Segurança: O Brasil que não se olha no espelho
Entrevista para o site Outras Palavras em 22/06/2026
Antropólogo Luiz Eduardo Soares analisa a falência de políticas de segurança e como as facções se integraram à economia formal. Mostra como “enclaves policiais” acossam a democracia. E aponta para caminhos refundar instituições, a partir de alternativas ao punitivismo
Luiz Eduardo Soares soube, antes de quase todo mundo, que a polícia do Rio de Janeiro não estava doente: estava funcionando exatamente como fora projetada. Em 17 de março de 2000, um governador descobriu o preço de ter contratado alguém que dizia isso em voz alta.
A cena tem a economia de um roteiro de Padilha. Soares era o Coordenador de Segurança, Justiça e Cidadania do governo Anthony Garotinho. Pronunciara, em público, duas palavras que ninguém no Palácio Guanabara queria ouvir juntas: banda podre. Falava dos policiais que cobravam pedágio do crime, que protegiam o jogo do bicho, que matavam por encomenda e dormiam tranquilos. Foi exonerado. Ameaçado de morte, ele e a família deixaram o país.
Garotinho não demitiu Soares apesar do que ele denunciava; demitiu-o por causa do que ele denunciava. A “limpeza” anunciada pelo governo — mil e oitocentos policiais afastados, dezenas de expulsos — era o teatro; a estrutura era o enredo. Bastaram oito anos para a ironia se fechar.
Em 2008, a Polícia Federal prendeu Álvaro Lins, o delegado que fora chefe da Polícia Civil dos dois governos Garotinho (Anthony e Rosinha). A acusação: chefiar uma quadrilha armada que loteava delegacias e vendia proteção à máfia dos caça-níqueis controlada pelo bicheiro Rogério Andrade.
Lins foi condenado a vinte e oito anos. E Garotinho, o homem que demitira Soares em nome da moralidade, foi condenado junto — por formação de quadrilha — e depois preso, em 2016, por compra de votos.
O que Soares enxergava já estava escrito na paisagem, para quem soubesse ler. A figura do jagunço — o braço armado do coronel, o matador a soldo do latifúndio no pós-escravidão — não era folclore do sertão. Era arquétipo vivo, núcleo gravitacional ao qual a sociedade brasileira retorna como a um destino atávico.
Antes mesmo do golpe de 1964, o Rio já conhecia os Esquadrões da Morte, a Scuderie Le Cocq, o Mão Branca: grupos de policiais mais notórios que qualquer bandido lendário, antepassados diretos das milícias.
O regime militar não inventou esse arranjo. Herdou-o, naturalizou-o e o devolveu intacto à democracia, decretando a amnésia como nova ordem da cultura. É a tese que atravessa toda a obra de Soares: o que define o capitalismo brasileiro como autoritário não é o regime de turno, mas sua natureza extraeconômica — a violência que imobiliza o trabalho, ontem pela escravidão, hoje pelo veto à terra e pela pólvora nas favelas.
Em 2003, Lula o chamou para a Secretaria Nacional de Segurança Pública. Naquele momento, Soares embalou sonhos ampliados, não era mais um ente importante da Federação; ele seria o principal formulador de política pública da União, de um país castigado pela insegurança que rouba a cidadania. Saiu deste cargo, também por pressão política.
Há um Brasil que ele leu melhor que os manuais. O Brasil onde o povo, para nomear o aparelho que o vigia, o explora e ocasionalmente o mata, não diz “o Estado” nem “a polícia”: diz Eles. Pronome vago para uma alteridade poderosa, linguagem lacunar em que se cifra a luta de classes num país de sincretismos que tudo diluem.
É a mesma intuição que faz a antropologia séria há um século: que sociedade alguma é primitiva ou atrasada, que cada cultura organiza seu próprio sentido, que o observador que despreza o nativo nada compreende. Soares nunca precisou citar esses mestres para operá-los; ele os pensa em português, com sotaque carioca, diante de favelas cercadas.
O roteiro continuou rodando depois dele, e piorou: Garotinho, condenado e preso. Sérgio Cabral, sucessor de seus aliados, hoje réu condenado em dezessete ações, com penas que somam mais de duzentos e setenta anos. Pezão, o vice que o seguiu, preso ao fim do mandato por receber mesada de propina. Witzel, eleito com o discurso da moralidade e da bala na cabeça, afastado em pouco mais de um ano sob acusação de desviar verba da saúde na pandemia.
