Crimes no Rio e o queremismo bolsonarista
Luiz Eduardo Soares
A Paz dos Cemitérios só engana incautos, mas são eles que podem reeleger o bolsonarista que governa o Rio. Na capa de OGlobo, em 11 de setembro de 2021, lê-se a manchete: “Por que os homicídios caem no Rio”. Quando o jornal ouve os respeitados e competentes pesquisadores Daniel Cerqueira e Daniel Hirata, hipóteses consistentes são apresentadas. Cerqueira menciona um fator estrutural, amplamente reconhecido como pertinente nas sociedades com características análogas às nossas: alterações na pirâmide demográfica -a cada 1% a menos de jovens entre 15 e 29 anos, corresponde o declínio de 2% no número de mortes violentas (não só homicídios e demais crimes letais intencionais, como também acidentes). Hirata menciona o vetor decisivo e imediatamente determinante: a expansão do domínio das milícias e a tendência à monopolização territorial, reduzindo a taxa de conflitos entre grupos criminosos e tornando os assassinatos menos ostensivos e menos passíveis de registro (a matéria o admite, referindo-se ao aumento dos “desaparecimentos”).
Leia Mais...»Os malabares do fascismo
Bolsonaro se compraz em manter no ar seus malabares: golpes de diferentes tipos, aniquilação dos “inimigos”, sublevações policiais, confronto com governadores e o STF, promessas de auxílios superiores ao Bolsa Família, reformas ultra-neo-liberais e até eleições e cumprimento da Constituição. Mantendo vivas todas as hipóteses, ele acena para as elites e os descamisados, apazigua os conservadores com os indícios de auto-contenção e, ao mesmo tempo, mantém acesas as tochas da insurreição neofascista, alimentando suas hostes extremistas com a expectativa da guerra total.
Leia Mais...»Entrevista de Luiz Eduardo Soares a Cristian Klein, do Valor
Íntegra da entrevista de Luiz Eduardo Soares a Terrence McCoy, do Washington Post
(1)Por que tem mais pessoas no Brasil mais preocupados sobre a possibilidade de um golpe?
Resposta: O próprio presidente mencionou em diferentes momentos a hipótese de “dar um basta” ao que ele chama interferências do Supremo Tribunal Federal, impondo limites a seu governo. Participou de manifestações, em Brasília, nas quais se destacavam faixas reivindicando “Ditadura Militar com Bolsonaro”. Durante a campanha, indagado sobre como contornar eventuais dificuldades com o Poder Judiciário, Eduardo Bolsonaro, filho do então candidato, disse que, para fechar o STF, bastariam um soldado e um sargento. As redes sociais bolsonaristas não cessam de difundir mensagens golpistas, clamando ao presidente que feche o Congresso e o Supremo. Políticos ligados a Bolsonaro fazem declarações ameaçadoras, veladas ou explícitas. Além disso, há uma história que justifica preocupações. História política nacional recente (lembremo-nos do tweet do então comandante do Exército, general Villas Boas, na véspera do julgamento na Suprema Corte do Habeas Corpus de Lula) e a biografia do presidente, cuja trajetória foi marcada pela defesa da ditadura, pela exaltação de torturadores e de grupos de extermínio policiais. O último pronunciamento de Bolsonaro, uma semana antes do segundo turno das eleições, em 2018, dirigido por celular de sua casa, no Rio, à multidão que se reuniu na Avenida Paulista para ouvi-lo, não deixava margem a dúvidas: em seu governo, esquerdistas teriam dois destinos, o exílio ou “a ponta da praia”, expressão usada na ditadura que designava o local de execução dos opositores do regime. Bolsonaro afirmou, ao longo da campanha, que faria uma “revolução para destruir o sistema”. Mesmo que seja apenas uma hipótese, quem, sendo democrata, não se preocupasse seria leviano.
Democracia brasileira em ruínas
Para o blog da editora Boitempo
01/07/21
Em junho de 2013, um milhão de pessoas ocuparam a maior avenida do Rio de Janeiro, num clima de festa e revolta, erguendo pequenos cartazes individuais bem-humorados, repletos de indignação e ironia, bradando seus gritos de guerra e amor, e não era carnaval. Dirigentes esquerdistas da tradicional organização nacional dos estudantes caminhavam anônimos e atônitos, em meio à multidão, perguntando-se quem convocara, quem estava no comando, quem tinha aquele poder imenso. Quem, se não havia carro de som, bandeiras, palavras de ordem? Quem, se lá não estavam partidos e sindicatos? Não acreditavam que aquele mar de gente pudesse se mobilizar sem liderança, atendendo ao chamado espontâneo das redes sociais. O mesmo acontecia, por contágio, em quase todo o país. Estavam perdidos como as demais lideranças da esquerda e da direita, como o governo Dilma Roussef e os intelectuais ouvidos pela presidenta, cuja opinião predominante logo se fixou na tese convencional: “Só pode ser coisa da CIA, do NSA, do imperialismo, associados às forças reacionárias da burguesia brasileira”. Governos estaduais lançaram suas polícias na impossível e sangrenta missão repressiva, e o caldo entornou. As manifestações se multiplicaram. Quem esteve nas ruas constatou, entretanto, que as pautas e demandas eram plurais e contraditórias, havia grupos assumidamente direitistas, mas muitos outros identificados com agendas e valores de esquerda.
