Ficção e realidade do crime organizado no Brasil – Entrevista para Ciência Hoje

LUIZ EDUARDO SOARES

Ficção e realidade do crime organizado no Brasil

 

Thiago Camelo

Especial para Ciência Hoje/RJ

O Rio de Janeiro vivia o início do que, posteriormente, ficaria conhecido como o Dia D da cidade. Era 22 de novembro quando a Ciência Hoje entrevistou o antropólogo, cientista político e especialista em segurança pública Luiz Eduardo Soares. O mote da conversa já havia sido definido há semanas: seu novo livro, Elite da tropa 2. Depois de vender cerca de 180 mil exemplares do primeiro Elite da tropa, Luiz Eduardo Soares e seus amigos e coautores da obra – os policiais André Batista e Rodrigo Pimentel e o delegado Cláudio Ferraz – apontaram, por meio de uma realidade ficcionalizada, o novo inimigo do carioca: as milícias, grupoS de policiais corruptos que dominam favelas e usam a força para controlar o local (a comunidade presta conta – e tem de pagar – ao miliciano), sob o pretexto de estar defendendo e protegendo os moradores.

A conversa foi sobre o livro do antropólogo, mas, diante dos primeiros carros queimados naquela segunda-feira, tornou-se impossível não tratar da especialidade do ex-secretário de Segurança Pública do Rio de Janeiro e ex-secretário nacional de Segurança Pública. Entrevistado e repórter não podiam saber, entretanto, o que a semana prometia, de modo que o bate-papo, longe de ser um exercício de futurologia, ateve-se ao ocorrido até então. Para Luiz Eduardo Soares, era “muito cedo para apontar os responsáveis por aqueles atentados”.

O final da história, todos sabem. Primeiro a Vila Cruzeiro, depois o Complexo do Alemão. Município, Estado e Federação uniram forças para expulsar os traficantes de favelas sobre as quais dizia-se, há pouquíssimo tempo, ser impossível entrar. Um debate sobre as UPPs, a validade da ação, a retomada da confiança da população no Estado de direto começou e, hoje, ainda é assunto prioritário em todos os meios de comunicação.

Soares, de certo modo, escreveu sobre todos esses fenômenos em Elite da tropa 2, livro que não deu origem ao celebrado Tropa de elite 2, mas que tem colaboradores, personagens e algumas tramas em comum. O filme, dirigido por José Padilha, fechou o ano como o mais visto na história do cinema brasileiro. A população parece estar em um momento-chave de interesse pelas proposições para a segurança pública, não apenas carioca, mas nacional.

Na mesma semana em que tudo aconteceu no Rio de Janeiro, Soares calou-se. Não deu entrevistas e sua única manifestação foi em seu blogue pessoal, onde se autoentrevistou e criticou a cobertura do Dia D carioca, chamando-a de “pastiche midiático” e sentenciando o futuro do país com a seguinte frase: “Ou se começa a levar a sério a tragédia da insegurança pública no Brasil, ou será pelo menos mais digno furtar-se a fazer coro à farsa”. O blog que recebe, em média, 600 acessos/dia, foi visitado mais de 100 mil vezes, em uma semana. O texto foi comentado por editoriais do Estadão e do Globo, por colunistas da Folha, e rendeu longas entrevistas de Soares à imprensa, ao rádio e à TV, com destaque para o Roda Viva, da TV Cultura/SP. Entre as teses expostas no artigo, no qual respondia a perguntas imaginárias (mas coincidentes com as indagações insistentemente repetidas nos veículos de comunicação), destaca-se a seguinte:

“A mídia mascara a realidade quando trata o problema como um confronto entre o bem e o mal, as forças da ordem e as da desordem, as polícias e os traficantes. Descrever a situação como uma polaridade desse tipo omite o fato decisivo: o tráfico só existe, no Rio, dominando territórios, porque sempre contou com a parceria de numerosos segmentos policiais, que se tornaram sócios dos criminosos. Essa parceria dissolve a polaridade, converte a polícia em parte do problema e impede a atuação do Estado, enquanto matriz e instrumento da legalidade constitucional. Esse é o centro de nosso problema e nosso maior desafio. Quando a opinião pública começava a entender, com a ajuda do filme e dos debates que o cercaram (a esfera de alcance do livro é infinitamente menor), que a inexistência da polaridade (polícia X crime) representava o dilema mais grave, sem cujo enfrentamento nada mais que se fizesse poderia ter consistência e sustentabilidade, a mídia empurra o nível de consciência para baixo, inventando a polaridade e a adornando com a retórica apologética e ufanista de um maniqueísmo primário. Não se trata, portanto, de negar a necessidade de que todos os territórios sejam retomados pelo Estado e de que todas as comunidades passem a se beneficiar da plena vigência do Estado democrático de direito. Trata-se, sim, de insistir no fato de que essa retomada não se esgota nas favelas. Tem de se estender às polícias, cuja refundação é condição sine qua non para que qualquer ação tenha futuro e possa ser conduzida nos marcos da legalidade. Em poucas palavras: parte da mídia fez ficção, onde o filme e o livro fizeram reportagem. Nesse caso, infelizmente, má ficção: previsível, redundante, diluidora da complexidade, vocalizando um triunfalismo de opereta, enquanto os vestígios da verdadeira tragédia escapavam do foco”.