Por último, o atual flagelo do Estado do Rio: Cláudio Castro, que herdou o palácio e, diante dos tiroteios da Avenida Brasil, encontrou a palavra mágica — terrorismo — para rebatizar de guerra o que sempre foi abandono. Todos os governadores eleitos no Rio nos últimos trinta anos foram presos ou tirados do cargo. De 2003 a 2025, as ações policiais no estado do Rio mataram 23.159 pessoas. É preciso dizer algo mais?
O antropólogo Luiz Eduardo Soares, professor na UNICAMP, no IUPERJ e na UERJ, também é pesquisador visitante emérito da FAPERJ e titular da Cátedra Patrícia Acioli no Colégio Brasileiro de Altos Estudos da UFRJ. É autor mais de vinte; dois deles — Elite da Tropa e a continuação, escritos com André Batista e Rodrigo Pimentel — viraram o cinema de Padilha e entregaram ao país o Capitão Nascimento, isto é, entregaram à classe média a anatomia de uma violência que ela preferiria não nomear.
Eis a entrevista.
Se o Comando Vermelho nasce sob uma mística de solidariedade coletiva no cárcere da ditadura, o PCC refundou a criminalidade sob a lógica da eficiência corporativa. Como o senhor analisa essa mutação histórica de um ethos de sobrevivência reativo para um modelo de governança empresarial transnacional?
A pergunta é interessantíssima e, a rigor, exigiria centenas de páginas e muita pesquisa empírica, não algumas linhas sumárias em uma breve entrevista. Portanto, minha resposta é uma ousadia desmesurada e corre o risco da simplificação e do reducionismo especulativo. Mesmo assim, tomo a liberdade de esboçá-la. Ambos os grupos, CV e PCC, se formaram na prisão, o que já indicia um dos paradoxos da tragicomédia de erros a que têm se resumido as chamadas políticas de segurança no Brasil: medidas repressivas potencializando os problemas a cuja “resolução” supostamente se destinam. Formaram-se num esforço de autodefesa, ante violações a seus direitos elementares, que culminaram, em São Paulo, no massacre do Carandiru. O PCC investiu no fortalecimento de laços com egressos e suas famílias, em pactuações entre os membros, envolvendo lealdades e obrigações mútuas, visando tanto a proteção aos internos — por meio do serviço de advogados, por exemplo, e da criação de sistemas de comunicação entre unidades — quanto à manutenção econômica das famílias. Tornou-se crescentemente relevante a adesão a uma pauta ético-política que incluía valores como fidelidade, orgulho pela autoimagem restaurada, coletivamente sustentada, senso compartilhado de dever, assim como a experiência de pertencimento a uma comunidade dotada de identidade. Isso tudo importando em disciplina e um cardápio determinado de práticas. Tratava-se de promover a organização (no Rio, presos políticos demonstraram sua necessidade aos pioneiros do CV), que envolve ingredientes afetivos e simbólicos, e ordena o estabelecimento de relações, cujas dimensões complementares são solidariedade e hierarquia. Participar de um grupo dotado dessas características dissolve, para os próprios membros, os componentes moral e psicologicamente degradantes da ação individual desviante, intensamente estigmatizada. Não há grupo sem os sentimentos de orgulho e honra, esse auto-reasseguramento dialogicamente promovido, que garante a reprodução dos laços e das práticas, isto é, confere estabilidade ao grupo e o dinamiza. A consistência das adesões passa a integrar a rota normalizada das expectativas, gerando um circuito de profecia autorrealizada.
Aprendemos com Marx, Weber e, depois, Norbert Elias, entre outros autores, que os processos sociais ensejam e, por outro lado, derivam de combinações específicas entre diferentes esferas da vida social — a economia, a política, a cultura —, energizadas pelo conflito entre projetos antagônicos de poder, com destaque para a luta de classes. A criação na Europa dos Estados nacionais gerava uma tração centrípeta político-econômica que se contrapôs à dinâmica fragmentária dos baronatos feudais, cujas armadas se confrontavam com frequência imprevisível, absorvendo força de trabalho masculina jovem, bloqueando potenciais de acumulação econômica, generalizando a violência, fracionando estruturas de poder e limitando a expectativa de vida. Trabalhadores no campo e guerreiros, o horizonte era a permanente ameaça e o destino provável “a morte violenta em mãos alheias”, para usar a expressão hobbesiana. Entre os valores disponíveis no repertório cultural, sobressaíam aqueles que se adaptavam às exigências do tempo, aos dilemas da existência, às escassas possibilidades históricas. As adaptações entre economia, política, regimes afetivos, símbolos, crenças e valores se realizam à moda da seleção natural, por acaso e necessidade, e pela agência humana, sob a forma de acomodações recíprocas sob tensão, não por determinações mecânicas de uma infraestrutura dominante, mas pelo jogo de afinidades eletivas, se quisermos aplicar uma leitura evolucionária, por analogia aos ensinamentos da biologia de inspiração darwiniana, mal lidos como evolucionismo.
