Segurança: O Brasil que não se olha no espelho
Entrevista para o site Outras Palavras em 22/06/2026
Antropólogo Luiz Eduardo Soares analisa a falência de políticas de segurança e como as facções se integraram à economia formal. Mostra como “enclaves policiais” acossam a democracia. E aponta para caminhos refundar instituições, a partir de alternativas ao punitivismo
Luiz Eduardo Soares soube, antes de quase todo mundo, que a polícia do Rio de Janeiro não estava doente: estava funcionando exatamente como fora projetada. Em 17 de março de 2000, um governador descobriu o preço de ter contratado alguém que dizia isso em voz alta.
A cena tem a economia de um roteiro de Padilha. Soares era o Coordenador de Segurança, Justiça e Cidadania do governo Anthony Garotinho. Pronunciara, em público, duas palavras que ninguém no Palácio Guanabara queria ouvir juntas: banda podre. Falava dos policiais que cobravam pedágio do crime, que protegiam o jogo do bicho, que matavam por encomenda e dormiam tranquilos. Foi exonerado. Ameaçado de morte, ele e a família deixaram o país.
Garotinho não demitiu Soares apesar do que ele denunciava; demitiu-o por causa do que ele denunciava. A “limpeza” anunciada pelo governo — mil e oitocentos policiais afastados, dezenas de expulsos — era o teatro; a estrutura era o enredo. Bastaram oito anos para a ironia se fechar.
Em 2008, a Polícia Federal prendeu Álvaro Lins, o delegado que fora chefe da Polícia Civil dos dois governos Garotinho (Anthony e Rosinha). A acusação: chefiar uma quadrilha armada que loteava delegacias e vendia proteção à máfia dos caça-níqueis controlada pelo bicheiro Rogério Andrade.
Lins foi condenado a vinte e oito anos. E Garotinho, o homem que demitira Soares em nome da moralidade, foi condenado junto — por formação de quadrilha — e depois preso, em 2016, por compra de votos.
O que Soares enxergava já estava escrito na paisagem, para quem soubesse ler. A figura do jagunço — o braço armado do coronel, o matador a soldo do latifúndio no pós-escravidão — não era folclore do sertão. Era arquétipo vivo, núcleo gravitacional ao qual a sociedade brasileira retorna como a um destino atávico.
Antes mesmo do golpe de 1964, o Rio já conhecia os Esquadrões da Morte, a Scuderie Le Cocq, o Mão Branca: grupos de policiais mais notórios que qualquer bandido lendário, antepassados diretos das milícias.
O regime militar não inventou esse arranjo. Herdou-o, naturalizou-o e o devolveu intacto à democracia, decretando a amnésia como nova ordem da cultura. É a tese que atravessa toda a obra de Soares: o que define o capitalismo brasileiro como autoritário não é o regime de turno, mas sua natureza extraeconômica — a violência que imobiliza o trabalho, ontem pela escravidão, hoje pelo veto à terra e pela pólvora nas favelas.
Em 2003, Lula o chamou para a Secretaria Nacional de Segurança Pública. Naquele momento, Soares embalou sonhos ampliados, não era mais um ente importante da Federação; ele seria o principal formulador de política pública da União, de um país castigado pela insegurança que rouba a cidadania. Saiu deste cargo, também por pressão política.
Há um Brasil que ele leu melhor que os manuais. O Brasil onde o povo, para nomear o aparelho que o vigia, o explora e ocasionalmente o mata, não diz “o Estado” nem “a polícia”: diz Eles. Pronome vago para uma alteridade poderosa, linguagem lacunar em que se cifra a luta de classes num país de sincretismos que tudo diluem.
É a mesma intuição que faz a antropologia séria há um século: que sociedade alguma é primitiva ou atrasada, que cada cultura organiza seu próprio sentido, que o observador que despreza o nativo nada compreende. Soares nunca precisou citar esses mestres para operá-los; ele os pensa em português, com sotaque carioca, diante de favelas cercadas.
O roteiro continuou rodando depois dele, e piorou: Garotinho, condenado e preso. Sérgio Cabral, sucessor de seus aliados, hoje réu condenado em dezessete ações, com penas que somam mais de duzentos e setenta anos. Pezão, o vice que o seguiu, preso ao fim do mandato por receber mesada de propina. Witzel, eleito com o discurso da moralidade e da bala na cabeça, afastado em pouco mais de um ano sob acusação de desviar verba da saúde na pandemia.
Por último, o atual flagelo do Estado do Rio: Cláudio Castro, que herdou o palácio e, diante dos tiroteios da Avenida Brasil, encontrou a palavra mágica — terrorismo — para rebatizar de guerra o que sempre foi abandono. Todos os governadores eleitos no Rio nos últimos trinta anos foram presos ou tirados do cargo. De 2003 a 2025, as ações policiais no estado do Rio mataram 23.159 pessoas. É preciso dizer algo mais?
