Está na hora da unidade para resistir e defender a democracia
Postado no facebook em 8/05/20
LES
Sinto tristeza e um profundo desânimo com a despolitização, a visão rasa, estreita de vários amigos meus, companheiros valorosos de luta, segunda a qual a democracia nunca existiu para as periferias. Citam Agambem, falam em estado de exceção, etc. Sim, claro, e poucos têm sido como eu tão enfáticos e insistentes quanto a isso: a democracia efetivamente não chegou às periferias. Nada mais verdadeiro: os territórios mais vulneráveis e as comunidades têm sido sistematicamente subtraídos da vigência do Estado democrático de direito. Ali, a exceção é a regra. Ali, na prática, substantivamente, vigora o Estado de exceção, sim. Esse fato é incontestável.
Leia Mais...»O luto, Carlitos, e a luta que segue
Facebook, segundo post, dia 4 de maio, 2020
LES
Em 1979, fui algumas vezes ao Galeão receber grandes líderes das lutas históricas do povo brasileiro que voltavam do exílio. Gregório Bezerra, Miguel Arraes, Luiz Carlos Prestes, Betinho. Nós cantávamos “O Bêbado e a equilibrista”, nosso hino de amor, a canção da Anistia. Eu era jovem, a militância ainda era clandestina, a democracia parecia quase ao alcance da mão, e aquele mar de gente me comovia tanto que parecia que era o Brasil todo que batia dentro do peito. Caía a tarde feito um viaduto. Eram tantos os nossos mortos, assassinados pela ditadura, eram tantos ainda os riscos, o medo rosnava. Cada um de nós arrastava a memória de sangue e horror, mas com nossos heróis chegava o futuro. Era a volta do futuro. E um bêbado trajando luto nos lembrava Carlitos. Hoje, de novo, choram Marias e Clarices, e nós mergulhamos de novo no inferno. A democracia que construímos traiu os sonhos, era um brilho de aluguel. Pelo menos temos as bandeiras, guardamos as bandeiras intactas. E temos ainda o maior dos trunfos, cravado na história de cada um e de cada uma de nós, o hino da esperança que hoje canta por nós, em nossos olhos, sem que seja preciso dizer nada. Obrigado Aldir Blanc.
Facebook, 4 de maio, 2020
LES
A situação é delicada e grave. O QG de Bolsonaro não elabora estratégias, mas táticas de ação, as quais, por serem estreitas quanto à consideração do ambiente (econômico, social, cultural, intersubjetivo e político) e imediatistas, nos dão a impressão de serem exclusivamente reativas, hesitantes e trôpegas, como o caminhar claudicante de um soldado embriagado. Entretanto, os reativos temos sido nós. Ontem, domingo, o presidente nos propôs o “chicken game” -aquele desafio em que dois carros partem a toda velocidade um em direção ao outro até que um motorista desvie, demonstrando medo, salvando a ambos e dando a vitória a seu competidor. Se os dois forem “machos”, morrem abraçados às ferragens, nas chamas de sua patética e ensandecida virilidade.
Leia Mais...»Facebook, 3 de maio, 2020
LES
Se me permitem, destaco três matérias na Folha de SP neste domingo, 3 de maio: (1) o ensaio de Nuno Ramos sobre a pandemia e a crise política, o texto mais brilhante que li nos últimos tempos; (2) a coluna de Gaspari, que focaliza finalmente o silêncio da mídia sobre a rede privada de saúde, que tem 50% dos leitos de UTI vazios (enquanto a rede pública está em ou na iminência do colapso) e vem bloqueando o debate sobre a necessidade urgente de unificar a fila de atendimentos para a COVID-19. A rede privada tem 15.898 leitos de UTI e a rede pública, 14.876. Se o ministro, o governo, o MP e a Justiça continuarem a fazer cara de paisagem, os pobres vão morrer, afogados no seco, e os ricos vão se salvar. (3) A coluna da ombudsman, Flavia Lima, mostrando como a mídia continua tratando Sergio Moro como o insuspeito magistrado, como se alguém pudesse entrar, inocente e imaculado, em um governo de energúmenos fascistas e, pior, sair puro e virginal. Quando terá o ex-juiz percebido que o abatedouro não cheirava bem? De todo modo, sublinho aqui a questão que me parece decisiva, sobre a qual Lygia Bahia escrevera e alguns temos martelado, em vão: quando vamos abrir o jogo sobre a rede privada e a necessidade de instaurar a fila única para atendimento?