Assim, quando Estados são criados, absorvendo e concentrando (até a monopolização) os meios de força e coerção, as armas e seu direito de usá-las são subtraídos dos poderes locais, os barões feudais são expropriados de suas milícias e a nova dinâmica centrípeta vai configurar nova gravitação cultural, novos padrões de comportamento, novas linguagens valorativas, novos modelos de personalidade, novas modalidades de subjetivação. Outras afinidades vão eleger outros parâmetros éticos, estimulando novos comportamentos, novas dramaturgias cotidianas, novos ritos, posturas, expectativas: mudam os modos na corte, as maneiras de mesa, os hábitos populares, as vestes aceitáveis, os planos para a formação de indivíduos, os recortes entre público e privado, ainda incipientes.
Passamos das exibições ostensivas de valentia e coragem à valorização da discrição, das artes da persuasão, da capacidade de discernir significados ocultos em mensagens cifradas nos códigos políticos. Da guerra, passamos à política, do ímpeto, à interpretação, das aptidões físicas, às artes da articulação, da bravura, às virtudes do negociador. Nascerão, com o capitalismo e a supremacia burguesa, as psicologias, os romances policiais investigativos, as etiquetas que mais ocultam do que revelam, as roupas que uniformizam e a grande dissimulação alienante do fetiche, outro nome para o reino da mercadoria.
De nossa parte, vamos passar, aqui, da grande história burguesa, que será também a nossa pela mediação do colonialismo, ao problema do ethos de facções criminosas. Lembremo-nos de que estamos falando em capitalismo: a crônica do crime em nosso país é a crônica do capital na periferia do ocidente. O salto de um tema a outro deve ser tomado como o trânsito da ilustração simplificada de um método de abordagem – na análise de relações entre diferentes dimensões da vida social – para um ensaio rudimentar de sua aplicação. A pergunta chave será: no Brasil, qual mudança terá ocorrido no centro de gravitação que selecionará valores e rotas de comportamento? Qual transformação terá acontecido no centro gravitacional produzido pela articulação entre racionalização das atividades econômicas e busca de maximizar poder, proteção, acumulação, afluência e estabilidade? Essa mudança se dará no período marcado pelo declínio da ditadura, pela emergência de nossa precária democracia, pela crise econômica legada pelos militares, que acompanha o fim da Guerra Fria, pela afirmação unilateral do imperialismo estadunidense sob a forma do neoliberalismo globalizado. A cocaína chegará logo ao Brasil, lembremo-nos. Entre nós, não haverá Justiça de transição. Pior: a arquitetura institucional da segurança pública (em particular o sistema penitenciário e o modelo policial bifronte e militarizado) será mantida, incorporada e naturalizada pelo novo ecossistema democrático, gerando uma contradição estridente de efeitos racistas sanguinários (eu diria, genocidas), sobretudo quando a natureza militar da polícia mais numerosa e ativa se mostrar impermeável a controles externos, inclusive do Ministério Público.
