Por que apoio Lindbergh para o governo do Estado do Rio?
Luiz Eduardo Soares
Tomo a liberdade de escrever em clave pessoal, apesar da natureza eminentemente pública do tema: política e eleições. Espero que o desenrolar dos argumentos justifique a opção.
As jornadas de junho de 2013 corresponderam a um deslocamento de placas tectônicas na sociedade, precipitando energia em escala colossal, cujos efeitos nas mais diferentes dimensões só serão conhecidos no futuro. A riquíssima efervescência popular, em sua multiplicidade irredutível, apontava criticamente para a qualidade dos serviços públicos, para as iniquidades assombrosas que resistem aos avanços democratizantes recentes do país, para a brutalidade do Estado delegada à polícia e para as ruínas em que se converteu a representação política, hipnoticamente siderada por negócios escusos, carreiras pessoais e tertúlias internas, e refratária ao diálogo com a sociedade. O jogo da política degradou-se em farsa. Junho conferiu visibilidade ao cadáver insepulto da política tal como tradicionalmente praticada, e não só nas casas parlamentares, também em sindicatos e muitos movimentos sociais. Entretanto, se as fórmulas antigas mal se sustentam, despedaçadas pelo inaudito protagonismo cidadão, o processo exige mais política para que a representação seja reinventada, mais política para que a institucionalidade seja transformada, interagindo com a demanda popular por participação e com o espírito constitucional, tão mais participativo do que tem sido a prática corrente nesse último quarto de século.
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Luiz Eduardo Soares: “Acabou o sossego para as elites brancas brasileiras”
por Dario de Negreiros, do Rio de Janeiro, especial para o Viomundo*
O imperativo de desmilitarização das polícias brasileiras tem aparecido com cada vez mais força e maior frequência no debate público, em especial dentre os setores mais progressistas.
Apesar disso, é raro encontrarmos textos que aprofundem a compreensão da questão e que ponham em pauta outras deficiências tão ou mais importantes de nossas instituições policiais.
Isso o faz, seguramente, o antropólogo Luiz Eduardo Soares, um dos autores da PEC-51, que altera radicalmente a arquitetura institucional da segurança pública no país.
Desmilitarização, ciclo completo e carreira única formam o tripé da emenda constitucional proposta pelo senador Lindbergh Farias (PT-RJ).
Nesta entrevista, concedida no dia 13 de janeiro, na Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), além da discussão mais geral sobre os impasses da segurança pública no Brasil, o professor faz sua análise sobre os resultados obtidos nesta área pelo governo Cabral, no Rio. Sem grandes motivos, em sua ótica, para otimismo.
“O governo parece ser o governo das empreiteiras, para os grandes eventos, a corrupção grassa e as reações às manifestação democráticas são reações repressivas do pior estilo”, diz. “Nós temos realmente uma corrosão da legitimidade política do governo do Rio que é espantosa.”
Soares ocupou os cargos de Secretário Nacional de Segurança Pública (em 2003, no governo Lula) e de Coordenador de Segurança, Justiça e Cidadania do Rio (entre 1999 e 2000, no governo Garotinho), quando foi também sub-secretário de Segurança Pública. Em parceria com os policiais do Bope Rodrigo Pimentel e André Batista, escreveu o livro Elite da Tropa, que deu origem ao filme Tropa de Elite.
Leia Mais...»A gota de sangue
(Postado no facebook em 10/02/2014)
Luiz Eduardo Soares
A morte do cinegrafista da Band é uma tragédia e um ponto de inflexão no processo político em curso. Pela tragédia, me solidarizo com a dor de familiares e amigos. Quanto à política, esse episódio dramático é a gota d’água, ou a gota de sangue que muda a qualidade dos debates e das identidades em conflito.
Quebrar vitrines é prática equivocada, contraproducente e ingênua, mas compreensível como explosão indignada, ante tanta iniquidade e a rotineira violência estatal, naturalizadas pela mídia e por parte da sociedade. Mas tudo se complica quando atos agressivos deixam de corresponder à explosão circunstancial de emoções, cuja motivação é legítima. Tudo se transforma quando atos agressivos já não são momentâneos e se convertem em tática, autonomizando-se, tornando-se uma espécie de ritual repetitivo, performance previsível, dramaturgia redundante.