A entrevista, abaixo, explica e contextualiza a posição de Soares.

 

A equipe que fez Tropa de elite 1 e 2 e vocês, autores do livro, têm consciência plena do fenômeno que se tornou o projeto, uma espécie de metanarrativa, em que o produto influencia a vida das pessoas e vice-versa?

Fico feliz com a pergunta. Porque esse é o meu grande interesse, trabalhei com esse objetivo. No entanto, às vezes esse tipo de questão não se dá a ver. Espero que outras pessoas tenham também percebido essa questão. O livro e o filme estão de fato juntos, mas não misturados. Estamos juntos, é um empreendimento do qual todos participamos. Cada um com uma responsabilidade. A minha responsabilidade é exclusivamente sobre o livro, mas me sinto parte do processo e procuro dialogar com os amigos envolvidos na realização do filme e sou, claro, também consultado por eles.

A história do Elite da tropa é uma contribuição de diálogo e reciprocidade. Minha participação? Eu escrevo. Por um motivo simples, eu tenho pretensões de transformar o trabalho em algo experimental, narrativo-literário. Os meus coautores não têm. Eles têm um conhecimento precioso, que eu não tenho. Uma vivência que eu não tenho. Por outro lado, eu tenho vivência em construção literária, em gestão de segurança, bastidor de palácio, que eles não têm.

O trabalho de recortar, reconfigurar, interrogar, interpelar, desafiar, testar fronteiras, categorias que classificam gêneros de escrita e definições possíveis de realidade, explorando sendas e condutos metalinguísticos, é meu, mas que se afina completamentarmente com o empreendimento coletivo.

 

O livro se sustenta como obra literária ou a conversa cai, inevitavelmente, para o tema da segurança pública?

É muito curioso. Nos debates, a tendência é que o problema da segurança se destaque sempre e que todo o resto fique na sombra. Eu tenho tido conversas muito interessantes com escritores, críticos, amigos meus que gostam do livro e que se mostram um pouco perplexos com a classificação da obra. Em qual gênero devemos colocá-la? Isso poderia parecer acadêmico ou formalista, mas essas pessoas não são formalistas ou academicistas. Elas não sucumbiriam tão facilmente a essa armadilha.

 

E para você, em que estante da livraria, afinal, o seu livro se encaixa?

Quando as questões são muito imediatas, urgentes e do cotidiano, parece que o embrulho fica mais complicado. Essa confusão é interessante, por mais que eu ache que esteja pagando um preço por isso. Gostaria, por exemplo, que o livro fosse avaliado, apreciado, como o que ele é: um livro de ficção que toma com matéria prima as classificações estabelecidas para embaralhá-las, problematizando seus pressupostos e suas implicações. Sim, trata-se de ficção, sem deixar de ser também um esforço de outro tipo, com uma dimensão de depoimento e memória. Há também um esforço etnográfico e uma tentativa de fazer e transgredir o jornalismo literário. São várias camadas que não, necessariamente, se complementam.

 

Vocês fizeram algum esforço para mostrar que livro e filme, por mais que se complementem, são obras distintas?

Há ganhos e perdas no fato de termos lançado livro e filme ao mesmo tempo. Para o livro, seria melhor que tivesse sido lançado antes. Tínhamos um acordo com nosso amigo Zé Padilha sobre isso, para que não especulassem, com o livro em mãos, que tipo de filme o Tropa de elite 2 seria. Mas, como o sucesso do filme foi imenso, ele saturou a mídia, ocupou todos os espaços e passou a ser o crivo no qual qualquer discussão se daria. Inclusive a do livro. Raramente existe um interesse, digamos, literário ou cultural sobre o livro, até mesmo sobre sua inclassificabilidade. Em geral, ante o brilho ofuscante do filme, o livro desaparece na mídia. Nesse sentido, a relação com o filme é ambígua. Ajuda a divulgar, mas também dificulta.

