15 de março de 2015, uma genealogia
(Postado no facebook em 15 de março de 2015)
Luiz Eduardo Soares
Milhares de pessoas nas ruas. Vozes em protestos se misturam a brados nas redes, sussurros em gabinetes, bate-bocas em reuniões apressadas e nervosas. Zoeira babélica frita mentes zen. Momento extraordinariamente rico para o país e para a reflexão. Tudo o que é rico é arriscado: o futuro se liberta da previsibilidade que domestica a liberdade da ação humana. Incerteza é o outro lado da criatividade, da potência coletiva. Bem-vindo o risco, bem-vinda a indeterminação, bem-vinda a política.
Leia Mais...»Liberais, marxistas e os direitos humanos
Luiz Eduardo Soares
(Postado no FB em 11 de abril de 2015)
Entre as desditas brasileiras estão seus liberais. No Brasil, desgraçadamente, os liberais apoiaram a escravidão e a ditadura. Jamais compreenderam e abraçaram a matriz axiológica que formou a filosofia política com a qual, supostamente, identificam-se. Por isso, agem e pensam como falcões conservadores e autoritários. Em sua maioria, são contrários à legalização das drogas, abrem mão do respeito rigoroso aos direitos humanos, defendem a redução da idade de imputabilidade penal, aceitam atropelos das garantias individuais, subestimam a linguagem dos direitos, ridicularizam a linguagem politicamente correta, subestimam o racismo, a homofobia, a misoginia, as desigualdades de oportunidades com que a sociedade acolhe as crianças, condenando-as a repetir a sina subalterna dos pais. Não compreendem essas bandeiras progressistas cuja origem é liberal e burguesa, e remontam a 1789. De fato, os liberais brasileiros retiveram de sua tradição apenas o credo econômico, e mesmo assim o suspendiam quando lhes interessava a intervenção estatal, em seu benefício. Propagavam a livre iniciativa mas repudiavam o risco. No passado foi assim, e continua sendo. Ou seja, não há, salvo raríssimas exceções, liberais no Brasil.
Leia Mais...»Manual de Auto-Ajuda política
(Postado no facebook em 15 de março de 2015)
Luiz Eduardo Soares
Situações críticas como a que estamos vivendo são preciosas para repensarmos nossas próprias posições e percepções. Se tivermos coragem de avançar nesta linha, talvez aprendamos algumas lições sobre nós mesmos –pré-condição para darmos lições aos outros. Então, abro o coração: confesso que minhas reações e emoções foram muito diferentes quando identifiquei, a meu lado, pessoas com crenças muito diferentes das minhas, em junho de 2013 e agora. Hoje, topando, via TV, com pessoas que defendem o autoritarismo, senti repulsa, mas não me repugnava, em 2013, postar-me ao lado de algumas pessoas que defendiam regimes ditatoriais, como Coreia do Norte e Cuba, ou autoritários, como a Venezuela, ou de pessoas cujos partidos defendiam o legado do stalinismo, além daquelas pessoas que apoiavam explicitamente a ditadura do proletariado.
Leia Mais...»A Ordem e o despenhadeiro
(Postado no facebook em 26 de março de 2015)
Luiz Eduardo Soares
Ordem é expectativa de ordem, profecia que se auto-cumpre. Ordem é a ilusão compartilhada de que o futuro é a extensão linear do passado. Esta fantasia apazigua o espírito, conjura o acaso, abole a indeterminação e converte em destino a aventura de viver. No entanto, a suposta ordem –mais que a fé que suscita, e na qual repousa– é volátil, desfaz-se com um sopro de incerteza. A ordem é a varinha mágica com que domesticamos a morte e exorcizamos a consciência da finitude. Por isso, a tragédia na França, que matou 150 pessoas, é tão inquietante, e desta vez mais do que nos outros acidentes aéreos: este não foi propriamente um acidente, não decorreu de falha humana ou mecânica, nem de condições atmosféricas. Tampouco foi produzido em nome de uma racionalização ideológico-religiosa ou política qualquer. Um homem jogou-se no despenhadeiro e levou consigo aqueles que o acaso escolheu, em seu jogo de dados com a morte. O arbítrio individual suicida transformou-se em decisão assassina, sem motivo passível de racionalização.
Leia Mais...»A Onda conservadora e as armadilhas da frente de esquerda
(Postado no facebook em 10 de abril de 2015)
Luiz Eduardo Soares
A onda conservadora no Congresso, sob a batuta do que há de pior no PMDB –que ocupou o espaço deixado vazio pela desmoralização do PT e do governo–, ameaça tanto as conquistas sociais e os direitos civis e trabalhistas, quanto a crise provocada pelo bonapartismo arrogante e obscurantista de Dilma. A pauta reacionária no Parlamento inclui a consagração da terceirização, a redução da idade de imputabilidade penal e a revogação dos avanços no controle de armas. Por sua vez, os efeitos da crise econômica podem vir a dilapidar a redução das desigualdades e o aumento da renda dos mais vulneráveis, gerando desemprego e decepções em larga escala.