Linchamento e rolezinho
Luiz Eduardo Soares (5 de fevereiro de 2014)
Permitam-me compartilhar uma hipótese: as cenas de linchamento na zona sul do Rio, montadas por jovens brancos de classe média, que falam a língua portuguesa com dicção facistóide e racista, são reações performáticas –inconscientes, no confronto intersubjetivo, travado no campo simbólico-político– aos rolezinhos, os quais dramatizam migrações democráticas, suprimindo fronteiras entre centro e periferia, deslocando a primazia violenta e iníqua de classe e cor.
Leia Mais...»Versão integral da entrevista a Marcelo Moura de Souza Santos, revista Época
Aqui está a versão integral da entrevista a Marcelo Moura de Souza Santos, da qual a revista Época publicou uma frase. Repito: uma frase.
Em 15/01/2014, às 16:11, Marcelo Moura de Souza Santos – Redação Época – Editora Globo escreveu:
Caro Luiz Eduardo,
Obrigado pela gentileza. Do que trata seu próximo livro?
Para não tomar seu tempo, resumirei minhas perguntas em uma só, de resposta tão longa quanto o senhor puder. O que explica e como resolver o caos no sistema carcerário brasileiro?
‘A sociedade em seu conjunto terá de mudar, porque é ela quem autoriza, hoje, a barbárie policial’
A desmilitarização da polícia, uma das bandeiras das jornadas de junho, sempre foi uma das principais de Luiz Eduardo Soares, especialista em segurança pública, professor da UERJ e antropólogo. Nesta entrevista, o autor de mais de 20
livros, entre eles Tudo ou Nada, Elite da Tropa e Cabeça de Porco, explica o motivo de sua defesa, e aponta que este é apenas o primeiro passo para o caminho árduo de construção de uma sociedade “efetivamente democrática e comprometida com o respeito aos direitos humanos”. Luiz Eduardo foi um dos principais elaboradores da PEC-51 – recentemente apresentada pelo senador Lindbergh Farias (PT/RJ) – que visa, segundo ele, reformar o modelo policial.
Meus 10 mandamentos, escritos diretamente no facebook, numa noite de insônia (de 18 para 19 de dezembro, 2013)
Luiz Eduardo Soares
No meu caso, a exaustão provocou insônia e vontade de compartilhar meus “10 mandamentos”, que podem ser nove ou vinte e um. São minhas crenças, minha religião, algumas coisas que aprendi ao longo da vida:
Leia Mais...»Homenagem a meus amigos policiais
PEC-51: revolução na arquitetura institucional da segurança pública
Luiz Eduardo Soares (antropólogo, professor da UERJ)
O senador Lindbergh Farias (PT-RJ) acaba de apresentar a PEC-51, cuja finalidade é transformar a arquitetura institucional da segurança pública, um legado da ditadura que permaneceu intocado nos 25 anos de vigência da Constituição cidadã, impedindo a democratização da área e sua modernização.
As propostas chave da PEC-51 são as seguintes: (1) Desmilitarização: as PMs deixam de existir como tais, porque perdem o caráter militar, dado pelo vínculo orgânico com o Exército (enquanto força reserva) e pelo espelhamento organizacional. (2) Toda instituição policial passa a ordenar-se em carreira única. Hoje, na PM, há duas polícias: oficiais e praças. Na polícia civil, delegados e não-delegados. Como esperar respeito mútuo, compromisso com a equidade e coesão interna desse modo? (3) Toda polícia deve realizar o ciclo completo do trabalho policial (preventivo, ostensivo, investigativo). Sepulta-se, assim, a jabuticaba institucional: a divisão do ciclo do trabalho policial entre militares e civis. Por obstar a eficiência e minar a cooperação, sua permanência é contestada por 70% dos profissionais da segurança em todo o país, conforme pesquisa que realizei com Silvia Ramos e Marcos Rolim, em 2010, com apoio do Ministério da Justiça e do PNUD, na qual ouvimos 64.120 policiais e demais profissionais da segurança pública (cf. “O que pensam os profissionais da segurança no Brasil?” Relatório disponível no site do MJ).
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