Post no Facebook, em 28 de abril de 202
Luiz Eduardo Soares
Conheçam o plano do governo federal para sair das cordas e ganhar sobrevida: Guedes foi ao mercado e Bolsonaro foi às compras, comprando o apoio do Centrão -os cargos federais no país todo já estão sendo negociados. Enquanto isso, Guedes passou o seguinte recado à Globo, a Rodrigo Maia e Alcolumbre, aos Bancos e ao empresariado mais poderoso: “Se Bolsonaro cair, Mourão virá com Braga Neto e a turma de generais, implementando planos estatistas, neokeynesianos, ao estilo Geisel-Dilma. Portanto, as elites econômicas têm de renovar o apoio a Bolsonaro, e eu, Guedes, me comprometo, com o endosso do presidente, a seguir liderando o projeto neoliberal no pós-pandemia.” Ou seja, abram os olhos: o que está em jogo é a direção da política econômica na saída da crise sanitária.
Leia Mais...»Post no Facebook, 25 de abril, 2020
Teses de abril (desculpe a brincadeira, Vlad): (
1) O famigerado mercado só se preocupa com o affair Moro na medida em que causa instabilidade. Aquela turma não quer saber se há ou não intervenção auto-interessada na PF, se o presidente é miliciano, aliado de assassinos e cúmplice de genocídios. As elites sempre souberam quem é Bolsonaro. O capital nunca teve escrúpulos.
Leia Mais...»Assim como transformaram capitão Nascimento em herói, transformaram Ustra em herói e Bolsonaro em presidente
O Estado de S.Paulo, 22 de abril de 2020
Por Isabella Marzolla
Segurança pública em tempos de pandemia é um tema fundamental. Os riscos de convulsão social, a situação nos presídios, o controle de informação, a lógica das milícias, o aparelhamento das polícias ou mesmo o protagonismo da classe política, com o presidente Bolsonaro e o ministro Moro à frente.
Prato cheio para uma conversa com Luiz Eduardo Soares, antropólogo, cientista político, e co-autor do best seller “Elite da Tropa”. Capitão Nascimento, o anti-herói que se tornou herói para alguns milhares em um sobressalto, também se tornou objeto de reflexão nesta entrevista.
“Uma sociedade que tolera e convive pacificamente com os cantos guerreiros de policiais, entoados nas ruas da cidade, à luz do sol, já aninhou a serpente”.
“O poder na lógica miliciana é o que é porque pode, funda-se a si e em si mesmo, em seu exercício autóctone continuamente reproduzido, que não pode deixar de reproduzir-se sob pena de desmanchar no ar. A dinâmica da autorreferência -que exclui o Outro, a sociedade, os poderes plurais, as instituições, as regras e os limites- prescinde de justificativas, fundamentos, pressupostos. Trata a ciência com escárnio e o questionamento como desafio cuja resposta só pode ser a bala ou a difamação”.