Ante a falta de tradição autóctone de banditismo social, quando o crime viu-se instado a se modernizar, em sintonia com o andamento do país, as polícias (antecedendo o empresariado de faro predador) ocuparam o lugar de modelos a emular. Modelos de espoliação, rapinagem, chantagem, exploração de oportunidades ilícitas e brutalidade extralegal organizada. Modelos que, entretanto, incorporaram a abertura a alianças verticais e horizontais com agentes e instituições, substituindo ou cooptando mediadores políticos locais. Mencionei a falta de tradição, porque, já nos anos 1980, os milenarismos estavam perdidos nos capítulos quase imemoriais do tempo e as lendas épicas dos Lampiões, reis do cangaço, haviam se folclorizado no relicário dos regionalismos, enquanto o Brasil era revirado celeremente por migrações internas em escala dantesca, em cujo ambiente modernizar-se e urbanizar-se brandiam a bíblia do esquecimento — o golpe de 1964 decretara a amnésia histórica como a nova ordem da cultura. Antes de 64 e, ao longo da ditadura, tomando o Rio de Janeiro como referência, mais notórios do que Mineirinho, Cara de Cavalo, a Fera da Penha ou o Bandido da Luz Vermelha, eram os grupamentos policiais: os Esquadrões da Morte, a Scuderie Le Cock, o Mão Branca etc., antecessores das milícias mafiosas no imaginário e na realidade social do Rio. Contudo, o mais importante não foram os indivíduos lendários, mas a presença constante e a atuação de grupos policiais, em geral fiéis a expectativas sociais forjadas em longa trajetória, que nos remete aos confins mais remotos do Brasil profundo, mas se apresenta pleno no primitivo arranjo republicano.
O padrão policial violento que perdura, atravessando mudanças de regime e de Constituições, só alcança estabilidade quase atemporal porque boa parte da sociedade (naturalizando desigualdades e racismo) manteve aberto esse lugar, mesmo depois dos anos de chumbo da ditadura de 64, recusando-se inclusive a adotar universalmente os princípios ditados pela Constituição de 1988, em cujos termos segurança corresponde à garantia de direitos, o que significa que aos profissionais da segurança pública compete o dever de servir à cidadania, independentemente de cor, raça, território ou classe social. É verdade que este é o lado escuro da lua, pois as instituições policiais vivem tensionadas pelo choque entre a herança que se prolonga, relançada ao futuro como sinistra vocação, e o compromisso constitucional, que engaja a outra parte dos profissionais. Essa divisão, entretanto, é neutralizada pela predominância do viés soturno na relação com as classes subalternizadas.
Quando me reporto à longa tradição, que nos remete aos confins mais remotos do Brasil profundo, mas se apresenta plena no primitivo arranjo republicano, me refiro à pregnância histórica do coronelismo como estrutura de governança local, em que se destacava a figura do jagunço (mercenário ou miliciano), membro da tropa privada do patrão (latifundiário, senhor de Engenho), braço armado coercitivo do mandonismo rural, no imediato pós-escravismo da primeira República, que restou para a posteridade como sinalização arquetípica, núcleo gravitacional que atrai repetição obsessiva, origem a que se retorna compulsivamente, como um destino atávico. Uma variante do jagunço será o matador a soldo, fiel a um senhor ou livre no mercado como empreendedor independente. Não deve nos surpreender o fato de que a segurança privada serviu às classes dominantes ao longo do século, atravessando distraída as fronteiras complacentes da legalidade — legalidade, diga-se, cambiante, embora predominantemente cúmplice da exploração do trabalho e do domínio de classe. Vamos flagrar a réplica tardia do modelo, por exemplo, no apoio armado à supremacia político-econômica dos bicheiros na Baixada Fluminense, que permanece vigente, intangida pela transição democrática, depois de ter se associado à ditadura. O apoio armado envolvia muitas vezes dupla jornada, pois a segurança dos criminosos locais era frequentemente realizada por profissionais das polícias que, via de regra, ganhavam mais no segundo emprego.
Quando o crime se organiza pela primeira vez em escala significativa no Rio de Janeiro, no começo dos anos 1980, aproveitando as oportunidades oferecidas pelo negócio das substâncias ilícitas (sobretudo pela chegada da cocaína, no momento em que a atmosfera cultural girava do modo Hippie para a onda Yuppie, no embalo da maré ultra individualista e produtivista neoliberal), seu espelho, do qual extrairá as sementes de seu ethos, não serão os partidos clandestinos da resistência política — o convívio com presos políticos na Ilha Grande apenas mostrou a importância da solidariedade como autodefesa contra as violações perpetradas pelo Estado —, mas a polícia. Não se trata de qualquer polícia, mas de uma agência que traz consigo o peso devastador de uma história brutal, de viés racista e de classe, história que se define a partir do polo essencialmente autoritário de nosso capitalismo. Explico: o que caracteriza como autoritário o capitalismo brasileiro, conforme nos ensinou Otavio Velho (Capitalismo autoritário e campesinato; SP: Difel, 1976), independentemente do regime político, é sua natureza extraeconômica, jurídico-política, uma vez que sua condição de possibilidade, desde a origem, foi a imobilização da força de trabalho, seja pela escravidão, seja pelo bloqueio do acesso à terra e o veto à reforma agrária. A política, expressiva de interesse de classe, dita a Lei, cuja vigência requer coerção, delegada aos operadores da força, sendo que o exercício da força, no mundo descentralizado dos coronéis, prescindia de mediações institucionais, assim como jagunços prescindiam da insígnia do Estado.