Leia Mais...»Conversa de segundo turno
(Publicado com pequenos cortes na página 3 da Folha de SP, em 16/10/2014)
Luiz Eduardo Soares
(60 anos, cientista político, antropólogo e escritor)
Tenho amigos e interlocutores no PT. Os amigos respeitam e
calam. Os outros me pedem calma. Acham que estou reagindo com o fígado, por
mágoa. Eu lhes digo que não é mágoa, é indignação. Balançam a cabeça,
condescendentes. Ainda têm esperança em minha conversão. Cada voto vale a
paciência dos militantes. Sei que essa indulgência com minha rebeldia tem prazo
de validade. Assim que desistirem de mim, empurram-me ao inferno sem
piedade. Quando digo que Marina foi caluniada da forma mais torpe pela
campanha do PT, atribuem a selvageria ao marqueteiro, álibi para toda vileza.
Leia Mais...»Por que apoio Marina: postado no facebook em 26 de agosto de 2014
Aos amig@s que discutem democrática e respeitosamente, tenho a maior satisfação em responder. Àqueles que fazem o proselitismo hostil, buscando apenas desconstituir a candidatura de Marina com slogans e acusações, ultrapassando os limites do que um dia se chamou compostura, só me resta responder com o bloqueio. Não vou permitir que usem esse espaço para mera propagação do ódio ou para execução de tarefas profissionais a serviço de sabe-se lá quem. Quanto à equipe de assessores e interlocutores temáticos de Marina, eis o que penso.
Leia Mais...»Por que apoio Lindbergh para o governo do Estado do Rio?
Luiz Eduardo Soares
Tomo a liberdade de escrever em clave pessoal, apesar da natureza eminentemente pública do tema: política e eleições. Espero que o desenrolar dos argumentos justifique a opção.
As jornadas de junho de 2013 corresponderam a um deslocamento de placas tectônicas na sociedade, precipitando energia em escala colossal, cujos efeitos nas mais diferentes dimensões só serão conhecidos no futuro. A riquíssima efervescência popular, em sua multiplicidade irredutível, apontava criticamente para a qualidade dos serviços públicos, para as iniquidades assombrosas que resistem aos avanços democratizantes recentes do país, para a brutalidade do Estado delegada à polícia e para as ruínas em que se converteu a representação política, hipnoticamente siderada por negócios escusos, carreiras pessoais e tertúlias internas, e refratária ao diálogo com a sociedade. O jogo da política degradou-se em farsa. Junho conferiu visibilidade ao cadáver insepulto da política tal como tradicionalmente praticada, e não só nas casas parlamentares, também em sindicatos e muitos movimentos sociais. Entretanto, se as fórmulas antigas mal se sustentam, despedaçadas pelo inaudito protagonismo cidadão, o processo exige mais política para que a representação seja reinventada, mais política para que a institucionalidade seja transformada, interagindo com a demanda popular por participação e com o espírito constitucional, tão mais participativo do que tem sido a prática corrente nesse último quarto de século.
Leia Mais...»A terra treme no país de desigualdades e paradoxos
Link para o artigo publicado no Los Angeles Review of Books>>
(com tradução na sequência do teto em inglês)
Hora Zero no relógio popular
Luiz Eduardo Soares
(Antropólogo, cientista político, escritor e professor da UERJ)
A sociedade brasileira tomou as ruas e sequestrou para si o título que lhe custara bilhões de reais e, por decisões autocráticas, a excluíra: o grande evento. Centenas de milhares de pessoas deslocaram o campo de futebol para o meio da rua e vestiram a camisa do país, assumindo inaudito protagonismo histórico. Resta ao intérprete calçar as sandálias da humildade e admitir sua ignorância e perplexidade ante o fenômeno radicalmente novo. O interesse público fora confiscado pela tecnocracia, aliada a empreiteiras e subserviente à tutela arrogante (e voraz) da Fifa. Os então chamados “grandes eventos” serviram de justificativa para lucros extraordinários e a festa da especulação imobiliária, sob a retórica do legado social, enquanto a mobilidade urbana tornava-se, crescentemente, uma contradição em termos. A massa rompeu expectativas e a tradição de apatia, e inventou um movimento que será, por suas lições e seus efeitos, o verdadeiro legado às gerações futuras. A narrativa passou a ser escrita, nas ruas e nas redes virtuais, por milhões de mãos e vozes, desejos e protestos, inscrevendo seus autores na cena global, em diálogo com outras praças, outras multidões, outras lutas. A sociedade virou o jogo.
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