“O risco da infiltração é permanente porque Bolsonaro investe no fortalecimento das milícias”, diz antropólogo sobre protestos
Publicado em: no RFI
As manifestações de rua realizadas no último fim de semana em várias cidades do Brasil não se traduziram em confrontos entre apoiadores e adversários do presidente Jair Bolsonaro, como temiam forças de segurança e muitos intelectuais. No entanto, o risco de agentes se infiltrarem em novos protestos para disseminar violência é alto e não pode ser descartado como estratégia para justificar medidas autoritárias, avalia o antropólogo e cientista político Luiz Eduardo Soares.
Um texto assinado por Soares circulou amplamente na internet com pedido para que movimentos sociais não comparecessem aos recentes protestos. A mensagem alertava para a ameaça da presença de agentes infiltrados que poderiam semear o caos e criar um clima de desordem que serviria para justificar eventuais medidas de ruptura institucional.
“O sebastianismo policial encontrou seu messias. Estão abertas as portas do inferno”
Entrevista ao jornal “O Estado de São Paulo”, 10 de junho de 2020
Com Isabella Marzolla
“Segmentos numerosos e com grande potencial de liderança das polícias brasileiras, não apenas das militares nem só das paulistas, foram infectadas pelo bolsonarismo. Ou melhor, já eram bolsonaristas antes de Bolsonaro. As corporações herdaram as culturas corporativas forjadas na ditadura militar, as quais, por sua vez, eram tributárias da longa tradição racista e classista que marcou sua história. Assim como a arquitetura institucional da segurança pública, que inclui o modelo policial, não foi alterada pela transição democrática -a Constituição de 1988 consagrou o que estava estabelecido-, tampouco se democratizou a cultura das instituições. Nenhuma instituição serve aos porões da ditadura impunemente. As digitais da ditadura permanecem atuais, apesar dos discursos oficiais”.
“Se Moro cerrar fileiras pela anulação das eleições no TSE, devolvendo ao povo o direito de escolha, não deveria ser excluído (dos manifestos). Não se trata de ajustar as contas com o passado de ninguém, nesse momento, nem de disputar a liderança da frente anti-fascista. Isso se fará, no futuro. Trata-se de salvar vidas e o que nos resta de democracia”.
“O personagem ausente da equação, até agora, é o povo. Quando o sentimento popular for conquistado para a resistência ao fascismo, o bolsonarismo acabou”.
“O povo queria uma revolução e elegeu a contrarrevolução”.
“Resta saber qual será a via de derrocada da democracia: a sequência desse movimento de corrosão gradual e crescente, que já está em curso, ou alguma ruptura mais clara, a qual envolveria a criminalização dos movimentos sociais, o cerceamento no acesso às informações e a desconstituição do esforço do Supremo na desmontagem da máquina de fakenews. Um sintoma do bolsonarismo é a capitulação de Witzel, chantageado pelos óbices ao repasse de verbas e pelas investigações da PF (que podem ter fundamentos corretos, mas cujo timing não foi indiferente à conjuntura política)”.
“A questão (genocídio dos jovens negros em territórios vulneráveis) não se resume à polícia, e por isso se trata de racismo estrutural: o MP, por ação e omissão, é cúmplice; a Justiça abençoa; as autoridades governamentais autorizam e estimulam; a mídia só eventualmente denuncia; grande parte da sociedade tolera, quando não aplaude. Preciso dizer mais?”
Luiz Eduardo Soares é um dos mais importantes especialistas em segurança pública do país. Antropólogo, cientista político, e co-autor do best seller “Elite da Tropa”, foi secretário nacional de segurança pública (2003).
O tema desta entrevista foi a influência do bolsonarismo sobre as PMs, racismo estrutural e protestos, enquanto a pandemia corre solta.
Como foram as manifestações de 7 de junho
Facebook, 8 de junho, 2020
LES
É hora de valorizar tudo o que os atos pela democracia e contra o racismo mostraram de positivo, desde os cuidados para evitar a expansão da pandemia até a atenção bem planejada que evitou provocações, de modo a que as grandes bandeiras em torno das quais todas e todos se uniam impuseram-se com luz própria, sem máculas. O fato de que os números tenham sido modestos não reduz a importância das manifestações e até contribuiu, dadas as circunstâncias, para seu sucesso.
Leia Mais...»Apelo às lideranças democráticas
3 de junho de 2020
Luiz Eduardo Soares
Faço um apelo a todas e todos que sabem o que significaria um golpe policial-militar, sob liderança fascista. Os sinais são assustadores, ostensivos e crescentes. Hoje, o vice-presidente publicou um artigo absurdo e ameaçador no Estadão. Aras, embora tenha se corrigido depois, disse ao Bial que as Forças Armadas poderiam, sim, intervir se um poder invadisse a seara do outro, numa clara alusão crítica ao Supremo. Ives Gandra está a postos para escrever a justificativa “constitucional” do golpe. Nunca faltaram juristas aos generais; não faltarão ao capitão. Eduardo Bolsonaro confirmou: a ruptura está decidida, espera-se apenas a oportunidade. O presidente sobrevoou manifestação contra o Supremo e o Congresso ao lado do ministro da Defesa. Precisa desenhar?
Leia Mais...»A história do mineiro esperto
Facebook, 2 de junho, 2020
A história do mineiro esperto
Eu morava nos Estados Unidos, fazia pós-doutorado e frequentava, quando podia, um restaurante brasileiro. Estávamos em meados dos anos 90. O dono era um mineiro muito simpático. Conversávamos sobre futebol e a saudade de nossa terra. Sem internet, a saudade era grande. Para minha inveja, ele tinha uma antena especial em casa que lhe permitia ver, em tempo real, alguns jogos do Brasil. Como se aproximava a decisão do campeonato carioca que meu time disputaria, combinei com meu novo amigo que assistiríamos juntos. Uma semana antes, a ansiedade crescia e eu o procurei para acertar os detalhes.