Leia Mais...»La démocratie brésilienne en ruines | AOC media – Analyse Opinion Critique
La démocratie brésilienne en ruines | AOC media – Analyse Opinion Critique
Opinion
lundi
28.06.21
La démocratie brésilienneen ruines
Par
Luiz Eduardo Soares
Des sondages publiés cette semaine ont montré quetrois Brésiliens sur cinq désapprouvaient l’action de JairBolsonaro, et une majorité d’entre eux réclameraitdésormais sa destitution. Un retournement de situationspectaculaire à un an d’une élection, pour laquelle l’ex-président de gauche Lula est désormais largement entête des intentions de vote. Mais l’histoire del’accession au pouvoir de l’ancien capitaine invite à laprudence, pour l’héritier de la dictature militaire, latentation du coup d’État n’est jamais loin.
Leia Mais...»Um enclave antidemocrático
Antropólogo Luiz Eduardo Soares diz que governadores não controlam
polícias em seus Estados. Por Helena Ce l e st i n o , para o Valor, de São Paulo
A resposta que o Supremo Tribunal
Federal (STF) der à operação policial
na favela do Jacarezinho, no
Rio, com um rastro de 28 mortes,
pode acabar com o enclave antidemocrático
das forças de segurança no Brasil, uma herança
da ditadura que sobrevive até hoje. Esta
é a opinião e a esperança do antropólogo
Luiz Eduardo Soares, um dos mais respeitados
especialistas em segurança pública, autor
ou coautor de 20 livros e com passagens
por cargos como a Secretaria de Segurança
Pública no governo Lula e a coordenação da
Justiça, Segurança e Cidadania no Rio.
“Foi um desafio frontal ao Supremo”, diz,
referindo-se ao desrespeito à proibição do STF
de operações policiais nas comunidades durante
a pandemia. Entre junho e outubro de
2020, a ordem foi cumprida, e o número de
mortes despencou, sem que a criminalidade
aumentasse. Foi uma inversão temporária da
escalada do número de vítimas da violência
policial entre 2003 e 2020.
“Só no Rio registraram-se 18.110 mortes”,
diz ele. Nesta entrevista, ele analisa a politização
das polícias e o descontrole das forças de
segurança em todo o país. “Os governadores
não controlam as polícias nos Estados”, diz
Luiz Soares, el mayor experto brasileño en seguridad pública, analiza en profundidad la situación del país
1) Luiz Eduardo Soares, no solo eres un gran académico, antropólogo y politólogo, sino que trabajaste en el ejecutivo brasileño y diseñaste programas de gobierno. ¿Qué fue importante implementar y qué quedó por hacer en un país que tiene matanzas recurrentes en su historia?
Querido Tulio, muchas gracias por las generosas palabras, pero, lamentablemente, mi respuesta, en contra de mi intención, te frustrará. Lo que me pides es casi una autobiografía, porque he dedicado casi toda mi vida a ayudar a que estas masacres recurrentes nunca vuelvan a ocurrir. Siguen ocurriendo y cada vez con mayor frecuencia y brutalidad más letal. Entonces, antes de frustrar sus expectativas de una respuesta, fue mi lucha, no solo la mía, solo soy otro activista de derechos humanos que se suma a muchos, muchos otros, lo que se frustró.
Leia Mais...»Por que a resposta ao massacre do Jacarezinho é essencial? Por Luiz Eduardo Soares
Em artigo, ex-secretário nacional de segurança pública afirma que está um dos principais desafios à democracia está em jogo
Por que a resposta ao massacre do Jacarezinho é essencial?
Por Luiz Eduardo Soares*
Por que a resposta ao massacre do Jacarezinho é essencial? Primeiro, claro, porque as famílias dos mortos merecem o respeito que às vítimas não se concedeu. É necessário responsabilizar quem perpetrou homicídio, direta ou indiretamente, da ponta à cadeia de comando. Segundo, porque a resposta determinará, em parte, o futuro. Terceiro, porque está em jogo um dos principais desafios à democracia brasileira, ao que dela nos resta. Como as duas primeiras afirmações prescindem de explicação, passo a tratar da última, convocando a história para iluminar a conjuntura.
Luiz E. Soares e a formação do “Brasil miliciano”
Luiz Eduardo Soares em depoimento a Francisco Ourique e Marcio Scalercio, no Insight Inteligência
Temos diante de nós mais do que um tema, um desafio que nos angustia, nos mobiliza. É fundamental compreendermos o que significam as milícias, para que seja possível de alguma maneira definir políticas públicas, iniciativas e terapias para essa patologia tão dramática e com efeitos de fato degradantes para a sociedade, para a democracia.
É sabido que essas categorias variam historicamente e têm outras raízes, outras significações. Seguindo a trilha da história, recuo até os anos 60 ou talvez até meados dos anos 50 e, evidentemente, partindo de alguns pressupostos indispensáveis, levando em conta de que país estamos falando.
Nosso país é profundamente desigual e marcado pelo racismo estrutural. Um país cuja história tem sido muito dura e violenta. Portanto, os episódios, esses eventos, as circunstâncias e dinâmicas são profundamente violentos e, nesse sentido, compatíveis com as características da nossa sociedade. Sendo assim, dificilmente seriam possíveis em outros contextos.
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