O Boletim Lua Nova publica um ensaio sobre o novo livro de Luiz Eduardo Soares, Escolha sua distopia (ou pense pelo avesso). Agradecemos ao autor pelo texto e pela reflexão indispensável que oferece para compreender o cenário político nacional.
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O livro “Escolha sua distopia (ou pense pelo avesso)”1 gira em torno de algumas perguntas: Como chegamos até aqui? Por que o Rio de Janeiro foi o berço do neofascismo? O que isso tem a ver com a perda de controle sobre as polícias e a emergência das milícias? Por que segurança pública é uma questão política central para o país? Como se relacionam a moeda, o fetichismo da mercadoria, a violência e o capitalismo? Qual o nexo entre genocídio racista e compulsão à repetição? Direito e psicanálise se escutam? Por que 2013 ainda é uma esfinge? Quais os obstáculos ao diálogo intergeracional no ambiente de intelectuais e ativistas? Como pensar o humanismo depois de sua derrocada? Ou, em outras palavras, como escapar tanto do humanismo universalista, quanto das armadilhas do relativismo, exorcizando, na medida do possível, o senso comum, inimigo do conhecimento e da reflexão crítica?
Para mascarar a finitude e evitar os riscos da construção de um futuro comum, Brasil pode, como Fernando, condenar-se à indiferença e solidão. Mas se o país é capaz desse filme, pode salvar-se do enredo medíocre e decadente em que se meteu
A metamorfose de Wagner Moura nas cenas finais de O Agente Secreto insinua paradoxos que oferecem pistas formidáveis para a identificação do enigma que nós somos -nós, o formigueiro magnífico cravado nos trópicos. Nomear o enigma, acercar-se dele, não significa desvendá-lo, mas talvez nos deixe mais perto do cão sem plumas e do coração selvagem das coisas que perdemos no fogo. Perto o suficiente para impedir que continuemos a negar sua existência. Perto o bastante pra sentir o cheiro de enxofre e queimar as pontas dos dedos. O incêndio guardado na caixinha de música da vovó é a mais poderosa arma de destruição em massa -como o cinema feroz e delicado, arrebatador e rigoroso, popular e sofisticadíssimo de Kleber Mendonça. Afinal, se nosso país é capaz desse filme, é perfeitamente capaz de salvar-se do enredo medíocre e decadente em que se meteu.
Para o antropólogo e cientista político, a projeção internacional sob Lula, especialmente com o BRICs é o “nó fundamental” que desperta a reação das elites
O antropólogo e cientista político Luiz Eduardo Soares avaliou, em entrevista ao programa Giro das Onze, que a liderança de Lula representa uma força única na política brasileira, capaz de resistir a pressões internas e externas. Para ele, o ponto central da intolerância das elites em relação ao presidente não está apenas nas políticas sociais, mas na projeção internacional do Brasil.
Com mais de quatro décadas dedicadas ao estudo da violência e à área da segurança pública, o antropólogo, cientista político e escritor Luiz Eduardo Soares lança Escolha sua distopia(ou pense pelo avesso), editora Edições 70, livro que reúne 13 artigos, ensaios e um depoimento pessoal. A obra articula pesquisa acadêmica, experiência em gestão pública e escrita literária para refletir sobre os caminhos da democracia e os impasses da sociedade brasileira diante do avanço do autoritarismo.
O lançamento acontece nesta sexta-feira (1º), às 18h, no Centro Cultural da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs). A atividade integra o debate “Segurança cidadã e democracia”, promovido pelo Instituto Novos Paradigmas (INP) e o Democracia e Direitos Fundamentais (DDF). Participam da mesa o ex-ministro da Justiça e ex-governador do RS, Tarso Genro; o mestre em Sociologia e jornalista Marcos Rolim; e a socióloga Bruna Koerich. A mediação será feita pela jornalista e doutora em comunicação Sandra Bitencourt.
Tinha a ditadura prendendo e arrebentando, tinha o valoroso pessoal resistindo a sério e tinha o lado B, gente desbundando, ousando, delirando, contra o autoritarismo & a caretice.
SARAU MEMÓRIAS DA DITADURA – LADO B recebe o antropólogo, cientista político e escritor LUIZ EDUARDO SOARES. Com a bancada da casa, LUÍS AUGUSTO FISCHER, DIEGO GRANDO e KATIA SUMAN numa vibe sexo, drogas & rock’n’Raul. canja – Ana Matielo
SARAU MEMÓRIAS DA DITADURA – LADO B – 29.07.25
Ocidente 20h
ingressos: 40 pila
Antecipados via pix: katia@radioeletrica.com
Enviar comprovante para o mesmo email.
Um dos autores de sucessos da literatura nacional, como Cabeça de Porco (2005) e Elite da Tropa 1 e 2 (2006, 2010), tendo este inspirado o cultuado Tropa de Elite (2007, 2010), o antropólogo Luiz Eduardo Soares, 71 anos, marca sua estreia na ficção com Crânio de Vidro Selvagem (Brasa Ed.). A obra narra o reencontro de dois antigos militantes de esquerda, que revisitam memórias marcadas por afetos e divergências. Com relatos que espelham momentos da vida do autor, o romance propõe uma leitura crítica do país, abordando o esvaziamento das mobilizações de rua, a ascensão das redes sociais no debate político e o desgaste do diálogo em meio à guerra de narrativas. Em conversa com a coluna GENTE, o cientista político, que foi subsecretário de Segurança do Estado do Rio no governo Anthony Garotinho, avalia o cenário atual da política brasileira e os desafios na segurança pública do país.