Leia Mais...»João Pedro Mattos Pinto
Facebook – 19 de maio, 2020
LES
João Pedro Mattos Pinto, 13 anos, estupidamente assassinado por policiais dentro de casa, brincando em família. Uma criança saiu da casa quando alguns tiros foram ouvidos, para avisar: “aqui só tem criança”. Policiais, diante disso, tomaram a casa por alvo. Lançaram uma bomba de efeito moral ao interior e invadiram a residência atirando. Onde no mundo se age assim? Qual gatilho mental dispara essa insanidade homicida? Que cálculo justificaria invadir uma casa, atirando? Alguém com um mínimo de bom senso, um mínimo de equilíbrio, poderia admitir uma ação assim covarde, tão absolutamente perversa?
Leia Mais...»Apelo à unidade anti-fascista
Postado no facebook, em 17 de maio de 2020
Luiz Eduardo Soares
No campo das esquerdas, tem sido crescente o apelo a revisões críticas e auto-críticas. Afinal, se o país está à beira do abismo, com ameaças seguidas de golpe por parte do garimpeiro genocida do Planalto, se o que nos resta de democracia e de respeito constitucional está se esvaindo a cada dia, ante o avanço do fascismo, é porque, além de um vasto conjunto de fatores que não controlamos, alguns erros nós cometemos. Pelo menos um deles é inegável: nós subestimamos o inimigo. Acho que até aqui há consenso. Muito bem, se é assim, o que não se pode admitir em nenhuma hipótese? A resposta é simples: repetir o erro. Que se cometam erros novos é natural e, na prática, inevitável. Mas insistir no mesmo erro seria estúpido e irresponsável, e demonstraria um nível de incompetência, tibieza, pusilanimidade de nossas lideranças incompatível com a gravidade do momento que vivemos. Não é preciso ser um estadista, um visionário ou um gênio para reconhecer que subestimamos o potencial de contaminação e de letalidade do fascismo no Brasil, e que não podemos continuar a subestimá-lo.
Leia Mais...»Regina Duarte
Facebook, 8 de maio, 2020 (segundo post do dia)
LES
Nem sempre o jogo é saudável e serve a causas nobres (que jogo? Explico no segundo parágrafo). Foi o que pensei quando assisti ao espetáculo de Regina Duarte, ontem, pasmo como qualquer pessoa não entorpecida pelo fanatismo. Ela desfilava nas ruas brasileiras de alto a baixo, leve, saltitando sobre os corpos, evitando os moribundos, entoando a marchinha ufanista dos anos de chumbo, mãos dadas a si mesma em versão bailarina, melancolicamente adolescente, pateticamente juvenil, convidando aos uivos a vizinhança para celebrar a amnésia, convocando o que há de macabro e cruel na alma humana para a festa noturna de thanatos, evocando os deuses da morte e da guerra para o festim de sangue e ruína, desdenhando torturas e assassinatos, leve, sempre leve, na pontinha dos pés, tocando flauta e ateando fogo nas matas que restam, fazendo arder as cidades e a decência, soprando as chamas do inferno sobre a história do país, incinerando o que ainda pudesse ter sobrado de dignidade no Brasil.
Leia Mais...»Está na hora da unidade para resistir e defender a democracia
Postado no facebook em 8/05/20
LES
Sinto tristeza e um profundo desânimo com a despolitização, a visão rasa, estreita de vários amigos meus, companheiros valorosos de luta, segunda a qual a democracia nunca existiu para as periferias. Citam Agambem, falam em estado de exceção, etc. Sim, claro, e poucos têm sido como eu tão enfáticos e insistentes quanto a isso: a democracia efetivamente não chegou às periferias. Nada mais verdadeiro: os territórios mais vulneráveis e as comunidades têm sido sistematicamente subtraídos da vigência do Estado democrático de direito. Ali, a exceção é a regra. Ali, na prática, substantivamente, vigora o Estado de exceção, sim. Esse fato é incontestável.
Leia Mais...»O luto, Carlitos, e a luta que segue
Facebook, segundo post, dia 4 de maio, 2020
LES
Em 1979, fui algumas vezes ao Galeão receber grandes líderes das lutas históricas do povo brasileiro que voltavam do exílio. Gregório Bezerra, Miguel Arraes, Luiz Carlos Prestes, Betinho. Nós cantávamos “O Bêbado e a equilibrista”, nosso hino de amor, a canção da Anistia. Eu era jovem, a militância ainda era clandestina, a democracia parecia quase ao alcance da mão, e aquele mar de gente me comovia tanto que parecia que era o Brasil todo que batia dentro do peito. Caía a tarde feito um viaduto. Eram tantos os nossos mortos, assassinados pela ditadura, eram tantos ainda os riscos, o medo rosnava. Cada um de nós arrastava a memória de sangue e horror, mas com nossos heróis chegava o futuro. Era a volta do futuro. E um bêbado trajando luto nos lembrava Carlitos. Hoje, de novo, choram Marias e Clarices, e nós mergulhamos de novo no inferno. A democracia que construímos traiu os sonhos, era um brilho de aluguel. Pelo menos temos as bandeiras, guardamos as bandeiras intactas. E temos ainda o maior dos trunfos, cravado na história de cada um e de cada uma de nós, o hino da esperança que hoje canta por nós, em nossos olhos, sem que seja preciso dizer nada. Obrigado Aldir Blanc.