 

Quais são os ganhos em se ficcionalizar uma realidade tão próxima a todos?

Primeiro, começando pelo trivial, você pode contar as histórias, que são histórias que merecem ser contadas. Se não fosse na forma de ficção, não poderia fazer, pois seria alvo de todo tipo de ameaça, processo e represália. Teria de comprovar cada episódio e responder por cada palavra em juízo. Quando nem era nossa intenção acusar indivíduos, mas revelar processos e mecanismos.

Segundo, se você pode construir uma narrativa ficcional, é possível propor um personagem narrador em um discurso em primeira pessoa, que é condição para o estabelecimento de uma relação empática com os leitores. A palavra empatia alude a temas caros a David Hume, Jean-Jacques Rousseau e à consciência liberal e individualista do século 18.

A possibilidade de você ver o mundo pelos olhos desse indivíduo ficcional, desse personagem ou sujeito inventado, é uma experiência de igualdade e transitividade imaginária. Reproduz a estrutura básica da moralidade, cuja matriz é o deslocamento para a posição do outro. Aqui, importam menos os valores do que o movimento que antecipa e viabiliza a experiência elementar da moralidade. Levar o outro em conta. Respeitar sua existência enquanto outro, isto é, enquanto um sujeito que não é apenas a extensão de mim mesmo ou a reprodução do que eu sou. O movimento fundamental da moralidade é reconhecer a alteridade irredutível. O valor será o conteúdo que, histórica e culturalmente, recobrirá o vácuo deixado pela deflação do ego. Valores discutimos, mudamos, (re)inventamos. Mas o movimento de deslocamento imaginário para uma posição-sujeito diferente, este é a base de toda a construção. E este movimento, esta transitividade ou a metamorfose (para citar Elias Canetti) é também o exercício essencial da narrativa literária. A empatia é o nome desse movimento e está na origem de nossos valores mais caros, como os direitos humanos.

 

E por que essa transitividade é importante?

A experiência que tenho tido no Rio de Janeiro com a questão de segurança pública é que a informação apenas não basta. Você pode passar todas as informações, os dados todos. A população está informada que o inferno está ali do lado e o genocídio está em curso, que esse tipo de coisa faz parte do cotidiano. As pessoas ficam impressionadas e dão uma garfada no macarrão. Ficam impressionadas e lembram-se do compromisso do dia seguinte. Chocam-se com a boca cheia de macarrão e, em seguida, telefonam para marcar a praia, o futebol ou a aula de inglês. A vida segue. A tragédia não é metabolizada, não se converte em emoção, não é incorporada à economia dos afetos, não é mobilizadora, não funciona como causa para a sua vigília, para a sua insônia, não altera sua consciência. A vida segue!

Então, para, de alguma maneira, tirar a pessoa do sério e a colocar em outro lugar, eu acho que é interessante a invenção literária, a ficção, a provocação empática.

 

E o que se perde com a ficcionalização dos fatos reais?

Perde-se na esfera da cognição. As informações são menos precisas e organizadas, sistemáticas. Perde-se na possibilidade de didaticamente propor alternativas, defender ideias e programas de açåo que tenham um efeito político importante. Perde-se na possibilidade de que aquilo ali seja tomado como objeto e fonte de informação pertinente para uma análise da realidade social.

 

Mas parece que tanto filme quanto livro acabam, também, sendo bem objetivos em relação à realidade dos fatos. Em algumas entrevistas, tanto sobre o livro, quanto sobre o filme, aparece a expressão “o tráfico já era, agora o problema são as milícias”. Falando especialmente do terreno da segurança pública: não seria ousado afirmar isso, considerar que o tráfico já não tem tanto poder?

Se você considerar as dinâmicas criminológicas, societárias e institucionais em curso no Rio de Janeiro, você verá que o tráfico não tem futuro. Ou tem um futuro muito reduzido. E que a tendência do tráfico, como o vemos hoje, é ser substituído pelo padrão internacional. Por razões econômicas e por outras razões também. Mas principalmente pela razão econômica. E qual é o padrão internacional? É o padrão do varejo ou nomadismo. Não é de controle territorial. Isso existe em todo o mundo democrático e sempre vai existir, enquanto houver o proibicionismo e enquanto as drogas forem – imagino que sempre – desejadas por consumidores. Enquanto houver consumo e produção, é impossível, em uma sociedade democrática, impedir que consumidores, produtores e intermediários se encontrem. Não se controla esse mercado. Pode-se disciplinar, regular, mas não controlar. A guerra antidrogas é um imenso fracasso. Não há dúvida nenhuma.

