Rio – Depois de ocupar a Secretaria Nacional de Segurança no começo do governo Lula, de ser candidato a vice-governador pelo PT, professor de diversas universidades e ajudar a criar o icônico personagem Capitão Nascimento, Luiz Eduardo Soares está diante de novo desafio: agora, ele é militante e um dos principais intelectuais filiados à Rede Sustentabilidade, recém-fundado partido da ex-presidenciável Marina Silva. Ao DIA, ele afirmou que a legenda deve “experimentar novas formas de fazer política” e “errar erros novos”. Defendeu a candidatura de Alessandro Molon à Prefeitura do Rio e analisou o atual momento petista, lembrando da aliança entre Lula e Garotinho que implodiu sua candidatura. Em balanço sobre a segurança no Rio, resume uma das ideias principais de seu novo livro. “Essa conversa de cidade maravilhosa é um deboche”, afirmou ele, defensor de uma reformulação total nas polícias.
A hora e a vez do pacto republicano
Coluna para o site Justificando publicada em 26/05/2016
Eis o abacaxi: quando, por vias formalmente compatíveis com ditames constitucionais (mesmo havendo notório erro de juízo), um grupo político infestado de mafiosos assume o poder federal (deixo de lado, para efeito de raciocínio, os vínculos evidentes com grandes interesses econômicos), é preciso mobilizar a grande tradição do pensamento político para enfrentar o desafio, cujo caráter é, simultaneamente, intelectual, ético, legal e político. O cidadão democrata e republicano, fiel a seu dever constitucional, ao mesmo tempo indignado ante a gravidade ético-política da conjuntura, coloca-se a pergunta, o que fazer?, posto que já não basta contemplar e opinar. Agir é um imperativo ético e uma necessidade política. Entretanto, sem formular, intelectual ou conceptualmente, a natureza holográfica do abacaxi, em suas múltiplas camadas e dimensões – um monumental abacaxi-em-movimento -, não há como decidir o caminho, como definir o rumo. Nesse momento, a reflexão acumulada da filosofia política ajuda.
Rio de Janeiro review – the dark side of Brazil’s ‘Marvellous City’
Brazil is living through a monumental political, economic and constitutional crisis. From being the darling of the Brics, it is falling harder and faster than all the rest (if you exclude South Africa from the club). This process, triggered by a vast corruption scandal and an overreliance on income from commodities, has rekindled old and perilous political tensions within one of the world’s most unequal countries.
Leia Mais...»Facebook post ainda sobre impeachment e Temer – 17/05/2016
Digamos que você saiba, sem margem para dúvida, que alguém matou cinco pessoas e agora está sendo julgado por um assassinato que, você também tem certeza, não cometeu. Você, membro do juri, condenaria ou absolveria o réu? Eu e quem aplicasse constitucionalmente o direito absolveríamos. Em sua esmagadora maioria, quem defendeu o impeachment fez o contrário do que eu faria: mirou o petrolão alvejando as pedaladas. Erro judicial, pelo motivo referido, e erro político, por várias razões: (1) legitima o procedimento que instrumentaliza o direito, ainda que o fizesse buscando realizar fins em si mesmos justificáveis; (2) transfere o poder para o lado B da máfia, o mais voraz e dependente de grandes interesses predatórios, racistas, misóginos, homofóbicos; (3) vitimiza vilões, sócios dos algozes, agora por estes traídos.
Leia Mais...»Respiração artificial: Sobre o impeachment e suas implicações
Publicado no caderno Ilustríssima da Folha de São Paulo em 24/04/2016
RESUMO O antropólogo, ligado à Rede Sustentabilidade, critica discurso sobre o “golpe” e reafirma a ideia de que conservadores e progressistas podem conviver numa democracia. Seria possível encontrar laços potenciais e referências políticas e morais a compartilhar, apesar da difusão da ideia de que o país se encontra dividido.
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Parece haver um consenso sob os escombros da política brasileira, um acordo tácito abaixo da linha de fogo: todos reconhecem que a atmosfera está envenenada pelo ódio e por polaridades radicalizadas. Isso torna útil o serviço da perícia. Está na hora de recolher vestígios e mapear rastros, na expectativa de que nos levem ao mapa da mina.
Em nosso caso, a mina de ouro não está nos extremos furiosos e enrijecidos, mas nos canais submersos que os ligam e separam, como se fossem vasos minúsculos de comunicação, dando passagem a movimentos imperceptíveis de transição, nos quais se introduzem nuances e gradações. Essa cartografia dinâmica talvez possa, uma vez explorada, municiar os atores dispostos a construir pontes e parâmetros para a concertação que se imporá, em algum momento –ou não teremos país algum.
Leia Mais...»Sou contra o impeachment porque penso no dia seguinte
Publicado no site justificando.com em 12/04/2016
Amig@s, não tenho a intenção de demonizar ninguém que seja a favor do impeachment, tenho muitos amigos favoráveis e a maioria de meu partido prefere o impeachment. Quero apenas compartilhar as razões pelas quais sou contra, razões que tenho repetido há meses, em textos e debates públicos. Aprovado o impeachment, no dia seguinte, a mídia vai clamar por uma trégua para que o novo presidente possa trabalhar em paz e para que a economia se reequilibre. O ministro Gilmar Mendes, novo presidente do TSE, vai empurrar com a barriga o processo contra a chapa Dilma-Temer, para não desestabilizar o novo governo. Dirá: “O Brasil não aguenta outra queda de presidente”. Editorialistas escreverão: “A economia não resistirá a uma nova perturbação da ordem. Deixem as eleições para 2018. Agora, todos devem dar uma trégua ao presidente Temer. Agora, vamos trabalhar para restabelecer a confiança e reeguer a economia”.