Ethos são valores, ligados a crenças, que orientam comportamentos, dirigem práticas, ordenam subjetividades em torno de regimes afetivos e autoimagens, tecidas coletiva e individualmente na experiência comum do pertencimento a corporações, grupos, subgrupos, famílias etc. Orientam e são orientados: o fluxo formador e transformador admite dinâmicas diversas (evito aqui o adjetivo “dialéticas” porque não se trata, de fato, de um processo desse tipo — aliás, tampouco se trata de um único tipo). Para simplificar, diria que fundamental é o apreço que se devota à força, como base autossuficiente da legitimidade do poder que se exerce ao mobilizá-la, real ou potencialmente. Força traduzida no recurso à arma, o que delineia um perfil guerreiro, qualificado pela coragem reconhecida e a lealdade ao grupo de referência. Outros elementos não entram no julgamento, não se trata de justiça, ainda que a avaliação da moralidade das ações eventualmente considere o respeito a alguns limites, mas não necessariamente.
Além dos arquétipos com os quais inconscientemente se identificam os que internalizam (e metabolizam) o ethos da nova criminalidade armada e organizada, espelhando-se no exemplo oferecido por instituições do Estado, outros três fatores também atuam como guias formativos da subjetividade prototípica: (1) A estrutura patriarcal, que é social, cultural e psíquica (sabendo-se que mais do que vínculo externo entre masculinidade e violência, os laços são internos e constitutivos, a tal ponto que não seria exagero afirmar que masculinidade tem sido uma modulação da violência em nossa sociedade, e não apenas). (2) O fenômeno que denomino dupla mensagem da cultura brasileira: as balizas formais do Estado democrático de direito proclamam a igualdade; o dia a dia da sociedade brasileira reitera, substantivamente, as desigualdades, manchando a forma com o verniz do cinismo. Sabemos que a dupla mensagem na formação familiar “enlouquece” a criança. No Brasil, desnorteia as vítimas das iniquidades, abrindo caminho para apropriações igualmente cínicas da estrutura ambivalente. Se o cinismo dá o tom no comportamento das elites (da meritocracia às manipulações judiciais), por que o crime não se sentiria liberado para rezar pela mesma cartilha? (3) E o impulso produzido pela racionalização econômica das atividades criminais, em sinergia com o processo de desenvolvimento do capitalismo -e aqui o caminho se bifurca entre Rio e São Paulo.
A literatura clássica pensava a prisão como espaço de exclusão e controle total do Estado, mas hoje ela funciona como o verdadeiro QG regulador do mercado criminal externo. O fracasso estrutural do sistema carcerário brasileiro foi, na verdade, a pré-condição para o sucesso dessa gestão monopolista das facções?
Não sei se pré-condição seria a categoria correta, porque talvez exigisse que considerássemos o contrafactual como referência comparativa, sob a forma da pergunta: não houvesse este sistema carcerário, as facções existiriam como hoje existem, com vocações monopolistas, isto é, disputando o mercado do crime com vistas a monopolizá-lo? Como não podemos recorrer ao contrafactual, o melhor provavelmente seria apenas dizer que o sistema carcerário foi um fator relevante para a formação e o fortalecimento das facções. Isso me parece inegável.
Investigações recentes mostram facções controlando centenas de postos de combustíveis e motéis, movimentando bilhões no mercado legal. Diante desse “capitalismo de fachada”, ainda faz sentido cindir a economia entre legal e ilegal, ou o crime organizado já se tornou sócio indissociável da acumulação de capital no país?