Leia Mais...»BVPS Edições | Autorais Luiz Eduardo Soares
A BVPS apresenta sua nova série Autorais, que tem a honra de publicar uma seleção de textos de Luiz Eduardo Soares, uma das maiores referências do debate sobre a segurança pública no país.
Luiz Eduardo Soares construiu uma trajetória acadêmica singular, que não se deixa domesticar pelas fronteiras da especialização e transita com o “rigor da indisciplina” entre a universidade e o campo da gestão estatal. Uma grande curiosidade intelectual indomável aliada a um senso de justiça pública e participativa talvez seja o fio que percorre tantas contas diferentes nessa trajetória desafiante, múltipla, colorida, única – na qual o trabalho intelectual nunca se separa do compromisso ético com a realização dos direitos humanos.
Agradecemos a Luiz Eduardo Soares por nos permitir compartilhar com as leitoras e os leitores da BVPS uma amostra de seu pensamento crítico e provocador.
A seleção de textos da série reúne diferentes momentos decisivos desse percurso, de ensaios já clássicos a escritos ainda inéditos. Mudam os objetos, mas permanece a preocupação com os modos pelos quais a sociedade e seus outros produzem sentido, legitimam ordens e enfrentam a precariedade constitutiva da experiência humana.
Leia Mais...»Segurança: Para tirar a esquerda do labirinto
Publicado 16/03/2026 no Site Outras Palavras
Há três perguntas diferentes sobre as mudanças desejáveis na segurança pública: (A) O que devemos construir nessa área, a longo prazo, em paralelo à redução das desigualdades e ao enfrentamento ao racismo estrutural, para que a democracia brasileira se consolide e aprofunde? (B) O que se deve propor ao futuro governo Lula, a partir
As três questões são importantes e não podem ser confundidas. E atenção: sem resposta à primeira indagação, ficaremos sem rumo, sem projeto estratégico, sem horizonte. Sem visão estratégica, permaneceremos girando em falso, condenados a decisões reativas, a movimentos erráticos e defensivos, a iniciativas fragmentárias no varejo das conjunturas, seja quanto ao próximo governo, seja quanto à própria campanha eleitoral. Em outras palavras, sem uma boa resposta à primeira pergunta, seremos incapazes de formular as duas outras respostas.
Leia Mais...»Luiz Eduardo Soares: “Matança de Castro no Rio teve resultado nulo para segurança pública”
Ao Fórum Onze e Meia, antropólogo analisou a operação do governador que deixou 121 mortos e propôs alternativas a ações violentas da polícia
O Fórum Onze e Meia desta quinta-feira (6) recebeu o antropólogo e especialista em Segurança Pública Luiz Eduardo Soares para falar sobre a chacina promovida pelo governador Cláudio Castro (PL), na última semana, nos complexos da Penha e do Alemão, no Rio de Janeiro. Ao todo, 121 pessoas foram mortas no âmbito da Operação Conteção, que foi considerada a mais letal da história do país.
Soares analisou o que o massacre significou para a Segurança Público do Rio e suas consequências sociais e políticas, além de debater quais ações são realmente efetivas para combater o crime organizado.
Confira a íntegra da entrevista.
Leia Mais...»Segurança Pública: O que fazer
Publicado 06/11/2025 às 20:07
Após ação brutal no Rio, direita busca explorar eleitoralmente o medo e colocá-lo no centro da agenda brasileira. Governo hesita. Mas alternativas, concretas e já testadas em diversos pontos do mundo, pode refundar a Segurança e as Polícias
O controle territorial por grupos armados no Rio de Janeiro submete a população residente nessas áreas a um domínio tirânico e a toda sorte de abusos, incluindo a cobrança de taxas por bens e serviços e interdições ao exercício de direitos básicos. Trata-se, portanto, não apenas de um sério problema de segurança pública como de uma forma de negar aos mais pobres o respeito e a condição plena de cidadania. Esse controle territorial armado é exercido por dois tipos de organizações criminosas: as fações criminais e as milícias.
Leia Mais...»A cabeça que falta
Quem perderá tempo com a cabeça de Iago? Ela resta como a peça que falta no jogo de armar, o pedaço do corpo, da lógica e da história que ficou sobrando na política do governador. Os fascistas precisam desesperadamente de uma saída política, e eles a buscam na morte e no medo
Uma cabeça pendurada na árvore. O corpo intacto. Só a cabeça, o fruto estranho. No Sul dos Estados Unidos, pendiam das árvores os negros enforcados pela KKK. No Alemão, só a cabeça de Iago, 19 anos, trabalhador. Ornamento preservado. Iago Rodrigues era trabalhador. Policiais mantiveram seu corpo intacto. Só queriam a cabeça. Troféu de guerra. Foram mais de 120, quem se lembrará de Iago? Era uma operação policial. Quem perderá tempo com a cabeça que faltava? Seu Robson viu outro rapaz levado ao beco, andando com dificuldade, apoiado no ombro do policial da Core. A caminhada seria curta. O policial deu alguns passos pra trás e fuzilou o número noventa e três, ou seria o oitenta e quatro? Quem vai se lembrar? Seu Robson cobrou a covardia. Pediram seus documentos, anotaram a placa e arrebentaram seu carro. O recado está escrito com spray na lataria. Alguém vai denunciar à polícia a polícia? Quem vai compilar os relatos do massacre, a memória do horror?
