírus impotência coletiva
Luiz Eduardo Soares em entrevista a Thiago Gama
No ano de 2026, a restauração trumpista reconfigura mapas e desarticula a própria gramática da diplomacia liberal — e o Rio de Janeiro, neste cenário, não como um enclave de exceção, mas como um dos laboratórios biopolíticos mais avançados da necropolítica do descarte no Sul Global. O que se testemunha é uma inversão topográfica definitiva: a falência da promessa civilizatória da capital diante de uma Baixada Fluminense que, longe de ser um resíduo do passado, colonizou o centro do poder com sua lógica de mandonismo armado e clientelismo despótico. Esta metástase institucional revela que a transição democrática brasileira foi um simulacro geográfico; o “gangsterismo mafioso” das periferias não apenas infiltrou o Estado, mas converteu-se na sua própria infraestrutura logística.
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Entrevista publicada no site do Instituto Humanitas Unisinos, 04 Março 2026
Neste proscênio de 2026, onde a restauração trumpista não apenas reconfigura mapas, mas desarticula a própria gramática da diplomacia liberal, o Rio de Janeiro emerge não como um enclave de exceção, mas como o laboratório biopolítico mais avançado do Sul Global
O que se testemunha é uma inversão topográfica definitiva: a falência da promessa civilizatória da capital diante de uma Baixada Fluminense que, longe de ser um resíduo do passado, colonizou o centro do poder com sua lógica de mandonismo armado e clientelismo despótico. Esta metástase institucional revela que a transição democrática brasileira foi um simulacro geográfico; o “gangsterismo mafioso” das periferias não apenas infiltrou o Estado, mas converteu-se na sua própria infraestrutura logística.
A prisão de Rivaldo Barbosa e o desfecho do caso Marielle Franco não são, portanto, anomalias de um sistema que falhou, mas a evidência de um sistema que opera em sua plenitude técnica.
Estamos diante de uma “arquitetura da impunidade” onde a eliminação política foi assimilada como um procedimento administrativo ordinário, operado de dentro dos gabinetes que, por um cinismo ontológico, deveriam salvaguardar a justiça. Aqui, o Estado deixa de ser o mediador do conflito para se tornar o Demiurgo do crime, um arquiteto que desenha o próprio labirinto onde a memória social é conduzida ao abate. É o que poderíamos chamar, em uma visada mais radical, de uma “estetização da barbárie”, onde a força bruta prescinde de máscaras jurídicas para se afirmar como a única natureza real.
Essa soberania territorial encontra seu espelhamento e sua ampliação na expropriação do sensível operada pelo “capital de nuvem”. A Governança Algorítmica não se contenta em capturar dados; ela opera uma predação do Pneuma, devastando a capacidade metonímica do sujeito e substituindo o pensamento arquitetônico pela descarga espasmódica de adrenalina do scrolling infinito.
É a aniquilação da faculdade de fabular mundos: quando a linguagem é devorada por algoritmos que expelem uma sucessão esvaziada de laços lógicos, a política coletiva reduz-se a um simulacro processado em silos digitais. O indivíduo, capturado por uma epistemologia orgânica que altera sua própria bioquímica hormonal, torna-se incapaz de articular uma dissidência que não seja, ela mesma, uma peça na engrenagem da acumulação algorítmica.
Nesse cenário, a geopolítica do medo se reorganiza para enfrentar o que resta de resistência no Sul Global. O elixir da barbárie — que encontra em Gaza e no Trumpismo de 2026 suas versões mais sanguinárias — sinaliza o fim do soft power e a entronização da força como o único imperativo categórico.
O capitalismo contemporâneo, no osso, dispensa as mediações culturais e impõe-se como uma autopoiese autofágica. Resta-nos, entre as ruínas dessa modernização conservadora e o avanço da noite feroz, a insistência em uma philia visceralmente avessa ao pugilato fratricida, buscando nas frestas da imprevisibilidade histórica a faísca de uma soberania que ainda não tenha sido codificada.
Esta entrevista não é um mero protocolo acadêmico; é o registro de uma interlocução necessária entre o rigor da História Comparada e a carne viva de uma das mentes mais brilhantes e corajosas da nossa era.
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