As duas coisas, concordo com ambas as hipóteses. Elas não se excluem. Por um lado, o crime organizado já integra as dinâmicas do capital, e não só no Brasil. Há duas décadas, os dados internacionais já demonstravam que praticamente todos os setores da economia incorporavam recursos de origem criminosa. Dos shoppings aos transportes de todos os tipos, das finanças ao turismo, da construção civil ao petróleo, das armas aos serviços, tudo que se mostrava rentável recebia investimentos na procura por lavar dinheiro e multiplicá-lo. O caminho natural do capital é buscar o lucro, onde quer que ele esteja. Nada mais conveniente ao capital indiferente à legalidade do que a circulação globalizada numa economia desregulada. Ou seja, tanto quanto os paraísos fiscais, o neoliberalismo é o mundo ideal do crime de alto calibre. Por outro lado, ainda acho que continua valendo a pena não abençoar a hibridização definitiva e irreversível entre o legal e o ilegal, ao menos como tipos ideais, autorizando a resistência da sociedade civil democrática. Sabemos que não há assepsia absoluta, mas nem por isso deveríamos aceitar que cirurgias se façam no pântano. O capitalismo é aético, não tem qualquer compromisso com democracia ou justiça, entretanto, politicamente, continua sendo importante denunciar a coalização entre setores do empresariado e as elites do crime, até mesmo como recurso para expor as contradições do status quo e para indicar a necessidade de superação da ordem do capital.
O cidadão periférico hoje não lida apenas com a ausência do Estado, mas com uma sobreposição cotidiana de soberanias: a milícia, o tráfico e a letalidade policial. De que maneira essa fragmentação do monopólio da violência reconfigura a própria experiência de cidadania e a subjetividade urbana no Rio?
A resposta exige um livro, mas vamos lá. O antropólogo britânico Edmund Leach se antepunha à rigidez que via no estruturalismo francês, propondo a “Topologia” como referência. Imaginemos uma superfície elástica, feita de borracha, por exemplo. Se desenharmos na superfície pontos e linhas que os relacionem, a estrutura se manterá, a despeito da reconfiguração da forma, provocada pelas dobras e por nossos puxões na borracha. Teremos uma geometria em movimento e o desafio será descobrir a estrutura nas transformações, ou a estrutura das transformações.
O fenômeno fluminense (e não só) talvez seja análogo, em alguma medida. O Estado — seus braços policiais, institucionais, o sistema de justiça, que inclui as unidades penitenciárias, os parâmetros normativos formais e as práticas cotidianas — é um Outro, relativamente à experiência diária das comunidades — dos bairros, das vizinhanças, das favelas, da cidade, da sociedade. Um Outro que se teme e despreza, ou do qual se demanda ordem e proteção, ou um mínimo de justiça, cuja máscara muda conforme conjunturas e momentos históricos, mas que não perde sua natureza exógena. É sempre um Outro que responde, em última instância, a mecanismos distantes e incontroláveis, submetidos a interesses próprios — em meu livro O Brasil e seu Duplo (Todavia, 2019), digo que a população usa o pronome “Eles” para designar essa nebulosa alteridade. Esta é a linguagem lacunar em que se expressa a luta de classes no país dos sincretismos diluidores.
Se o Estado monopolizasse o uso legítimo dos meios de força ou coerção, o estranhamento persistiria, a desidentificação cidadã permaneceria, mas teria contornos diferentes dos que se apresentam para nós, uma vez que, na realidade, esse monopólio nunca existiu plenamente. Sempre foi permeável a disputas e negociações com agentes seus — que se autonomizam — ou alheios, sempre foi vazado por domínios privados — ou que se desgarram da estrutura do Estado e se privatizam, se autonomizam, no processo dessas disputas pelo exercício do poder local. A consequência é que a experiência fluminense não é a do choque ou a da perplexidade com a perda da “soberania” do Estado, mas a da progressiva extensão do elenco das elites autoerigidas em despotismos locais, a da expansão da elasticidade das formas de mediação pelas quais se afirmam os mandonismos centrífugos. O que compensa a extensão elástica, bloqueando a ruptura definitiva que desmembraria o território em arquipélagos balcanizados, é o movimento centrípeto encetado pelas facções criminosas (traficantes ou milicianas), que sinalizam a existência de uma dimensão de unidade, nem que seja incerta e porosa, armada pelo guarda-chuva simbólico da constelação totêmica: quem “é” do comando tal ou qual, que espaço “pertence” a um ou outro etc. Há, portanto, vários Outros, que ora entram em confronto, ora se aliam, mas replicam a mesma lógica: constituem polos armados contra os quais se afirma uma comunidade. Porém, essa afirmação é antes negativa do que positiva, a identidade é contrastiva, o que esvazia seu potencial político e refrata, enfraquecendo-o, seu protagonismo. As ações coletivas tendem a ser reativas, a se despolitizar, dificilmente escalam a um plano superior na luta por outro mundo. “Eles” é nome vago da alteridade poderosa, que não suporta um nós antagônico substancial. “Eles” não serve só para nomear a alteridade estatal. Aplica-se genericamente ao espectro fantasmal, o Outro, que parasita a vitalidade comunitária e drena vontade e consciência política do ator coletivo popular.