Filosoficamente, para mim, o proibicionismo é injustificável, como também na prática. Essa modalidade varejista e nômade da venda e da negociação da droga ilícita é o modelo predominante no mundo democrático mais desenvolvido. Em algumas regiões do Brasil, vigora o modelo territorializado, baseado no domínio armado de comunidades. Isso é muito caro e ineficaz. E vai custar cada vez mais caro. Os traficantes têm de manter um “pequeno exército”, recrutar, formar, contar com essas lealdades, comprar armas… Eles têm que se armar crescentemente – e esse é um jogo que se autonomiza em relação às necessidades imediatas, e tem um custo muito grande.

Os traficantes têm de disputar com outras facções o controle do território. E têm que negociar com policiais, que vêm cada vez mais vorazes e acabam fazendo com que ao tráfico caiba a parte mais pesada, onerosa e arriscada. Para os segmentos policiais corruptos e criminosos, sobra o lucro líquido, o lucro sem custo, sem risco.

Esse é um arranjo incompatível com a urbanização menos desigual e excludente, com a organização da sociedade, com o aprofundamento da democracia. Começa a haver uma cobrança da sociedade em relação às instâncias públicas, uma cobrança por um mínimo de responsabilidade, um mínimo de confiabilidade, um mínimo de transparência.

Nesse contexto, passa a ser muito mais fácil e atraente para quem se interessa pelo negócio das drogas ilícitas criar métodos alternativos e vender as drogas pelo sistema de delivery, como em qualquer lugar do mundo desenvolvido. Então, economicamente, o tráfico está condenado, não é sustentável.

 

Mas existem números que provam a sua afirmação?

O nosso conhecimento nessa área, sobretudo quando apoiado em números, sempre foi muito precário. Poderia dar vários exemplos dessa precariedade. Há muitos anos, todos os que estamos nessa área compartilhamos algumas evidências que podem ser até enganosas, mas são os dados que temos. As evidências são muitas. Você conversa com as lideranças locais, isso é uma fonte importante. Você conversa com presos do tráfico, você conversa com os policiais honestos. Você vai ver que existe uma unanimidade em torno da percepção de que há uma perda de poder. Uma desvalorização, um recuo. Essa situação está se agravando e tem sido constante. E há muitas razões para isso. Eu sustento que o modelo territorializado é caro. É antieconômico. É muito arriscado e leva à morte precoce os próprios traficantes. Sobretudo, o modelo territorializado pode ser substituído sem que os operadores desse negócio deixem de atuar, desde que se atualizem e se adaptem. O modelo territorializado é incompatível com a democracia, com a elevação da consciência política, que aponta na direção de uma retomada em novas bases do associativismo popular, hoje menos “sindical” e mais “empreendedor”.

 

Da forma como é retratado no livro e no filme, o modelo das milícias é mais econômico?

O que é econômico e atraente ainda no modelo de domínio territorializado, e vai ser por muito tempo? O domínio da polícia, que não se restringe às drogas, que abarca todas as atividades econômicas, incluindo as drogas. Ou seja, a milícia. É muito mais efetivo. E o que eles estão fazendo? Eles estão recrutando, empregando traficante.

Essa história de que a milícia é contrária ao tráfico é uma invenção do discurso conservador e autolegitimador das próprias milícias. As milícias ocupam, sobretudo, as áreas abandonadas. Com raras exceções, optam por áreas onde não há resistência [do tráfico].

As milícias são compatíveis com o Brasil do futuro? Não. No dia em que houver instituição policial confiável e governável, elas não vão se sustentar. Vai ficar caro também, vai ser complicado. Há disputas internas. Há muita delação. A justiça pode se qualificar.

Isso, repito, não significa que o tráfico não exista, que ele não tenha uma dinâmica própria, que ele não vá controlar várias áreas. No contexto em que afirmo que está em declínio, eu o faço em uma análise prospectiva, uma análise de tendência. Eu acho que “o tráfico já era” como solução para o negócio das drogas ilícitas: o modelo tal qual nós o conhecemos já era. O tráfico de drogas no modelo não-territorializado, não. Esse tipo de tráfico, que existe em NY e Paris, vai continuar existindo, realizado, no Rio, até mesmo pelas próprias milícias, enquanto elas resistirem ao avanço democrático do Brasil.

 

 

 

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