Leia Mais...»Sobre o impeachment
(post no facebook em 5 de dezembro de 2015)
Luiz Eduardo Soares
Canalhas e gangsters não têm ideologia, ainda que ergam bandeiras. O PT,
apesar de tão degradado, não tem o monopólio da vilania. O PSDB criou o
mensalão e posa de guardião da ética. Cunha não merece nem adjetivos. 2013
evidenciou o colapso da representação. 2014 revelou, na campanha, que a
sordidez do PT não tem limites. A Lava-Jato provou que o crime
institucionalizou-se. Os partidos sectários esquerdistas, como o PSOL, são
personagens patéticos e melancólicos, que acabaram aderindo ao PT, e vão
abraçá-lo agora de novo, porque consideram a crítica ética um desprezível
moralismo pequeno burguês e toleram a corrupção, desde que seja “de
esquerda”, porque acham que o problema é uma entidade metafísica chamada “o
sistema”. Por tudo isso, no Brasil, a tarefa número um é recusar a corrupção,
venha de onde vier. É recusar o crime organizado de colarinho branco e adesivo
partidário, ao mesmo tempo em que se impõe a repulsa mais veemente ao
genocídio de jovens negros e pobres nas periferias. São duas faces da mesma
moeda. A barbárie também veste Prada. E o impeachment?
Leia Mais...»Redes, parangolés e a conjuntura nacional
RESUMO Antropólogo e um dos articuladores da Rede Sustentabilidade critica o ambiente de antagonismo e ódio que se acirrou na política e na sociedade brasileiras com as eleições de 2014. No texto, o autor de “Elite da Tropa” recorre à obra do artista Hélio Oiticica para refletir sobre novos rumos para o debate e a prática política no país.
Leia Mais...»Na política brasileira, liberais são anti-liberais
Entre as desditas brasileiras estão seus liberais. No Brasil, desgraçadamente, os liberais apoiaram a escravidão e a ditadura. Jamais compreenderam e abraçaram a matriz axiológica que formou a filosofia política com a qual, supostamente, identificam-se. Por isso, agem e pensam como falcões conservadores e autoritários. Em sua maioria, são contrários à legalização das drogas, abrem mão do respeito rigoroso aos direitos humanos, defendem a redução da idade de imputabilidade penal, aceitam atropelos das garantias individuais, subestimam a linguagem dos direitos, ridicularizam a linguagem politicamente correta, subestimam o racismo, a homofobia, a misoginia, as desigualdades de oportunidades com que a sociedade acolhe as crianças, condenando-as a repetir a sina subalterna dos pais. Não compreendem essas bandeiras progressistas cuja origem é liberal e burguesa, e remontam a 1789. De fato, os liberais brasileiros retiveram de sua tradição apenas o credo econômico, e mesmo assim o traíam quando lhes interessava a intervenção estatal, em seu benefício. Propagavam a livre iniciativa mas repudiavam o risco. No passado foi assim, e continua sendo. Ou seja, não há, salvo raras exceções, liberais no Brasil.
Leia Mais...»‘A nação está pertubada’, define antropólogo Luiz Eduardo Soares
‘Essa conversa de cidade maravilhosa é um deboche’, afirma ele, defensor de uma reformulação total nas polícias
A UERJ e o ovo da serpente
Luiz Eduardo Soares
Mesmo afastado da UERJ, me angustia profundamente o que está acontecendo na instituição, à qual tanto devemos, à qual tanto deve a democracia no Brasil. Sou professor universitário há 40 anos. Comecei, com carteira assinada, em janeiro de 1976. Tornei-me docente da UERJ em 1991, há 24 anos. Tenho muito orgulho da imensa maioria dos alunos de ciências sociais e considero um privilégio ser colega de meus colegas e conviver com um grupo extraordinário de funcionários dedicados, competentes e cooperativos. A UERJ esteve à frente de seu tempo, assumindo políticas afirmativas, adotando cotas para negros, aceitando registrar travestis, e quem se sentisse estigmatizado, pelo nome que escolhessem. Com o ingresso de cotistas, o ambiente da universidade melhorou muito, a experiência acadêmica enriqueceu-se, qualificou-se, valorizou-se. Eu senti que meu trabalho cotidiano ganhara um sentido renovado e recarregava baterias ao encontrar @s estudantes. A primeira geração a chegar à universidade não veio à vida a passeio. Seriedade e entusiasmo com os estudos e as descobertas impuseram a nós, docentes, um grau superior de saudável exigência intelectual e profissional. Não por acaso, inaugurou-se o Instituto de Ciências Sociais, antiga reivindicação de quem sonha com o aperfeiçoamento acadêmico em nossa área. Fui honrado com o convite dos colegas para falar na mesa de abertura, semana passada. Preparo agora minha retirada: uma licença prêmio –à qual tinha direito havia bastante tempo, mas jamais solicitara– e, na sequência, a aposentadoria. Pois justamente neste momento, enfrentamos desafios extremos que colocam em risco a convivência acadêmica, civil e pessoal, e a própria instituição.
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