Querida bisneta
Querida bisneta (que um dia há de nascer),
sinto que lhe devo uma explicação. Lego a você e sua prole, se houver, um país de canalhas. Seria fácil lhe pedir desculpas, dizer que me esforcei para evitar, mas a verdade é que fui, sim, responsável. Caí na esparrela de que não havia mais nada a fazer. Caí porque era conveniente. Para não pôr tudo a perder, pus tudo a perder. Não incendiei catedrais, não matei o tirano, não parei o trânsito de todas as cidades como um assassino decente teria feito, não providenciei o desespero dos genocidas, não despedacei o corpo do imperador, não invadi a casa-grande, não pendurei o senhor pelos pés, não injetei o sangue dos mutilados no coração dos traidores, não calcinei a terra dos violadores, não violei o túmulo dos cínicos, não persegui os torturadores até o inferno, não reparei que a gentileza era lúgubre e cúmplice, não vi o que se podia ver e era demasiado, não quis pra mim o horror que é sua herança, não tive coragem de não ser bom, não fiz o trabalho sujo que meu tempo exigia, não quis figurar na galeria dos bárbaros, não quis carregar nos ombros a pilha de cadáveres, não quis o punhal e a dor das mães, não quis o fardo de pulhas abatidos, não pronunciei a palavra maldita, não levei até o fim a exumação da história infectada do Brasil, não infectei com o veneno de minha revolta a alma santa dos delicados.
Luiz Eduardo Soares (abril de 2020, ano 1 da pandemia)
RESPIRAÇÃO ARTIFICIAL COMO ESTRATÉGIA E UTOPIA
(E o Rio, cadê?
Como o clichê, e o real,
desmanchou no ácido
de Venceslau.
E o sol, cadê?
Cadê o carnaval?
E o samba, José?
O Rio dançou?)
1. Abominações introdutórias
O Rio de Janeiro é um clichê global poderoso que está em xeque. A cidade rebelou-se contra seu retrato. O Dorian Gray urbano precisa da degradação de sua imagem-fetiche para libertar-se do feitiço e viver, assumindo os riscos e as novas possibilidades. Cumpre destruir a imagem encantada e deixar morrer o que sobrevivera às custas da fantasia benevolente. Esta é a exigência dos milhões de cariocas que se rebelam contra a domesticação imposta pela história edulcorada que contamos a nós mesmos sobre o que somos. Esta é a agenda de quem ama a liberdade e a justiça, nas suas mais variadas acepções. O tempo da autoindulgência acabou. O Rio atravessa um momento doloroso e fecundo de perigo e reinvenção. A estação de fúria e tempestades não anula o mar, o sol, o esplendor da mata Atlântica e a dança infinita, mas estilhaça ilusões e incinera a pachorra pusilânime dos cartões postais.
Leia Mais...»Sobre a politização dos policiais (um diálogo com Bruno Torturra)
Facebook – 21 de fevereiro, 2020
Luiz Eduardo Soares
A politização dos policiais não começou com Bolsonaro, nem se esgota entre os militares. Conheço muitos ultra-direitistas militantes nas polícias civis e federais. E não se trata apenas de afinidades eletivas entre espíritos conservadores e instituições que portam a marca histórica de culturas corporativas conservadoras. Há bem mais que isso e o que há não é óbvio. A rotina policial -e aqui não generalizo a análise, refiro-me apenas aos segmentos (e são numerosíssimos) infectados pelo bolsonarismo, em todo o país- põe em marcha uma vida de militância e ativismo, sem dizer seu nome. A prática policial desses segmentos corresponde a um verdadeiro ativismo político contínuo. Ela se dá sob a forma de reafirmação de um crivo de leitura da história, ideologicamente enviesado, que foi viabilizado (legitimado) pela continuidade institucional e valorativa das polícias, fruto da transição política negociada, sem ruptura, que prevaleceu no Brasil. Trata-se ao mesmo tempo de leitura do passado e construção do presente à sua imagem e semelhança. A história do Brasil racista e classista tem sido escrita todos os dias, exaltada, celebrada e rememorizada, pela violência policial. A história no que ela tem de essencial e inercial, como se fora menos um fluxo e mais uma condição ontológica reposta, reencenada, reinstalada. A prática desses segmentos policiais tem escrito e reescrito a história na pele, no corpo (e no espírito) dos escravos, no dorso da sociedade (dorso pobre e negro) -a imagem eu a devo a Kafka, em seu conto magnífico, Na Colônia Penal.
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