Quando o governador Cláudio Castro rotula tiroteios na Avenida Brasil como “atos terroristas”, ele tensiona a segurança em confrontos urbanos pesados que vitimam inocentes. Esse espetáculo de guerra aberta é uma estratégia deliberada de marketing político ou a confissão última da impotência institucional do Estado?
De novo, respondo: as duas coisas. Ambas estão certas. Trata-se de marketing político e confissão de impotência, ao mesmo tempo. Eis aí outra modalidade da dupla mensagem, “enlouquecendo” a população. O governador está convocando a sociedade para celebrar a morte no rito canibal que propõe, exaltando o ódio vingador, num festival de sangue e fogo. Ele quer atiçar o ódio e aliar-se ao ódio, fazer-se canal de manifestação da repulsa popular ao crime. Mas todo mundo sabe, ou intui, que o espetáculo justiceiro não tem a mais remota relação com resolver problemas. Nada, relativo aos problemas do crime, foi sequer tangenciado. O aspecto mais perverso desse jogo é triplo: perpetra carnificinas; aprofunda a confusão entre justiça e vingança; e intensifica o racismo e os preconceitos de classe, na medida em que as incursões policiais apontam para a favela como sede do mal. Operações militarizadas em favelas são o endereçamento político da abjeção social.
A pressão política para classificar grandes facções brasileiras como “grupos terroristas” avança no debate público. O senhor enxerga nisso um ganho real de ferramentas de inteligência ou um atalho retórico perigoso que visa apenas justificar o estado de exceção permanente e o extermínio nas favelas?
Esse tipo de classificação é exclusivamente político e provém do repertório da extrema-direita. Quando proposto por vozes brasileiras, antes da era Trump, tinha o objetivo de abrir espaço ao envolvimento das Forças Armadas na segurança pública, por meio da multiplicação de GLOs. Quando decretado pelo governo Trump, tem a finalidade de ameaçar a soberania do Brasil, erguendo a espada de Dâmocles sobre o país, uma vez que a legislação interna dos EUA, em sua notória autossuficiência imperial, autoriza intervenção em qualquer território extranacional se a finalidade for a prisão (o sequestro internacional) ou a neutralização (a execução) de indivíduos ou grupos terroristas. Trata-se de uma carta branca para a mais despudorada pirataria.
A recente classificação do PCC e do CV como organizações terroristas globais por Marco Rubio, sob a administração Trump, opera um corte geopolítico nítido ao omitir as milícias. Como o senhor interpreta esse silêncio analítico norte-americano sobre os grupos paraestatais profundamente infiltrados na máquina pública nacional?
A categoria política “terrorista” qualifica operadores de crimes em escala transnacional, cuja dinâmica possa afetar os EUA, direta ou indiretamente. Por ora, as milícias não têm esse potencial. Mas é claro que elas estarão implicadas (assim como o sistema bancário), na medida em que se associarem ao CV e ao PCC. De todo modo, tudo isso não passa de teatro para fornecer, ao arbítrio do governo dos EUA, os meios legais (e políticos) para eventual intervenção.
Ao internacionalizar o conflito doméstico, o enquadramento de Washington abre precedentes para sanções severas e bloqueios de ativos que atingem o sistema financeiro nacional. Quais são os riscos reais de essa dinâmica de exceção transnacional desorganizar o pacto federativo e fraturar o Estado por dentro?
Os riscos são reais, o que não significa que a intervenção será efetivada. Tudo vai depender das condições políticas e dos interesses dos EUA. Eles agora têm, além das tarifas, mais um instrumento de chantagem, que pode ser usado para reduzir nossos laços com a China, com os BRICS, e assim por diante. De resto, a fratura interna já existe, tornou-se ostensiva no impeachment de Dilma Rousseff. O bolsonarismo exibiu a profundidade da ruptura do pacto constitucional, retirando a camuflagem do racha que já era fratura exposta desde o golpe, capitaneado por Eduardo Cunha e Michel Temer, sob as bênçãos do general Vilas-Boas. O Estado democrático de direito está atravessado pelo tensionamento político-ideológico que Lula esforçou-se por suturar, mas que continua ameaçando irromper em crise radical. As instituições são campos de batalha. O equilíbrio é precário. A hegemonia neoliberal jogou o capitalismo contra o pacto social-democrata, consagrado na Carta de 1988, abrindo espaço para a emergência do neofascismo bolsonarista, cujo projeto (antissistema) aponta para o encerramento do ciclo democrático, inaugurado pela chamada Nova República.