Vida institucional brasileira rasteja, aferrada à mercantilização, incapaz de se inspirar em quem tentou dar-lhe vitalidade, grandeza e viés solidarista. Por isso precisamos de quem, como o deputado, entrega o próprio corpo à luta coletiva
No ano 2000, publiquei um artigo no site No, sob o título “Perdão e esquecimento: a cultura política brasileira e as lições da África do Sul”i, onde procurava mostrar que a subordinação da política ao mercado corroía a credibilidade das instituições democráticas e poderia abrir, perigosamente, espaço para a reemergência do autoritarismo, se forças conservadoras identificassem a profundidade da rejeição popular à cultura política liberal e oferecessem um blend ideológico de ordem e mudança. O artigo afirmava a negligenciada importância do heroísmo – entendido como o sacrifício dos próprios interesses, quando não da própria vida –, como fonte de valor e legitimidade da política, talvez a única força moral e afetiva capaz de reverter a hegemonia degradante da mercantilização generalizada.
Reproduzo, aqui, sinteticamente, o artigo escrito há 25 anos, em homenagem ao gesto de um político que honra o instituto da representação. Durante dez dias, o deputado federal Glauber Braga, ameaçado de perder o mandato por se opor ao jogo das emendas secretas, esteve em greve de fome. Decidiu pôr sua vida em risco em resposta ao absurdo. Sua decisão causou surpresa e perplexidade. Havíamos esquecido que política não se restringe à lógica liberal, utilitária e individualista. Para evocar virtudes heróicas na política, não é preciso recorrer às armas. Basta apagar a fronteira entre privado e público, não para tornar a sociedade voyeur de intimidades narcísicas, mas para entregar o próprio corpo à luta política coletiva.
Quanto mais segue a cartilha neoliberal, mais Lula se enfraquece e amplia os riscos de derrota em 2026. O diálogo pode ser um primeiro antídoto. Governo deve expor quem bloqueia as mudanças. E o conjunto da esquerda pode servir-se da palavra para escapar de três tendências desastrosas
Difícil escapar dos temas que nos angustiam, sobretudo quando nos desafiam tanto intelectual quanto politicamente. Em retrospecto, parece que foi mais fácil compreender o golpe de 1964 e a transição democrática -com suas virtudes, seus limites, suas contradições- do que os revezes que precipitaram o impeachment golpista de Dilma Rousseff, marcando a ruptura do pacto celebrado em 1988, e culminaram com a ascensão do neofascismo bolsonarista -derrotado por um triz, em 2022, mas ainda um espectro no horizonte a nos assombrar, sobretudo após a vitória de Trump. Mais fácil compreender talvez porque o contemporâneo seja sempre mais desafiador, ou talvez porque nossas categorias estivessem mais ajustadas àquele mundo. O fato é que o quadro geopolítico é dramaticamente complexo, especialmente depois do genocídio em Gaza.
Premido pela onda obscurantista e pela crise internacional, o governo Lula ruma para o colapso
VÁRIOS AUTORES (nomes ao final do texto)
Agindo de forma reativa, enlaçado pela corrupção parlamentar, premido pela onda obscurantista e pela crise internacional, o governo Lula ruma para o colapso. Cabe reagir sem demora.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) durante cerimônia em Brasília em janeiro deste ano – Ueslei Marcelino/Reuters
Eleito pela mobilização contra a extrema direita, Lula não exibiu proposições claras e consistentes na campanha. Prometeu extinguir o teto de gastos, incluir o pobre no orçamento, rever a reforma trabalhista, valorizar o serviço público, garantir gasolina barata, reestatizar a Eletrobras e botar picanha e cerveja na mesa do povo.
No governo, prendeu-se ao fiscalismo ao gosto dos banqueiros. Estabeleceu meta de inflação inalcançável, argumento para o Banco Central elevar a taxa de juros. Essa camisa de força inviabiliza o bom serviço público, inibe investimentos produtivos e o atendimento aos mais pobres.
Crescimento do PIB, do emprego e da renda não bastam à sociedade. O corte de gastos resultante da obsessão fiscal fomenta a desesperança.
O preço da comida, a insegurança pública, a dificuldade de locomoção e a carência de moradia frustram as expectativas do povo.
Ex-secretário nacional de segurança pública, o antropólogo Luiz Eduardo Soares argumenta que “não é razoável continuar discutindo segurança com foco exclusivamente na criminalidade e em organizações criminosas”.
A maior parte da opinião pública politizada que se identifica com o campo progressista e democrático talvez ainda não tenha compreendido a natureza institucional dos problemas graves de insegurança que vivemos no país. O fato é que convivemos há tanto tempo com um dragão adormecido na sala de visitas, que nos acostumamos a falar baixo e contorná-lo para evitar que desperte e faça sabe-se lá o quê. Não é confortável, mas muitas coisas na vida tampouco o são, mesmo assim aprendemos a normalizá-las. O dragão entre nós são os enclaves institucionais representados pelas Forças Armadas e pelas polícias. Enclaves porque, embora essas corporações e os limites de sua atuação estejam estabelecidos na Constituição, elas têm se mostrado refratárias à autoridade civil e política, e portanto às determinações constitucionais.