Chacina do Rio: Qual a resposta das esquerdas?
OutrasPalavras
Crise Brasileira
Por Luiz Eduardo Soares
Publicado 03/11/2025 às 17:26
O banho de sangue nas favelas cariocas é exemplar na disputa por seu significado na luta política. Ouvir as maiorias é imperativo – mas não se deve abdicar de liderar, pedagogicamente, o repúdio radical a atos execráveis contra a vida: o massacre é inaceitável

Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil
No massacre do dia 28 de outubro, no Rio de Janeiro, foram mortas 121 pessoas -a contagem pode aumentar-, muitas delas com a extravagância de quem não se limita a matar: manifesta o desejo de comentar o assassinato, acrescentando ao crime um superlativo e uma assinatura, produzindo excesso de significação (decapitação, mutilação, esfaqueamento, desmembramento) que, paradoxalmente, anula o significado objetivo e utilitário da prática homicida, redefinindo o gesto como um movimento além do ato, destinado a comunicar outro sentido, não contido na cena “operacional”. Mais uma vez, compulsão à repetição como “política de segurança”, em escala crescente: está em jogo, novamente, o endereçamento da abjeção social -para que lado olhar, onde identificar a fonte do mal e do medo, mobilizando quais afetos? É aí que se instala, e intensifica, o racismo. Há um locus privilegiado, um território. O racismo é uma geografia, uma geopolítica urbana -viva Milton Santos! A operação policial não visava prover segurança, mas qualificar a insegurança.
Leia Mais...»A volta da perversa ‘gratificação faroeste’
Publicado em dilemasreflexoes.org 27/09/2025
A sucessão de tragédias mundiais, sintetizada pelo nome Gaza, roubou de nós a força de palavras que nos permitissem manifestar repúdio, indignação e revolta, e que talvez nos ajudassem a elaborar o luto e a lidar com efeitos traumáticos. O esvaziamento da linguagem diante da dimensão indescritível e incalculável das atrocidades genocidas perpetradas contra o povo palestino coincide com a revogação das leis internacionais e com a substituição de política e diplomacia por força e arrogância imperial. A magnitude da carnificina embota as vozes da resistência e refrata as mazelas que testemunhamos em nosso país.
Genocídio negro: o STF agirá?
Para o Site – Outras Palavras – Publicado 23/03/2025
“Aboliremos a escravidão, desde que…”, diziam os oligarcas no Império. A mesma lenga-lenga cerca agora a ADPF-635, que interromperá, se aprovada, as operações policiais mortíferas nas favelas e periferias. O Supremo se atreverá a acolhê-la?
Nesse domingo, 23 de março, na Folha de SP e no Globo, ótimo artigo de Elio Gaspari compara as resistências ao projeto de lei do governo federal que busca tornar menos injusto o Imposto de Renda às evasivas dos anti-abolicionistas, no século XIX, que se diziam de acordo com o fim da escravidão, “desde que”… Havia sempre um “desde que”, exigindo reparações aos proprietários penalizados com a perda de seus ganhos e alertando para riscos de desorganização da economia, instabilidade jurídica e desordem pública. Enquanto lia o catálogo da infâmia escravagista, pensava na população vulnerabilizada do Rio de Janeiro e nos inumeráveis “desde que” ainda em voga, mobilizados diariamente por políticos e policiais para postergar mudanças urgentes na segurança pública. Contra a ADPF 635, que o STF se prepara para votar, evocam o “desde que” sem pruridos, sacrificando a razão, as evidências e qualquer veleidade de honestidade intelectual.
A verdade veio à tona, no córrego sob a ponte
Publicado 06/12/2024 no site Outras Palavras
Arremesso de um jovem escancara a realidade da violência policial: um gesto asséptico – descarte de uma vida descartável, sem a habitual coreografia da brutalidade. Após incentivar os banhos de sangue da PM, Tarcísio admite erros: uma harmonização facial na máscara fascista
Policial militar de São Paulo arremessou um jovem da ponte. Mais um ato criminoso de brutalidade da corporação comandada por Tarcisio-Derrite? Não. O impacto na opinião pública demonstra que houve aí algo diferente. Tão diferente que jogou o governador do alto de sua arrogância no chão da oficina de reparos de imagem, onde calçou as sandálias da humildade e admitiu erros.
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