O senhor cunhou o termo “enclaves institucionais” para definir corporações policiais refratárias ao controle civil republicano. Como quebrar o cordão umbilical de propinas e cumplicidades que conecta setores dessas forças de segurança à manutenção financeira de complexos criminosos?
Vejo as polícias como enclaves institucionais, refratários à autoridade civil política e à Constituição, embora haja variações no tempo e no espaço, de acordo com as diferentes tradições corporativas regionais e com as conjunturas políticas. A rigor, ouso sustentar que nenhum governador comandou suas polícias, no sentido forte do verbo. A autonomização ilegal se mostra também na ponta do controle externo, porque o Ministério Público não cumpre seu dever constitucional de exercê-lo, tornando-se cúmplice, no mínimo por omissão, do verdadeiro genocídio de jovens negros e pobres, moradores dos territórios vulnerabilizados. De 2003 a 2025, no estado do Rio, houve 23.159 mortes provocadas por ações policiais. É preciso dizer algo mais? Por isso, quando pensamos em déficit de soberania do Estado em razão do domínio territorial imposto por grupos armados — traficantes e milicianos, cada vez mais parecidos —, devemos estender a preocupação à autonomização inconstitucional, experimentada pelos enclaves policiais. Essa problemática é a contraface da corrupção, que não será detida com a mera punição de desvios de conduta individuais. No Rio de Janeiro, embora haja milhares de profissionais honestos e honrados, que arriscam suas vidas por salários injustos, o nível de promiscuidade com o crime provocou verdadeira degradação institucional. Para reverter esse quadro, será preciso um esforço de refundação, que acabe com o enclave e inscreva as corporações, não apenas formalmente, no Estado democrático de direito. A deterioração se dá sobretudo por duas vias: (1) a adoção de execuções extrajudiciais como política, isto é, a autorização para matar (não me refiro à legítima defesa, é claro); (2) e a “vista grossa” para o envolvimento dos policiais com o mercado da segurança privada ilegal e informal. Vejamos a primeira via: quando o superior dá ao policial na ponta autorização para matar, dá-lhe também, tacitamente, autorização para negociar a sobrevivência do suspeito. Isso gera um mercado clandestino que tende a se racionalizar sob a forma de pactos, os “arregos”, associando segmentos policiais a grupos criminosos. Pode-se deduzir os desdobramentos. Quanto à segunda via, a segurança privada informal, observe-se que por mais que haja profissionais que se envolvem porque precisam completar a renda e mantêm postura honesta, mesmo atuando fora da lei (que proíbe aos policiais esse trabalho, a não ser excepcionalmente), não é difícil entender como muitos outros vão além, gerando insegurança para promover a venda de segurança. Também se deduz o que vem na sequência. Por esse motivo, digo que as milícias são filhas bastardas da segurança privada informal.
Em suas reflexões, o senhor aponta para a urgência de uma “escuta intergeracional” para reconstruir vínculos sociais dilacerados. Diante de uma máquina econômico-religiosa-criminal tão entranhada na base da sociedade, por onde começamos a tecer essa alternativa sem cair no messianismo punitivo?
Não sei por onde começamos. Minha intenção era sugerir o diálogo aberto entre gerações de militantes e intelectuais socialistas, porque me parecia, e ainda parece, que parte do contencioso, das divergências e até dos antagonismos derive de mal-entendidos, de preconceitos, da falta de interlocução. Não me referia a diálogos intergeracionais na sociedade, de um modo geral, embora diálogos costumem ser experiências produtivas para todos, havendo disposição para escutar. Quanto ao punitivismo, é uma tradição lamentável que confunde punição com vingança, lamentável, mas plenamente compreensível em uma sociedade habituada a tantas iniquidades, fundada na violência, estruturada por desigualdades. O messianismo também costuma grassar no vácuo democrático. Sendo fruto do terreno estéril de nosso autoritarismo, não será um meio eficaz para fertilizar a cidadania.







